Oi, sou o Estado, em que posso te ferrar hoje?

Apresentação1Conheci recentemente um empresário muito simpático, falante e que tinha um sotaque diferente. Pensei que se tratava de um italiano. Mais tarde ele me revelou que era argentino e que morava no Brasil havia 30 anos. Em uma conversa inicial sobre filhos, escola, família, começamos a falar sobre politica e empreendedorismo. Disse a ele sobre meu desanimo com relação a isso e a completa falta de coragem para empreender novamente depois de sucessivos fracassos.

-Amo esse lugar. São Paulo é uma cidade incrível. Mas muito complicada sabe? – ele disse isso de forma segura.

Concordei com ele. Disse que os sucessivos governos de esquerda populistas de tivemos nos últimos 30 anos destruíram a maior cidade do país. – Infelizmente temos que conviver com isso. –  eu disse a ele com um tom de resignação.

– Na Argentina foi a mesma coisa. Os Kirchner, populismo, esquerdismo, um inferno, disse ele rindo. – Mas o Brasil é forte, precisa apenas acabar com a corrupção. – ele concluiu. Então, depois de alguns segundos pensativo continuou:

– Meu caro, vou te contar uma história inacreditável que eu vivi aqui em São Paulo. Há alguns anos, resolvi abrir um bistrô charmoso em Moema. Aluguei o local, reformei, investi um bom dinheiro nisso. Abri a empresa, contratei o pessoal e comecei logo a atender o público, pois acreditava que estava com toda a documentação em ordem e algumas outras em andamento com o contador, e precisava faturar né?. Aí começaram os problemas. Para conseguir que o alvará de funcionamento fosse definitivamente autorizado, tive que conseguir um monte de outros alvarás e pagar um monte de taxas que eu nem sabia que existiam. Era necessário tirar documento para tudo: desde corpo de bombeiros até vigilância sanitária, tudo era regulamentado. Precisava ter milhares de autorizações da prefeitura. Tudo tem que ter um tamanho padrão, uma altura padrão, uma cor padrão. Bem, pra você ter uma ideia, levei mais de um ano para colocar tudo que pediram em ordem. Gastei uma fortuna nisso. Um dia, depois disso tudo, veio um fiscal da prefeitura para verificar se a regulamentação da regulamentação estava sendo seguida e em ordem, pediu para verificar se a acessibilidade da rua estava de acordo com as normas da prefeitura. Eu estava tranquilo, pois havia feito tudo de acordo com as tais regulamentações. Mas o tal fiscal me fez a seguinte pergunta:

– Cade o estacionamento do cadeirante?

Então eu disse que não tinha como parar na frente do estabelecimento tinha uma plana de proibido estacionar. O fiscal então disse:

– Você tem que providenciar um estacionamento, se não o alvará final não será liberado!

Bem, fui até a CET pedir para providenciar um espaço em frente para que carros de cadeirantes pudessem parar em frente. Como sempre, não fui atendido. Então pesquisei com meus vizinhos e descobri que havia um estacionamento quase do lado que eu podeira fazer um convênio. Providenciei tudo, contrato, tudo certinho e fui até a prefeitura para tentar liberar o alvará. Chegando lá, o servidor público responsável por isso me atendeu com uma má vontade desgraçada. Disse que o contrato não servia e que não era possível liberar, etc, etc. Então eu fiz a clássica pergunta:

– O que eu tenho que fazer para que eu consiga a liberação do alvará?

O servidor me olhou cinicamente e disse:

– Cinquentinha!

No começo eu não havia entendido e perguntei novamente:

– Cinquentinha o que?

Ele disse na maior calma do mundo:

– Cinquenta, meu amigo, cinquenta.

Eu ainda sem entender perguntei:

– Pagar uma taxa de cinquenta reais?

Naquela altura eu pagaria os cinquenta reais da taxa para para me livrar daquela situação. Mas, o homem disse:

– Cinquenta Mil reais… isso porque sua empresa já está de acordo com tudo. Se não estivesse, seria o dobro.

Meu amigo, na hora meu sangue argentino ferveu e parti pra cima do cara. Seguranças tiveram que me conter. Chamei o cidadão de tudo que é palavrão. Ele calmamente me disse que eu seria preso por desrespeito ao servidor público. Eu coloquei o dedo na cara dele gritando:

– Esse foi  o valor que eu investi só na reforma para atender as exigências da prefeitura, seu canalha! – Ele gritou que eu não teria alvará porra nenhuma. E eu falei para todos da repartição ouvir:

– Eu serei obrigado a fechar o estabelecimento e mandar 8 funcionários embora, caramba!

– Meu amigo, – disse ele para mim com os olhos esbugalhados – ninguém deu a minima, eles pareciam acostumados com aquele tipo de reação dos contribuintes.

Hoje trabalho como corretor de imóveis. – ele concluiu com cara de desanimado.

Então contei a ele clássica piada sobre o estado:

– Sabe aquela? Oi, sou o estado, em que posso te ferrar hoje?

Ele riu e disse:

– Vocês brasileiros são incríveis, admiro vocês!

Por fim, o Estado venceu e ele teve que fechar o estabelecimento com dois anos de funcionamento apenas, e desempregando oito pessoas.

É esse é o meu país! – pensei com os meu botões – bonzinho para com os parasitas e cruel e extorsivo com quem deseja empreender, desenvolver um bom trabalho e melhorar sua vida e a dos outros.

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

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O ensino no país precisa mesmo é evoluir.

Schoolchildren bored in a classroom, during lesson.Muitos gritam aos quatro ventos que a educação do Brasil é um fracasso. O que eu realmente concordo. Só não gosto do termo “educação” para definir o que acontece nas escolas e nas universidades espalhadas pelo país. Por educação, entendo como um termo que é ensinado em família ou na pequena comunidade social onde um indivíduo vive. Isso não tem simplesmente nenhuma ligação com o elemento ir para a escola todos os dias para aprender matérias das ciências, das letras e das artes. Hoje, na verdade, temos em muitas das escolas apenas alunos mal educados vindo para a um ambiente onde eles encontram seus pares para passar o tempo, pensar na revolução socialista ou azarar as meninas da classe, sem falar nas coisas piores que de fato acontecem. Não respeitam nada e nem a ninguém.

Então aqui temos um grande problema. Estudantes deveriam estudar apenas. Deveriam aprender alguma coisa, ou pelo menos, deveriam querer aprender algo. Mas na verdade, não se interessam em saber mais, eles não tem interesse em muita coisa, nem sabem ao certo quais são as suas próprias vontades e qual seria o seu caminho acadêmico, ou mesmo se querem seguir esse caminho verdadeiramente. Vendo o comportamento de estudantes em todo o país que batem em professores, jogam latas de lixo sobre eles, socam a cara deles, tem um desempenho escolar abaixo do nível mínimo para ser aprovado, mas mesmo assim são aprovados, percebo que nunca recebem um não, pois para alguns “educadores” dizer um não a eles, pode ser que os deixem traumatizados pelo resto da vida. Sabemos que isso só ajuda a criar monstros totalmente burros e sem educação, vemos que é um comportamento adquirido pela falta completa de referências educacionais e de ensino.

