Quando eu quebrei o ciclo de repetições, a maldição do pecado original.

Imagem  Eu sempre tive medo de fantasmas. O escuro sempre me trouxe muito medo pois eu achava que tinha alguem no quarto e que se manifestava somente na escuridão. Durante um exercício de regressão que experimentei neste processo, me lembrei de um momento incrivelmente real que passei em um dos períodos mais misteriosos da minha primeira infância. Era quando eu tinha encontros com Jesus. Morávamos no velho porão da casa de meus pais. Eu deveria ter uns 5 anos. Todos nós dormiamos no mesmo cômodo. Não havia muita luz na madrugada. Na parede deste cômodo minha mãe havia pendurado um quadrinho com a imagem de Jesus. Sabe aquela imagem antiga, perfeita de Deus que tem os olhos incrivelmente azuis com barba e  cabelos longos e loiros? Aquele coração aparente no meio do peito com uma coroa de espinhos e ele com aquele olhar doce e as mãos impostas como que abençoando e protegendo? Exatamente essa imagem. Minha irmã e eu ofereciamos bolo, leite e guloseimas a ele. Uma madrugada eu acordei com essa imagem ao meu lado, assim meio que flutuando e olhando para mim com aquele olhar doce. Ele sabia o que eu queria. Então eu me levantei da cama, silenciosamente. Andei em direção à porta. E aquele Ser, continuava a flutuar atrás de mim, como que me protegendo. Sabe, o seu anjo da guarda? Abri a porta bem devagar. Todos lá dentro estavam dormindo. Lá fora o céu incrivelmente azul, temperatura perfeita. No quintal dos fundos tinha um balanço que meu pai fizera para eu e meus irmãos. Era feito de madeira de construção. Não sei onde meu pai tinha encontrado aquelas polias perfeitas para prender as cordas e fixar a cadeirinha. Eu nunca tinha tido a chance de brincar sozinho no balanço. Na nossa rua, lá na outra esquina, tinha uma casa de uma família japonesa. Eles tinham duas filhas. Elas eram espertas e descobriram o balanço lá no quintal de casa. Naquela época não existia muros ou cercas para proteger as casas. Naquela época só havia ladrão de galinhas e não tinhamos galinhas em casa. Então, as astutas meninas chegavam muito cedo antes da gente acordar e se apossavam do nosso balanço. Aquilo era totalmente incompreensível para mim. Mas, naquele dia o meu Amigo estava comigo. Eu e Ele. Quando eu vi aquele balanço ali, livre e desimpedido, pronto e me esperando. Olhei para trás e vi meu Amigo sorrindo e me incentivando a subir no balanço. Nunca me senti tão feliz e seguro até então. Me balançava bem alto, sorrindo e sentindo o vento em meu rosto. Olhava o céu azul e me imaginava lá no alto solto como um pássaro.

Depois desta brincadeira, voltei para dentro de casa, me deitei na minha caminha dobrável e aquele Ser me embalou novamente em um sono calmo, de paz e tranquilidade.

Depois deste trabalho percebi quem era aquele Ser incrível. Nunca poderia imaginar que Ele é quem me guiaria neste novo mundo que estava sendo apresentado para mim. Numa madrugada de reflexões Ele me disse Seu nome. Em principio algo sem significado algum, mas que depois se mostrou claramente: A-morea-Ki.

Ele sabia de tudo e principalmente porque estava alí, porque eu tinha deixado tudo para trás, porque da minha morte e o porque a minha busca pelo renascimento. Ouvi as seguintes palavras:

“- Aquilo que um ser humano vê a sua volta, a realidade externa a ele é o passado. Aquilo que voce chama de presente, na realidade não é uma transmissão ao vivo”

Um calafrio, uma surpresa, um medo tomaram conta de mim.

“- Aquilo que voce vê e toca, os eventos que voce poderia jurar que estão acontecendo neste exato momento, são estados registrados tempos atrás. Para que eles pudessem acontecer, receberam o seu consentimento em outra dimensão. Esses acontecimentos foram materializados pelo tempo. Enquanto voce assiste a eles e é envolvido por eles, voce acredita serem novos e de estarem acontecendo pela primeira vez. Na realidade são apenas a projeção do seu passado que se repete com algumas pequenas variações.”

O pavor me envolveu. O que seria aquilo tudo?, pensei. Não poderia estar mais certo. Comecei a rezar o Pai Nosso. …”perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido e não nos deixei cair em tentação, mas livrai-nos do mal, Amém”

Então ouvi claramente: “- O mal é a repetição da vida, somos tentados a repetir os mesmos padrões familiares, eternamente. Sempre. A repetição do que fizeram com voce. Perdoe a tudo e a todos, principalmente a voce mesmo. Não negligencie sua voz interior, seu antagonista. O seu chamado está dentro de você e está com você o tempo todo. Cabe a você revelá-la. Portanto: Concentre-se!! ”

Era Ele, aquele Ser de barbas longas e cabelos loiros, olhos azuis. Um ancião sábio e eterno que esteve comigo por todo este tempo. Aquela luz iluminou tudo. Consegui ver as minhas repetições, as repetições da minha familia, as maldições que acompanham a todos por gerações.