Para mim, a educação forma pessoas auto conscientes, já o ensino, forma profissionais, artistas e pensadores, todos competentes e cientes da realidade que os cerca.

Até um certo momento de nossa civilização, as famílias ensinavam para seus filhos o que era necessário para sua sobrevivência. Por muitos séculos, isso foi uma necessidade fundamental para a sobrevivência humana. Os conhecimentos adquiridos eram passados de geração em geração, de pai para filho. Esses conhecimentos eram a base de tudo, tais como: como se preparar para o rigoroso inverno, quando plantar e quando colher, quais frutas podiam ser comidas, como se defender de amimais selvagens, como preparar a caça para uma refeição, como fazer fogo e etc.

A partir do advento do arado, tudo começou a mudar. O homem descobriu que poderia melhorar e muito sua produtividade otimizando a produção de alimentos com determinadas ferramentas. Isso abriu as portas da criatividade humana, que trouxe em seu bojo a industrialização. Então, na revolução industrial, o trabalho evoluiu. Muitos processos foram automatizados e isso gerou mais oportunidades de emprego. Vale ressaltar aqui que as condições das famílias eram bastante difíceis naquele tempo pré revolução industrial. As famílias eram afligidas por doenças, fome e tinham poucos recursos. A industrialização trouxe novas possibilidades de se ganhar algum dinheiro trabalhando nas áreas urbanas, que era a única opção viável. Assim, muitos se dirigiram rapidamente para os locais onde haviam essas fábricas e famílias inteiras, inclusive suas crianças, começaram a trabalhar para não morrer de fome nos campos. Isso foi um avanço. Naturalmente que neste processo os salários foram gradualmente aumentando com o tempo. Assim, desta forma, as crianças que trabalhavam começaram a não mais ter a necessidade de sair para trabalhar, pois as rendas de suas famílias começaram a ser suficiente para mantê-las em casa. A sorte é que elas aprenderam a usar o que foi aprendido no trabalho e suas ferramentas.

Então, depois de séculos na agricultura de subsistência, seus pais começaram finalmente a enriquecer. Essa riqueza adicional, trouxe a possibilidade de deixar os filhos em casa com tempo livre para apenas aprender coisas novas e desenvolver suas habilidades. Para isso, foi necessário a criação de locais onde elas aprendessem as artes liberais e os ofícios. As escolas. Aqui, podemos observar a naturalidade com que se foi estabelecendo a ordem espontânea que direciona o pai ao trabalho, a mãe à educação, proteção e manutenção do lar e orientar os filhos ao aprendizado.

Então, aquelas pessoas que tinham uma maior facilidade de transmitir o que deveria ser ensinado se tornaram os professores. Agora cabe aqui uma explicação sobre a etimologia da palavra “professor”: Ela vem de professar, declarar.

Podemos observar então que, ao longo do tempo, o ensino escolar básico sempre esteve relacionado, de forma direta, com o trabalho. Quando as atividades estavam baseadas apenas no campo, a educação e o ensino eram voltados para atividades camponesas. A partir do momento em que o homem se torna mais urbano, a escola também fica mais urbana, então o acesso ao conhecimento aumenta de forma significativa.

Com o avanço da tecnologia, o acesso ao conhecimento foi se tornando cada vez mais necessário. Novos produtos e serviços foram sendo criados. Então, décadas adiante, surge a ferramenta chamada Internet. Essa ferramenta mágica que nos dá a nítida sensação de que todo o conhecimento do mundo está na palma de nossas mãos, na frente de nossos olhos. É simples, pois agora temos o Google. Agora podemos encontrar todas respostas para inúmeras questões. Basta perguntar literalmente. Sem sombra de dúvida, ter amplo acesso à informação nos traz muitos benefícios. Mas fica uma pergunta no ar: Como podemos, como pais,  saber quem está ensinando nossos filhos a separar o que é boa informação daquilo que não é? A internet é cheia de armadilhas, assim como nas escolas.

Sabemos que nas escolas de todo o país existem mais doutrinadores ideológicos que professores de fato.

Na minha atual atividade como professor de estudantes que querem melhorar seu desempenho escolar e com um profundo conhecimento em tecnologias de ponta, percebo atitudes dentro do processo de ensino que não estão de acordo com a nossa época. Com exceção de uma ou outra iniciativa tecnológica como a substituição do velho mimeógrafo (que exalava aquele cheiro de álcool) pela impressora a jato de tinta para fazer provas; ou a substituição da lousa pelo projetor inteligente sensível ao toque, não temos uma absurda mudança ou uma interrupção do curso normal deste processo na hora de ensinar as crianças. Posso ver claramente aqui que existe uma problematização vinda diretamente das cabeças pensantes, justamente os doutrinadores ideológicos, influenciadas pelo “guru” e deus da educação sócio-construtivista no país chamado Paulo Freire. Na minha opinião, um dos responsáveis pelo Brasil ter sido o único país do mundo a ter o Coeficiente de Inteligência mais baixo  das últimas décadas.

Tenho aqui uma proposta que creio ser razoável para realizar uma disruptura neste cenário: se já utilizamos a internet como fonte de conhecimento dia após dia e o ensino está intimamente ligado a ela, precisamos evoluir para o estágio em que ensinamos as crianças a aprender com ela. As crianças e jovens já se interessam mais pela internet do que pela sala de aula. Faça uma pesquisa: Pergunte a dez professores qual o maior inimigo deles hoje em dia e praticamente todos vão te responder que o principal inimigo deles hoje é o smartphone.

Tive uma aluna que conseguia ficar em frente a TV por cerca de dez horas durante as madrugadas assistindo seriados americanos enlatados na Netflix ou vendo “youtubers” imbecis se lambuzarem com Nutella ou jogarem trecos de cima de prédios, ou darem dicas de como fazer suas necessidades fisiológicas na casa de amigos, mas não ficava nem dez minutos atenta ao que eu dizia a ela em nossas aulas de álgebra.

Proponho então, que se use todo esse potencial dos jovens e esse arsenal tecnológico à favor do ensino. Dou aqui algumas dicas: Sugerir o uso de drones, robôs e computadores é o mais óbvio e relativamente barato. Mas, que tal colocar esses estudantes para pensar nos problemas da vida real? Que tal dar a eles responsabilidades e cobrar também um comportamento responsável? Fazê-los gerenciar projetos reais para a vida real usando as ferramentas que eles já sabem usar tão bem? Fazê-los criar seus próprios seriados no youtube? Hoje qualquer pessoa tem um celular. Qualquer estudante sabe usar um editor de vídeo. Peça a eles para gerenciar a compra de seus próprios bens e serviços. Mostre-os como planejar investimentos financeiros ou a compra de um imóvel. Peça a eles que se arrisquem mais e criem empresas virtuais de tecnologia. Peça a eles que usem o que sabem para criar seu próprio conteúdo. Tenho certeza que rapidamente irão usar o que aprenderam na teoria ou então verão a necessidade de aprender certos assuntos para progredirem nos seus projetos. Os professores serão seus mestres, mentores e orientadores.

Mas vejo que muitos colegas professores também não sabem como lidar com tudo isso.  Ainda estão presos em suas próprias limitações e presos nas limitações impostas pelo MEC. Então, precisamos nos organizar para trazer o modelo que interessa aos jovens e que pode mantê-los, não presos na sala de aula, mas livres e atentos ao que a vida fora da sala de aula apresenta a eles como desafio de vida. Precisamos romper com o modelo de ensino tradicional imposto pelo Estado ou a escola estará condenada a não cumprir sua missão principal que é a de ensinar os jovens a lidar com as complexidades inerentes do mundo moderno.

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

Vamos falar de terra plana?

terra planaAs teorias da conspiração sempre foram muito divertidas para mim, mas mesmo sendo auto explicativas, ultimamente estão se tornando muito cansativas. Vejam só: Recentemente vi um vídeo de um cientista dizendo que tudo que a humanidade havia aprendido ao logo de séculos, todas as verdades confirmadas por observações e experiências, tudo que foi exaustivamente provado, visto e analisado por gerações de astrônomos, físicos, químicos e matemáticos, não passa de uma imensa mentira. Fica claro aqui, que este cientista pensa que ele é o portador da verdade cristalina, da verdade verdadeira. Ele diz sem cerimônias:

– Eu sou o portador da verdade. E se você crer em mim, você também poderá pertencer a esse pequeno circulo de iluminados que não se misturam à “patuleia ignara”.

Assim, muitos incautos estão aderindo a essas idéias, por curiosidade ou mesmo por acreditar fielmente que está galgando um patamar superior de conhecimento.

Eu sou um dos que teimam em duvidar dessas novas teorias mirabolantes. Sou aquele que pensa que se você tem uma nova hipótese ou teoria, você deve ser dar os trabalho de provar de forma cientifica, válida e clara essas tais hipóteses ou teses. Eu sou o primeiro, como amante das ciências, a dar abertura que eles tenham a oportunidade de prová-las.

Recentemente tive uma interessante discussão com uma dessas pessoas que se auto denominam “terra planistas”. Pedi gentilmente que me provasse sua tese. Eu disse que tinha genuíno interesse em entender o que estava por trás dessa nova mania. Ele gentilmente me mostrou vídeos, palestras, cálculos matemáticos feitos por físicos, etc, etc.

Quando eu o questionei sobre as fontes primárias de tudo que estavam expondo, ele, com com uma fé inabalável, me informou que todos esses cientistas desta teoria estão afrontando forças muito poderosas que mandam no mundo. Ele me disse:

– Não temos como apresentar esses documentos, pois nossos inimigos nos vedaram o acesso à algumas provas incontestáveis.

Me parece o seguinte, quanto menos provas uma teoria da conspiração apresenta, mais forte ela aparenta ser. É como crer em Alienígenas do passado, nos seres reptilianos e que governos já assinaram um tratado intergaláctico de paz com esses seres de outros mundos. Esses exemplos e o da teoria da terra plana é pra deixar qualquer pessoa sensata se sentindo um peixe fora d´água. Vejam só, vinte séculos depois de Cristo, e me deparo com gente falando muito à sério que a terra não é um globo e que são capazes de provar, que a terra é, na verdade, um disco achatado. Fico esperando eles me dizerem que estamos sobre as costas de elefantes e que os mesmos estão apoiados sobre as costas de uma tartaruga gigante.

Bem, pedi a ele, não uma prova incontestável, apenas pedi que me apresentasse um fato qualquer, uma simples foto ou alguma prova científica para provar que a terra é plana. E ele com uma seriedade cientifica singular me diz que todas as fotos e filmes feitos do planeta são da NASA e ela manipula todas as informações à respeito. Ela faz parte dessa conspiração global para esconder o fato de que a terra é plana.

Eu, exercendo meu direito de ser curioso ao extremo, pedi a ele que me citasse apenas um cientista realmente sério que mostrasse que a terra realmente é plana. Algum artigo cientifico escrito por ele e publicado na Nature. Ele ajeitou os óculos e olhou fixamente em mim e respondeu:

– Não posso meu caro, todos esses cientistas fazem parte desta mega conspiração.

Citei a ele todos os grandes astrônomos, físicos e cientistas tais como Keppler, Copernico, Newton, Einstien, etc. Ele, ainda bem paciente me responde:

– Todos mentirosos, meu caro. Todos são uma farsa.

Então, pensei com meus botões um pouco e disparei a pergunta fundamental:

– Então, quem está falando a verdade? Todos os cientistas que geraram um conhecimento acumulado dos últimos 1000 anos, todas as agencias espaciais do mundo, inclusive aquelas que são inimigas politicas entre si, todas as demonstrações empíricas que qualquer pessoa é capaz de enxergar tais como eclipses, movimento da lua e do sol, estações do ano, etc etc ou os terra planistas da internet?

Ele parou, pensou, respirou fundo, já perdendo a paciência e me disse:

– Cara, eu não estou sozinho nessa, tem milhões de pessoas nesse momento compartilhando da mesma crença sobre a terra plana. Só no meu canal do Youtube tem meio milhão de inscritos. Eu sou chancelado pela Associação dos Terraplanistas dos EUA e fui convidado a palestrar em um dos seus seminários. Alguns artistas de Hollywood e músicos famosos já se associaram ao nosso movimento. Agora, nosso papo se encerra por aqui. Se você quiser se associar também, basta preencher o formulário no link que vou te passar. Saiba da verdade e não seja mais um alienado.

Já ia me despedindo dele, quando ele voltou dizendo:

– Olha meu amigo, preste atenção, fique esperto com a elite globalista. Eles são responsáveis por espalhar a mentira gigantesca que é a terra globo.

Nesse instante, me senti em um episódio do seriado Arquivo X. Foi só ai percebi o quão nefasto é o pensamento revolucionário, seja ele qual for. O que ele faz com as mentes das pessoas é algo diabólico.

Para mostrar a realidade de verdade, eu poderia aqui explicar em detalhes como funciona a geometria euclidiana e como a matemática nos habilita a perceber a geometria espacial em todas as suas encarnações e formas e em todas as suas dimensões. Poderia entrar na teoria dos espaços quadrimensionais, e de que forma podemos visualizar pontos de um espaço plano n-dimensional. Explicar as linhas planas e das diversas variedades curvadas em um plano tridimensional. Mas, vou poupar-lhes de verborragia matemática. Ficarei apenas no campo filosófico, campo esse que não sou lá também essas coisas.