Já estava amanhecendo, o sono estava me vencendo. Antes de apagar pensei – O amor é a base de tudo!

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O alto preço da separação.

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Espiritualmente, neste lugar maravilhoso, fiz uma experiência interessante de regreção à minha primeira infância. Descobri algumas coisas doloridas. Ai veio o fato então que fui abandonado pela minha mãe. Esta é uma experiência comum a quase todo mundo.Fui lançado para fora do útero sem um apartamento, cartão de crédito, um emprego ou um carro. Eu era um bebe que chorava e me agarrava indefeso ao único ser que eu conhecia. Da mãe eu suportei tudo menos o abandono. Ela me abandou para fazer as coisas dela, para ter a vida dela. Mas, como assim? foi justamente quando eu mais precisava dela, ela não estava presente? Descobri que tinha que sobreviver. Mas isso me deu um medo em mim que me marcou por toda a vida. Imagine, eu, um bebe literalmente, fui privado da presença dela. Me sentia ferido, febril, como uma queimadura. A dor era intensa, inimaginável, de cicratização dura e lenta. O prejuizo, embora não fatal, parecia permanente.

Naquela época, eu media o tempo diferentemente de hoje. O tempo se acelera com os anos. Quando criança, para mim uma hora era um dia, um dia era um mês e um mês, sem dúvida era uma eternidade. Lamentei o abandono dela como lamentei meus mortos. Percebi o quanto isso foi interessante, pois todas as vezes que ela voltava eu me vingava mostrando estar alheio a presença dela e pensava:  -Nunca vi esta senhora na minha vida!

Descobri o quanto meus primeiros seis anos foram complicados. O quanto eles criaram cicatrizes emocionais que até hoje tento me livrar. Não responsabilizei apenas minha mãe, mas também meu pai.

Meu antagonista vive me lembrando das cicratizes e de como conviver com elas. O custo da separação é esse. Carregar para toda a vida os traços negativos herdados quando eramos bebes. Pois é, não entendiamos porque ela nos deixava todos os dias para sempre.

De qualquer forma, tem de haver separações no inicio de nossas vidas e sem dúvida produzirão tristeza e dor, mas a maioria das separações normais, onde existe uma real fonte de amor incondicional, certamente não deixará cicratizes no cérebro. E é certo que todas as mães e pais podem estabelecer um relacionamento amoroso, confiante e humano com seus filhos. O meus fizeram o que puderam com o que tinham.

De qualquer forma, e por isso tudo, fui atormentado pelo meus pensamentos obscuros a vida toda. Uma espécie de auto sabotagem intensa que me trouxe até aqui. Percebi que corri tanto e tão depressa usando esses pensamentos, e que só me fizeram chegar mais rápido ao que considero o lugar errado da minha vida. Foram as minhas escolhas que me trouxeram até aqui. Escolhas essas baseadas nas cicatrizes criadas na primeira infância.

Esse foi um alto preço para mim. Minhas vozes internas eram de uma negatividade atormentadora. Já na adolescência, percebi o quanto isso poderia acabar com minha vida. Certa vez, fui apresentado a um livro chamado O Poder do Pensamento Positivo de Norman Vincent Peale. Eu aprendi a chamar esse livro de o livro dos três pês. Li o livro algumas vezes e confesso que não entendi coisa alguma, mas ele dava algumas dicas de como mudar o padrão mental de negativo para positivo e como isso poderia mudar a vida de uma pessoa. Me lembro de um exercício que o autor me ensinou onde ele citou a experiência que ele teve ao lançar pensamentos positivos em direção a uma garotinha que estava na plataforma da estação de trem enquanto ele estava dentro do trem. Ao ouvir o apito da partida do trem ele iniciou a experiência e emitiu ondas positivas em direção a garotinha na plataforma. Alguns segundos se passaram e a menininha se virou e olhou em direção a ele sorrindo. Tempos depois eu repeti essa experiência da mesma forma que ele, mas não de dentro de um trem, mandei positividade a uma moça na plataforma da estação. Convido voce a tentar. O resultado da minha experiência conto a voce em outra ocasião.

Ame, não dependa. Afinal o futuro não existe.