O que está acontecendo é que muita gente, para provar a criação divina deste mundo, (fato que realmente eu acredito) está se baseando em ideias totalmente revolucionarias querendo confirmar a ideia de que o ser humano é especial aos olhos de Deus, (sim nos somos especiais para o nosso Criador) e que por isso ele criou esse aquário gigantesco para nos morarmos e vivermos como peixes. Isso provaria que não somos um ponto de poeira neste imenso universo.

Contrariamente, é o mesmo tipo de revolução maluca pregada pelo hedonismo, veganismo, feminismo, gayzismo, ecologismo barato, crenças em ETs de tudo quanto é tipo, etc. Eles criam tudo isso para provar que o ser humano não é um ser especial aos olhos de Deus e que o homem sim é um deus de si mesmo.

No fundo, todos nós precisamos preencher o vazio que a finitude nos trás. É esse vazio que, na verdade, precisa ser preenchido a todo custo, mas entendo que não deveria ser preenchido com teorias conspiratórias estapafúrdias. O vazio dos nossos corações precisa ser preenchido com o que realmente importa nessa vida que é com o amor de Deus. E é isso que temos de realmente verdadeiro nesta vida que são os ensinamentos que Jesus nos trouxe. O ensinamento de que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Se a terra é plana, ou se somos poeira cósmica, pouco importa. O que importa mesmo é o que realmente devemos fazer e aprender nesta nossa breve vida neste planeta. Devemos imitar o que Jesus fez quando caminhou entre nós para que, na nossa hora, possamos encarar essa Verdade de frente para fazer jus ao que recebemos de Deus, que é todo o Seu amor infinito para conosco.

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

 

Uma farsa, não dura 2017 anos.

blog A páscoa passou já faz algum tempo. O Natal já está chegando e, para mim, a renovação da fé tem que ser diária, mas também acontece todas as vezes que assisto a filmes relacionados à paixão de Cristo. Este ano não será diferente. Vou assistir. Todas as vezes me emociono profundamente, derramo lágrimas por encarar o amor em seu estado mais puro. Como a maioria dos brasileiros, nasci no seio de uma família católica. Íamos a missa aos domingos e, orgulhosos, fizemos a primeira comunhão na igreja do bairro.

    Porém, na adolescência, me fizeram acreditar que toda essa história cristã era uma farsa. Uma invencionice para te oprimir. Tá certo. Como um tolo eu acreditei. Depois, vieram com uma tal de Teologia da Libertação dizendo que Cristo era pelo social, e me venderam como uma solução final e inclusiva de sei lá o que, e foi aí então que trouxeram gente muito desafinada para cantar na igreja. E isso, de certa forma, me incomodou muito.

    Mais tarde, por conta de minha formação acadêmica fui inclinado a não acreditar em qualquer o tipo de “milagre” e meu pensamento ficou bem crítico com relação às coisas espirituais. Tempos depois, me preocupei com todo o tipo de “energia” positiva e negativa deste planeta, mas novamente, influenciado pela ciência, percebi que essas tais “energias” poderiam ser facilmente refutadas pela lógica.

    A única coisa que, em minha mente, jamais consegui descartar, foi a vida de Cristo. Um fato real incontestável que aconteceu neste mundo. Mesmo lendo livros como “O homem que se tornou Deus” , de Gerald Messadié, que explicava que os milagres de Jesus eram uma falácia, onde o autor dizia que isso era apenas uma coisa simples de quem tinha um conhecimento maior da ciência na época, não deixei de crer nos milagres de Jesus. Mesmo estudando Nietzsche e sua abolição dos ídolos, jamais deixei de pensar sobre o milagre da ressurreição. Primeiro o de Lázaro e depois do próprio Cristo. Apenas esses dois milagres fizeram toda a diferença em minha vida. Pois são os mais incríveis.

    Entretanto, depois da morte de meu pai e de meu irmão fiquei muito cético novamente. Depois de todos os corpos mortos de gente querida que carreguei, fiquei mais amargo. Foi somente após o nascimento de meus filhos, entendi o que significa transcendência e o infinito amor de Deus, mas sem sentir por inteiro isso. Só depois deles, entendi a história dos meus pais e entendi a mim mesmo, meu comportamento na vida e percebi, depois disso o quanto precisava evoluir espiritualmente.

    Muitas páscoas e natais se passaram desde então, até eu sentir verdadeiramente e, de novo, a realidade de Deus neste mundo.  Ter nascido em uma família cristã, não foi o que fez a diferença, apesar de ter ajudado, mas foi a minha própria revelação e entendimento de estar contido na razão e no coração de Deus que me trouxe de volta. Percebi que Deus não é algo separado de seus filhos. Não é um senhorzinho barbudo que, sentado em um trono rodeado de anjos, fica atirando raios mortais sobre a terra, justamente sobre aqueles que erram ou pecam. Deus não nos observa como uma criança que observa peixes em um aquário e joga um punhado de comida dia sim dia não, e escolhe qual peixe deve tirar ou não do aquário.

    Acho que é por tudo isso que tenho visto ultimamente uma modinha em ser revolucionário em tudo que é assunto. Tem alguns colegas que insistem em achar que a terra é plana, que há uma cúpula, um domo, sobre nossas cabeças que seguram uma massa de água que protege o plano, então, por isso, outros sustentam a ideia de que por conta dessa premissa, o homem não foi até a lua pois a nave bateria no domo, que a ciência moderna é uma farsa, que a Nasa é isso ou que é aquilo ( logo escreverei sobre o que penso disso). Ora, mas nada disso realmente importa. Sério. Isso parece até uma revolução cultural e cientifica às avessas. E tudo que é revolucionário nesse nível me amedronta e me remete ao senhor de todas as revoluções. Afinal, como disse Santo Agostinho: “O demônio trabalha sem repouso para perder-te, e tu tanto te descuidas?”

    Percebo que inventam a mentira de que os homens não podem ser felizes enquanto não melhorarem a sociedade e, assim, abastecem o egoísmo, que é o combustível das futuras revoluções. Isso é que eu chamo geração “Ódio do bem”. Essa geração que tem na mente apenas revoluções, desintegração, caos. Mas não percebem que tudo isso é um aviso de que estão errados, de que os seus sonhos têm sido vãos e perversos. Pois é, em vez de construtores, tornamo-nos destruidores – revolucionários, portanto.

É como diz meu mentor S. Covey: “Primeiro o mais importante”. E o que importa é o que nos transcende. O que importa é o que é eterno. O Projetista do universo é o que importa. E não podemos nos descuidar do que é mais importante.

   Como cristão, estou observando, já faz algum tempo, um forte movimento de desconstrução de valores que, em mais de dois mil anos, se mantém firmes e fortes como que por milagre. E realmente é um milagre diante de todas as maluquices que estamos vendo por aí. Todas as vezes que vejo sexualização de crianças, gente casando com objetos ou animais, trans isso ou aquilo, até trans-humanismo, para cada vez mais se afastar da realidade da vida. Devido a tudo isso, fico cada vez mais firme na fé em Cristo e em seus ensinamentos. Mas não pense que isso é fácil. Na verdade exige auto controle e auto conhecimento bem afiados.

      Lá na igreja, no dia da primeira comunhão do meu filho, duas moças se pegavam amorosamente durante missa. Então pensei: “- Isso sim é revolucionário, além de ser uma mera provocação ideológica”. Pensei em reclamar. E vai reclamar com as meninas pra ver o que acontece.

        Mas por que fazem isso? Ora, bastava as moças terem ido a igreja, respeitosamente, numa boa, e depois da missa, voltarem para sua alcova conjugal e, privadamente, desfrutarem de seus corpos como bem entenderem. Sim, tudo em volta parece ser apenas devastação moral, ética, religiosa – mesmo quando tal degradação pode estar confinada à política e a uma parcela da sociedade.

     Então, eu é que me pego fazendo sempre a mesma pergunta: Puxa vida, quem quer acabar com a cultura judaico-cristã milenar criando tanto relativismo revolucionário? Quem quer destruir a igreja que sustenta toda uma civilização. Quem quer destruir mais de cinco mil anos de história da humanidade? Quem tem interesse em destronar Deus? Ah! Mas tudo é uma farsa mesmo! – muitos devem pensar. Mas uma simples farsa não duraria 2017 anos.

    Mas em cima da verdade, criaram mentiras. Hoje existem as “contra-Igreja”, elas existem aos milhões espalhadas pelo mundo afora relativizando a ação humana, elas são um pequeno pedaço ridículo da Igreja de Cristo, podem até ser muito parecidas, mas todas são às avessas, esvaziadas de seu conteúdo divino. Muitos as aceitam de bom grado. Afinal, elas dizem que Jesus foi “o maior homem da história”, que todo tipo de amor é válido e ponto final.

     O meu argumento a favor do cristianismo é que: “felizmente, muitos homens têm-se dado conta de que suas misérias e angústias, suas guerras e revoluções, aumentam quanto mais negam a verdade de Cristo. Porque o mal se destrói a si mesmo; só o bem é capaz de perdurar.”

    Peço que, neste Natal, todos nós façamos uma reflexão sobre nós mesmos, sobre o papel de Jesus em nossas vidas e nossos atos. Pensemos sobre nossas ações neste mundo efêmero, sobre o que realmente é importante em nossa vida, quais são nossas fortalezas e principalmente nossas fraquezas e o que fizemos do pouco tempo que nos foi dado neste planeta em prol do próximo e de nós mesmos. Porque, no final, a única coisa que nos restará, será uma conversa íntima e individual entre nós e Deus, nosso Pai, e dessa conversa, por sorte, ninguém escapará.

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

Naquele tempo…

Reproduzo aqui, um pedaço do livro que estou escrevendo.

Nele, em terceira pessoa, eu conto fragmentos de histórias que ocorreram na minha infância. Muitos destes fragmentos são bem reais, outros, pura ficção. Aqui conto um pequeno trecho de uma história que passei na minha infância. A narrativa está em terceira pessoa. A história se passa na periferia de SP no fim dos anos 60 início dos anos 70.

ZefiroHenrique a olhou nos olhos profundamente e ela correspondeu. Um arrepio percorreu todo seu corpo. Sentiu vontade de abraçá-la e beijá-la ali mesmo. Ficou nervoso, excitado e sua saliva engrossou. Ele, apesar de um pouco mais novo, era ligeiramente mais alto que ela. Acabou por desviar o olhar, abaixou o rosto e mirou os sapatos pretos envernizados de Cristina.

– Essa história está me matando, mas tenho que seguir com isso. Vou achar uma saída, talvez eu me atrase, talvez eu saia no meio do evento de amanhã lá na escola, não sei. – disse isso segurando suavemente os braços de Cristina que se deixou ser tocada por ele e ela se aproximou ligeiramente do rosto do amigo, o suficiente para que ele sentisse seu suave perfume juvenil.

Os dois novamente se olharam. Cristina percebeu a falta de jeito do rapaz, mas notou certa coragem nele. Ela sabia que Henrique não era mais um menino e que ele logo se transformaria em um bom homem e ela sabia muito bem que esta história o estava mudando definitivamente.

– Quer ir comigo? – perguntou Henrique olhando novamente nos olhos de Cristina.

– Não sei, não sei. – Cristina então olha para o chão e relutante responde – Meu pai vive de olho em mim, vai ser complicado com certeza.

– Bem, vou pensar em um jeito de fazer isso acontecer, pode acreditar, vou falar com o Nelson. – disse Henrique mais confiante que nunca.

Eles andaram mais um pouco pela rua empoeirada e alcançaram o entroncamento da Rua Dois com a Rua Três, quase em frente à casa da Senhora Keller, a professora de piano. Ela se afastou um pouco esperando pela despedida. Ele a beijou no rosto. Cristina fechou os olhos para receber aquele beijo simples e quando abriu novamente os olhos percebeu que ele já olhava dentro de seus olhos castanhos de maneira terna, suave e que demonstravam para ela um desejo quase que sem controle. Ele dizia em pensamento que a amava e que desejava ficar ao lado dela para sempre, mas que ainda não estava pronto como um homem de verdade. “- Espero que ela leia meus pensamentos e que me entenda” – pensou Henrique enquanto se afastava vagarosamente.

Cristina desceu a rua em direção a sua casa e Henrique seguiu seu caminho ainda com as pernas trêmulas por ter ficado tão próximo da garota que amava. Pensava que deveria tê-la beijado na boca. “- E se ela me rejeitasse?”, ele pensou. Ele sabia que tinha feito a coisa certa, mas sua insegurança de menino ainda era forte dentro dele. “Será que ela entendeu?” Seus pensamentos começavam atormentá-lo. Ao mesmo tempo em que estava feliz, começava a se preocupar com o que a menina estava pensando sobre ele. Não conseguia raciocinar decentemente. Pensava no terror de ser pego pelo bedel da escola, que era o pai de Cristina, ele com os olhos fixos sobre os dois. Sentia medo deles sendo pegos se beijando nos fundos da escola.

No final daquela tarde, Henrique resolveu dar uma passada lá no campinho de futebol. Deu uma volta no terreno baldio e viu onde Nelson, Vandi, Mauro e outros moleques estavam. Juntavam madeira para fazer uma fogueira. O campinho estava uma bagunça e cheio de lixo. Pedaços de jornal, folhas de caderno amarrotadas que seriam, provavelmente, usadas na fogueira, algumas garrafas de tubaína sem rótulo e todo tipo de material descartado que estava espalhado por todo o canto. Quando viram o Henrique, eles acenaram com as mãos.

– Vem cá, Magrão – disse Nelson acenando rapidamente – Corre moleque!!

Henrique ergueu a mão esquerda respondendo sem muito entusiasmo, fez sinal para esperarem um pouco e parou fingindo amarrar os sapatos para pensar no que dizer para aqueles moleques. Logo depois, se levantou e caminhou na direção deles já com algumas ideias na cabeça.