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Neste processo, percebi o quanto o tempo estava passando rápido demais. Tudo acontecia muito depressa e eu percebia que meu amor por todos aqueles espiritos sonhadores que viviam ali comigo estava aumentando. Cada um com seus pesares, cada um com seus desejos, cada um com sua missão e sonhos, com suas vidas e amores. Eramos dependendes sempre de algo. De alguma coisa. De alguem que se fora, de alguem que nos abandonara em algum lugar no passado. Me lembrei do meu antagonista. O monstro. E que vivia aparecendo nas horas mais impróprias. Outro obstáculo. Aquela voz ecoava: – Quem ama não pode depender. Amar e ser livre é uma coisa só. Aprenda meu amigo que voce é o artifice e não o manufaturado, o sonhador e não o sonhado, o criador e não o criado. Compreenda que tudo está a seu serviço. Quando viver isso, verá que tudo está a seu serviço. Então, não poderá mais depender. O mundo é assim porque você é assim, e não vice-versa.

Eu lutava contra ele, por independência naquele momento. Queria ser livre novamente. Me rebelar contra mim mesmo. Um rebelde não depende de ninguem e respeita sua integridade. Precisava materializar meu sonho e estava disposto a colocar toda minha energia nisso.

Tinha revelações: Não se pode sonhar e depender.Pode-se sonhar e servir. Aprendi que servir não é depender. Servir significa governar a própria vida e a dos outros. É a ação de quem ama. Somente quem ama, pode servir. Quem não ama pode somente depender.

Esses pensamentos duravam pouco e a imaginação negativa assumia o comando. Pensamentos de um futuro sombrio, sem emprego, me faziam recuar reduzindo-me a um ser amorfo.

Não, tinha que lutar. Mudava então meus pensamentos: – Cara, seja independente, livre. Seja um rebelde. Mude seu futuro.

Aprendi que a maior ilusão do homem é a idéia de ter um futuro. Um ser humano comum não tem futuro. Além das aparencias ele encontra sempre e tão somente o seu passado. Os seres humanos vivem uma vida usada, de segunda mão.

Detalhe: Quem me ensinou isso foi Albert Einstein. Sabemos que o que vemos é luz e quando o cerebro processa as imagens ele apenas processa as imagens do passado pois a luz que criou a imagem já se foi. Ela é muito rápida.

Cada um se ilude, acreditando que os eventos da sua vida são inéditos, novos, criados especialmente para ele, jamais acontecidos antes. Portanto, aquilo que um ser humano vê à sua volta, a realidade externa a ele é seu passado.

Por isso quero viver o aqui e o agora. A única possibilidade de reger a própria vida é no aqui e agora. Precisava quebrar o ciclo de repetições que me impunha. Os comportamentos e hábitos que sempre me levavam a repetir meu passado e o pior, a passar isso adiante, repetindo as coisas que aprendi com meu pai e mostrando isso a meus amados filhos. Como chegar em casa assobiando para avisar a esposinha que “estou chegando amor, se estiver fazendo algo errado, cuide-se!” Ironico isso, mas totalmente verdadeiro.

Revelações surpreendentes

ImagemNaquela noite não dormi. Nem um pouco. Entre devaneios e pensamentos desconexos percebi o quanto estava lutando contra meu mundo. Havia aprendido a lutar contra todas as vozes que me atormentavam desde sempre. E as vozes se tornavam cada vez mais altas e formavam sombras em minha mente. Elas me ameaçavam, me justificavam e me vitimizavam. Eles eram uma sombra enorme na escuridão do quarto. Havia se passado alguns minutos depois da meia noite, acho que uns 45 minutos e em um breve momento me vi diante de um monstro terrível. Um ser pronto para me devorar. Ele não era nada agradável. Por um instante eu percebi que ele tinha um ar bastante seguro e inteligente. Me mostrou o quanto ele me amava. Sim. Aquele ser inteligente e monstruoso me amava mais que tudo. Ele começou dizendo que entendia minha falta de sono, coitado de mim – Durma, o seu corpo não pode mentir, ele já é o de um velho. Disse, sem cerimônia.

A minha rigidez, as minhas dúvidas e o medo, a incompreensão afloraram imediatamente. Nesse dia teve início a luta. Uma guerra santa entre mim e o monstro e que eu sabia: Poderia durar toda a minha vida.

Em um determinado momento desta luta, o monstro mostrou todo o seu amor e me disse: -Lembre-se, nada é externo! Você é o único obstáculo a sua evolução. Não existe dificuldade ou limite que não encontre sua origem e voce mesmo. Ele riu profundamente, emitindo um som gutural horripilante e concluiu: – O mundo é assim, porque voce é assim!

Aquela voz monstruosa ecoava em meus ouvidos. Eu estava pronto para desistir quando em um momento percebi o que era aquilo tudo. Era a personificação de todas as minhas vozes internas. O meu antagonismo, as minhas limitações e duvidas. Era eu mesmo. Eu percebera que quanto mais amplo era meu projeto, mais forte esse monstro se tornava. Então, percebi que ele jamais sera mais forte que meus sonhos. Seria uma força contrária igual. Sonhos grandes, força contraria igualmente forte. Como superá-lo?