– Oi pessoal? – disse Henrique cabisbaixo e emendou –  E ai Nelson. Beleza? – E cumprimentou seu amigo com certa frieza.

– Saca só Magrão, alegre-se homem, veja só o que temos aqui, chega mais! – disse Nelson mostrando para Henrique uma revista com desenhos que pareciam mais um gibi em preto e branco com desenhos toscos e uma outra pequena revista com fotos coloridas.

Henrique se aproximou surpreso e percebeu fotos e desenhos que jamais ele havia imaginado existir. Ficou paralisado por uns instantes. Mulheres nuas se exibindo frontal e lascivamente para homens também nus. Em uma das páginas pode ler o que o desenho de uma mulher nua dizia:

“- Como é que é rapaz? Vai ficar aí me olhando o tempo todo? Vamos lá, tire a roupa!”

Henrique foi despertado de sua ausência por um cutucão.

– Diretamente da Suécia cara, coisa fina! – murmurou Xavier com seu sotaque castelhano inconfundível.

-E olha só esse gibi aqui, diretamente aqui do Brasil, o sacana do Zéfiro, o catequista. – disse outro moleque, mostrando os desenhos do gibi com um homem e uma mulher para Henrique. O moleque ria tanto que Henrique notou os vãos dos dentes de leite que haviam acabado de cair e outros dentes permanentes já apodrecidos pelas cáries e os seus cacos.

– Caramba Nelson, que merda nojenta é essa? – exclamou Henrique que, com nojo, cuspiu no chão uma grossa saliva que insistia em se formar na sua boca. Ele ficou mais surpreso ainda quando viraram a página e ele viu uma foto de um casal em uma posição muito estranha e outra com uma mulher, com uma maquiagem forçada e carregada. Henrique demorou alguns segundos para entender o que se passava.

A molecada ria alto enquanto Henrique sentia-se enjoado vendo aquelas fotos, vendo aquelas mulheres fazendo coisas que ele sequer imaginava serem possíveis.

Henrique procurou disfarçar seu nojo e indignação, afinal, muitas vezes na escola já tinha ouvido algumas pessoas dizerem que aquelas relações eram normais para mulheres modernas e livres, e que nada mais poderia ser considerado uma aberração. Ele pensou que deveria já ter se acostumado com isso e sua condição de homem, mas seu estomago insistia em virar sem controle.

– Vão também tocar fogo nisso? – Disse Henrique um pouco trêmulo e ansioso.

– Você está louco seu maricas! – disse Maurinho rindo. Só depois de vermos tudo o que tem aqui. Precisamos descolar algumas páginas grudadas. – quando ele disse isso, a molecada riu alto.

Nelson notou que Henrique precisava falar com ele e pediu pra molecada esconder a revista e acender a fogueira para assar umas batatas.

– Diga meu velho, que bicho te mordeu? – perguntou Nelson.

Henrique cuspiu novamente a saliva grossa que se acumulara em sua boca por causa do desconforto que as fotos provocaram nele.

– Vamos até aquele banco ali, disse ele. – Preciso te contar uma história.

Eles foram até o banco tosco de madeira ali perto e se sentaram. Os moleques, guardaram as revistas e continuaram na tarefa de acender a fogueira com os pedaços de papel e uma caixa de fósforos um pouco úmida. Outros moleques ainda estavam rindo do que viram nas revistas de sexo.

– Sabe o Vitor? O repetente lá da escola? – perguntou sem entusiasmo esperando ver a reação de Nelson.

– Sim. O que ele quer? – respondeu Nelson meio curioso.

– Então, mataram um camarada dele no Rio de Janeiro. Uma briga de estudantes com a polícia. Sei lá. Ele foi pra lá. Ele estava transtornado e disse que era um garoto “gente boa” mesmo! – Henrique empalideceu enquanto dizia essas palavras.

– E o que eu tenho a ver com isso? E você? Você sabe quem é o maluco que morreu? – perguntou Nelson desconfiado.

– Bem, não, mas ele está organizando alguma coisa com a turma dele. Falou que precisa recrutar gente para lutar pela causa, luta de classes. Olha Nelson, não sei bem o que ele quer. Mas ele pediu para encontrar o Nego Du no bar do seu Miraldo no Sábado. Pediu para falar com ele e combinar, mas sei que é você que tem contato com ele.

– Porra Henrique, que merda cara! – E esse Vitor? Ele pensa que é o que, heim? O Nego Du é gente da pesada. É um ladrão e não revolucionário. – disse Nelson quase gaguejando. – Se a gente for pego na subversão a gente se fode de todos os lados.

Henrique não imaginava que Nelson saberia algo sobre essas palavras, o cara era um tosco, como ele dizia aquelas palavras até então só eram ouvidas pelo seu pai no “Reporter Esso”, essas coisas eram totalmente novas pra moleques como eles, mesmo assim ele continuou.

– Eles moram na mesma vila Nelson. Eles se conhecem. O problema é que o Vitor foi pro Rio e só volta na sexta. Me leva até lá, daí eu marco esse encontro e tá tudo resolvido.

Nelson sabia que era um risco procurar Nego Du e se meter com os Galileias. Ele desconfiava que Henrique estava apenas pensando em mais uma “aventura”.

– Moleque, você não é dessa laia, você tem que tomar cuidado. Olha, a gente vai, mas fique sabendo que não me responsabilizo se você cagar nas calças. – disse Nelson rindo.

– Agora vamos terminar de ver as Suecas safadas e o Zéfiro e seu catecismo…

Nelson foi até a fogueira e se juntou aos outros moleques que pegaram novamente as tais revistas. Henrique ficou atrás e esperou Nelson se virar.

– Quando? – perguntou Henrique nervosamente.

– Amanhã no fim da tarde. Esteja aqui. – respondeu Nelson, depois se virando para ajeitar as batatas na brasa da fogueira.

Henrique se afastou do local, ainda enjoado por ter visto o que viu nas revistas. Voltou para casa pensando em Cristina, pensando na inocência dela, na infantilidade dele por não saber lidar com revistas de sexo explicito, ainda mais em imaginar como seria entrar no território dos temidos Galiléias e lidar com aquela realidade cruel…

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Trecho do Livro: Naqueles Tempos – pags. 32 e 33

Autor: Cesar Manieri – Professor, Engenheiro, escritor nas horas livres.

Vamos falar de privilégios…?

                  Reproduzo aqui, um pedaço do livro que estou escrevendo. Nele, eu conto fragmentos de histórias que ocorreram na minha infância. Muitas delas, bem reais. Quando vejo gente falando sobre pessoas que se deram bem por ter tido alguns privilégios na vida, me lembro destas histórias na bairro onde eu passei a infância e onde não havia muitos privilégios, apenas desgraça por todos os lados. Todos compartilhavam da mesma dor e alegria de viver. Grande parte da turma que eu convivi venceu na vida, alguns poucos sucumbiram. A natureza é assim mesmo. Implacável com muitos e gentil com alguns poucos, infelizmente. De fato, temos que lidar com a realidade, por mais dura que ela possa parecer. O resto é mimimi. Forçar uma igualdade, eliminar as paixões humanas e sua avareza, pecados ou ganancia, ou as diferenças entre os seres é algo tão surreal, que só trouxe morte e destruição quando quiseram implantar isso. Quando eramos crianças, chamávamos algumas crianças mais jovens ou que tinham um baixo desempenho de “cafés com leite”. Simples assim e o jogo seguia. O problema é que muitos adultos saudáveis, ainda querem ser tratados desta forma! Mas a vida é dor intensa (né Schopenhauer? ) e muitos não admitem que seja assim e batem o pé fazendo birra. (os nomes e apelidos dos personagens são fictícios). Boa Leitura!

Peladeiros

                 “Em dia comum no início dos anos 70 em um bairro na periferia de São Paulo…

 Então Henrique lembrou que quando criança, ele viu uma leva de gente sofrendo à sua volta. Certa vez, toda a molecada do bairro estava perto da fogueira, no campinho onde eles jogavam bola, assavam batatas e preparavam o cerol para passar nas linhas das pipas. Camarão, um menino da rua de baixo de uns oito anos, que ganhara este apelido por ser vermelho demais, estava segurando um monte de folhas de jornal sob o braço, preocupado apenas em manter o fogo aceso. Maurinho, um moleque gozador e vizinho dele, estava ali do lado, contando piadas e provocando o Camarão, enquanto os outros moleques socavam os braços uns dos outros em uma brincadeira chamada “braço de ferro”. Em um momento de distração de todos, Maurinho sorrateiramente acendeu um palito de fósforo e colocou fogo nos jornais que Camarão estava segurando e gritou:

– Fogo no Camarão!

 Todos riram muito, até Henrique, geralmente quieto, riu muito. Camarão não percebeu do que se tratava, pensou que era mais uma piada do Maurinho e ficou ainda concentrado na fogueira. De repente, Camarão sentiu o calor do fogo sobre sua pele. Instintivamente ele se levantou e começou a correr sem largar o jornal em chamas. Na corrida, o fogo se alastrou rapidamente e pegou em sua camiseta que entrou em chamas e que começou a derreter sobre a pele. Ainda sem largar os jornais, ele corria em direção a sua casa e gritava pelo nome da mãe. Os vizinhos ouviram os gritos de horror do menino e correram para ajudá-lo. Alguns com cobertores arrancados dos varais para abafar o fogo, outros com água, outros corriam para lá e para cá sem saber o que fazer. Nada foi suficiente. Camarão jamais se livraria das profundas cicatrizes das queimaduras em seu tórax e braços. Maurinho, depois daquele dia, que era alegre e gozador, se tornou um menino fechado e triste também, talvez tentando lidar com suas próprias feridas e cicatrizes.

   Henrique pensou que, às vezes, envergonhava-se de se queixar com a mãe ou o pai por quase nada e isso poderia ser muito injusto, ou até mesmo, depois disso, começou a ter vergonha de sentir dó de si mesmo, sabia viver em um lar sem muitas questões aparentes.

   Um dia, seu amigo Nelson, quase que perdeu a família inteira quando o pai resolveu matar um bandidaço da região a tiros que havia ameaçado a família deles e que, loucamente,  colocara todos no meio de um fogo cruzado sem fim. Por sorte, só o bandido levou a pior.

   Lembrou-se do dia em que a Dona Mariana, a sua vizinha bem velha, entrou em desespero total quando seus filhos bêbados brigaram e destruíram a casa toda. Do quarto, dava para Henrique ouvir os gritos desesperados dela pedindo para eles pararem.

     Do outro lado da casa de Henrique, tinha a casa da Dona Carlota. Toda a família dela tinha vindo da Bahia. Seu marido, o seu Jovelino, era músico e vivia viajando. Um dia, por causa dos preparativos técnicos para construir a casa principal, Eurico, o pai de Henrique, colocara um andaime para facilitar o acesso dos pedreiros às paredes. Mas por alguma razão que Henrique jamais descobrira, os filhos de dona Carlota retiraram os andaimes e atearam fogo nas madeiras. Dona Clara ficou indignada e houve uma discussão ferrenha entre Carlota e a mãe de Henrique. Nesse dia ele se sentiu com muito medo e Clara então pediu para que ele e o irmão pequenino entrassem em casa e saíssem daquela confusão. Carlota então pediu aos filhos, espumando de ódio, que apedrejassem a casa de Henrique como uma forma de intimidação maluca. Ouvindo os barulhos das pedras, Henrique se aninhou no colo da mãe junto com os irmãos pensando onde estaria seu pai que nunca aparecia para ajudá-los, enquanto ouvia as pedras batendo no telhado e nas paredes.

    Henrique ia se lembrando de todos esses eventos um atrás do outro, como vagões de um trem puxados pela locomotiva do tempo. Lembrou-se do Tonho, o irmão do seu amigo Jorge que foi operar das amídalas e ficou meio lelé por causa de um problema com a anestesia.

    Lembrou-se do cachorro, que diziam que estava louco e que tinha entrado na sua casa, e se escondido debaixo de uma escada, e que foi sacrificado com um tiro pelo Saldanha, o policial que morava na rua de cima, depois de ter sido retirado de seu esconderijo sob a escada que dava acesso ao porão. Saldanha deu um tiro na cabeça do pobre animal enquanto Clara apertava os ouvidos de Henrique para ele não ouvir os gritos do cão morrendo.

   Lembrou-se do filho mais velho da Dona Carlota sendo preso por ter molestado o Maurinho, foi então que o silêncio e a tristeza de Maurinho fora explicada e fazia sentido. Aquele sujeito entrando algemado na radiopatrulha e a Dona Carlota aos prantos, e chorando, e gritando, e pedindo para não levarem o filho preso. Cena que jamais iria sair da mente de Henrique.

    Lembrou-se do choro desesperador da vizinha da frente de sua casa quando ela soube que o amado tio havia morrido em um acidente de carro na Via Anchieta.

   Lembrou-se do dia em que Miltinho perdera o dedão da mão direita na corrente da bicicleta, enquanto ele empurrava o irmão mais velho dele. Miltinho desastradamente escorregou e segurou sem querer na corrente bem na hora que o irmão estava forçando uma pedalada. Henrique viu o povo procurando pelo dedo do menino e quando acharam lavaram e colocaram em um balde com gelo. Ele se lembrou de que viu Miltinho muito  pálido, chorando, sentado em um táxi e segurando uma fralda, que envolvia a sua mão, para evitar sujar o carro com sangue. E a última lembrança ainda bem viva, e a pior, foi ver o cadáver do homem na lagoa envolto em sangue, assassinado a facadas.

   Aquela vida naquele bairro afastado era só desgraça por todos os lados, apesar dos valores cristãos que as famílias dali procuravam preservar duramente. Mas a realidade nivelava todo mundo que ali vivia por baixo, em uma miséria humana quase sem fim.”

(trecho retirado do meu livro “Naquele tempo…” páginas 19 e 20)

Alguns diálogos com meu pai.

dia dos pais3                                                                             Meu pai, Eraclides Manieri, nos anos 50 em frente a sua casa na Rua do Parque no bairro do Ipiranga.

São Paulo, 21 de junho de 1970

– Pai, olhe só quantos balões coloridos no céu… – eu disse isso apontando o dedo indicador para o céu azul.

– Não dá nem pra contar filho, quantos você acha que tem? – ele perguntou seriamente.

-Infinitos! – eu respondi sem saber o real conceito disso.

-Hoje seremos os melhores do mundo de novo, filho. Por isso o povo solta os balões. Ouça os rojões – ele dizia isso olhando para o céu cheio de esperança.

-Que sorte eu tive de nascer no melhor país do mundo pai! – disse isso abraçando as finas pernas dele pai em agradecimento.

-Pois é filho, espero que não apaguem a luz que habita a alma caridosa e festiva do nosso povo. Agora vou ajustar a antena para vermos o jogo do Brasil! – e me puxou pra dentro de casa.

São Paulo, 13 de março de 1979 – 9 anos depois…

-Pai, quem é de verdade esse tal de Lula que eles tanto falam? – perguntei isso vendo pela TV a multidão aglomerada que ouvia o discurso do Lula que estava de pé sobre um pequeno palanque de madeira em uma assembleia do sindicato dos metalúrgicos lá no estádio da Vila Euclides em SBC.

-É um cara lá do sindicato. Um bandido filho da puta pelego. – disse isso sem cerimônias enquanto tragava profundamente seu Minister e soltava um baforada de fumaça pelo vão da janela aberta da sala.

-Não entendo, parece que ele quer o bem dos trabalhadores deste país, pai. Luta contra a ditadura – eu disse isso sem tirar os olhos da TV cheia de imagens fantasmagóricas.

-Eu conheço essa laia, filho, sei das intenções deles. Eu também sou do sindicato. Esse sapo barbudo nunca trabalhou. Ele é politico. Joga dos dois lados. Eu sei qual o tipo de “ditadura” ele gosta. – meu pai se levantou do sofá para ajustar o nível vertical da TV que insistia em se desestabilizar e reclamou: -Puta merda, essa porra de sinal…  e ficou lá ajustando o botão por alguns segundos e voltando para o sofá, falou:

-Filho, essa greve é uma farsa, esse povo que está ai no estádio foi coagido a ir até lá. Nada do que você vê aí é real.

-Pai, como assim? O senhor está louco…! – eu disse olhando para ele com cara de poucos amigos.

-Moleque, você não sabe nada da vida. Você verá quando esses canalhas chegarem ao poder, vocês estarão todos fudidos. Escreve ai, moleque… sorte que eu não estarei mais aqui pra ver toda essa merda se materializar.

Dezembro de 1980,

Era uma triste cerimonia de despedida…

-Filho, vamos até lá abraçar meu irmão, vamos, ele é seu tio.

De longe eu via um caixão onde estava uma prima querida. Ao lado dela um caixãozinho do seu filhinho que não suportara a doença repentina que fizera sua mãe sucumbir e que, infelizmente, ele também não suportara. Meu pai ao meu lado segurava o choro enquanto abraçava seu irmão desolado.

O cheiro das velas me deixou enjoado. Depois de alguns minutos de incredulidade e dor, saímos do local e lá fora fomos cercados por um senhor que me perguntou:

-Esse é seu pai? -apontando para ele.

-É sim senhor. -respondi secamente.

-Pois então eu vou te falar, esse é parceiro, viu? Você tem sorte garoto! – disse isso enquanto abraçava meu pai longamente dando batidas fortes com as mãos nas costas dele.

-Filho, esse é um amigo meu de longa data. A gente bagunçou muito naquela época. – disse meu pai como que rejuvenescendo.

-E como… lembra Dinho? – ele perguntou dando um sorriso maroto pra mim.

-Claro, lembra quando a gente arrumou aquelas namoradas que eram irmãs? – perguntou meu pai ao amigo.

E eu pensei:

-Como é que é? Que história é essa? Deixa só a mãe ouvir isso!! – enquanto fazia uma cara de espanto.

-Tá espantado com o que moleque? Sim, a gente saia para pegar umas meninas sim e dai, eramos solteiros porra!!!? – falou meu pai sempre de forma séria.

-Lembra quando aquela doida que eu estava dando uns beijos e que era irmã da sua namorada?  Lembra cara, estávamos juntos dando uns amassos nelas? – disse o amigo do meu pai.

-Nossa velho, lembra disso? E a mina te dispensou e, claro, e eu desisti da minha namorada na hora e fomos embora juntos rindo pra caralho! – disse meu pai sorrindo de forma velada.

-Viu só moleque, entendeu agora porque seu pai sempre foi um parceiro? Ele nunca abandonou seus amigos. – disse aquele senhor que eu nunca havia visto.

Eu ainda espantado, olhava meu pai boquiaberto.

-Tá olhando o que moleque? – disse ele, e continuou: – Se não fosse isso você não estaria aqui, agora vamos procurar sua mãe! virou-se enquanto puxava, eu e o amigo, de volta para o velório.

16 de abril de 1984

Eu havia acabado de chegar da faculdade.

– Pai, acabei de passar lá pela Praça da Sé, está uma loucura aquilo lá!

-Eu vi na TV. – ele disse e saiu assobiando para a cozinha.

Eu fui atrás dele.

-Pai, isso é um fato histórico. Finalmente vamos ter abertura politica neste país.

-Lembra meu filho quando eu disse que estaríamos fudidos se esses caras chegassem no poder? Se prepare. Tenho dó de vocês. Ali só tinha bandeira de comunista.

-Pai, os tempos são outros. Estamos progredindo. Somos uma democracia. Temos que evoluir. Abertura geral e irrestrita é a frase da moda. Os milicos tiveram a chance deles. Olha só, inflação descontrolada, dívida externa, precisamos de gente competente para administrar o país.

-Filho, você não entende, esses canalhas vão voltar e vão arrebentar mais ainda com o país. Até agora, vivemos tempos bons. Seguros. Espere só esses revolucionários tomarem o poder e aí sim você vai ver o que é uma ditadura real.

E acendendo seu Minister habitual, calmamente soltou a primeira baforada disse:

– De agora em diante, só Deus sabe o que será dos meus netos? – despejou algumas cinzas em um cinzeiro de metal azulado bem surrado e pediu em seguida:

– Agora vai lá na sala, pega o DiGiorgio que eu quero tocar uns boleros tristes.

Quando voltei com o violão, ele pegou o instrumento, agradeceu e resignadamente começou a tocar os acordes de Besame Mucho…