Meu filho ama jogar video-games. O preferido dele é o Mario Galaxy, um jogo onde a princesa dos nossos sonhos é sequestrada pelo malvado Bowser. Um ser demoníaco que coloca todos os obstáculos possíveis para que o nosso heroi não alcance o local onde a bela princesa Peach está escondida. O interessante é que os obstáculos nunca são maiores do que a força de vontade que o jogador tem de achar a princesa. No final de cada fase, o Mario precisa pegar o Bowser e lançá-lo para bem longe girando o infeliz monstro pelo rabo e jogando para bem longe. Mas, o Bowser é o antagonismo do Mario. Ele precisa do Mario e o Mario precisa dele, sem isso não há o jogo. No fundo o Bowser ama o Mario profundamente e da a ele a chance de alcançar o sonho dele apresentando obstáculos para que o nosso heroi os ultrapasse até alcançar a princesa Peach.

Ja, sei como superá-lo. Vou ouvir o meu antagonista sempre. Vou identificá-lo, observá-lo e no final da fase, vou me livrar dele da mesma forma que o Mario faz com o Bowser.

Agora eu sei: O antagonista, o inimigo, é um propelente especial. Quanto maior o nosso grau de responsabilidade mais impiedoso é o ataque do antagonista. Ele me mede, me revela e me compreende… Quanto maior o meu grau de liberdade, mais sutil é a sua ação. Aprendi nessa minha luta feroz da madrugada que atrás da aparente impiedade deste monstro, esconde-se o meu maior aliado, o meu mais fiel servidor. Ele quer que eu vença e todas as estratégias adotadas por ele visam apenas a um fim: A minha integridade. Pòr isso, não tenho mais medo dele, pois sem mim ele não existiria.

Quando me levantei aquela manha, tive a nitida impressão que a noite de revelações havia me dado energia suficiente para passar o dia. Não me preocupava mais com o futuro, pois sabia que ele não existia mesmo.

 

Se conhecer é se autocorrigir.

killAté então a palavra perdão me soava como algo simples. Perdoe e pronto. Siga em frente. Que nada! Na verdade é uma experiencia visceral, algo muito íntimo e poderoso. Sem isso não há como seguir em frente. Uma das coisas que me lembro daquele local que cheguei sem esperar muita coisa é que meu passado deveria morrer e meu futuro também. E eles deveriam passar pela dolorosa fase do auto perdão. Sabe aquele pequeno detalhe que fica guardado nos porões de seu subconsciente ou incosnciente, sei lá onde. Aquelas caixas cheias de pó que a gente faz questão de colocar naquele canto escuro do nosso passado. Sim, as caixas de Pandora de nossas vidas. Sabe aquelas que se voce abrir vai dar merda? Aquelas bem doloridas e cheias daquele cheiro fétido das coisas sujas que voce, um dia teve que fazer ou que fizeram com voce? Sim, é dessas que eu estou falando. São elas que voce deve tirar do fundo. Toda a sujeira e a dor, ali decantada no fundo do copo e que a gente nem ousa botar a colher e mexer. Essas coisas que pensamos estar ali esquecidas são as que dolorosa e infelizmente me fizeram acreditar no meu estado de zumbi. No morto vivo em que eu me transformara. Sim, eu me olhava no espelho e via que meu rosto estava todo sujo de uma graxa pegajosa e que eu insistia tenazmente tirar limpando o espelho. Com toda essa carga, como me perdoar por dentro? Estava vivenciando meu inferno pessoal. Perdoar-se é um retorno a si mesmo e para retornar ao passado e para curá-lo é necessário uma longa preparação e só ali, naquele lugar onde eu estava, isso seria possível. Uma tarefa, que até então eu achava completamente impossível.

Um dia após a minha entrevista com as duas moças, eu estava caminhando a beira de um grande lago. O ar estava frio e pesado. Ao fundo uns gansos grasnavam impacientes atrás de algum petisco e uma cadela docil os assustava com seus latidos freneticos. – Impossível, não faz sentido, eu pensei. Então, uma moça apareceu derepente e com olhar firme mas muito doce e me disse: – Ninguem pode conseguir isso sozinho. Encontrar-se consigo mesmo, com sua mentira, irá ser realmente muito difícil. Imagine o quanto é dificil para um ser humano observar-se, inverter a posição da própria atenção. A observação é só o incio da arte de sonhar. Tudo é uma questão de escolhas.

Fiquei ali, em silencio, por algum tempo. O vento frio soprava e eu parado olhando para ela imaginando de onde ela viera.

Realmente não existe uma forma de mudarmos se não for de dentro pra fora. A cura vem de dentro. A culpa não é do espelho. Narciso se encantou pela imagem dele, não por ele mesmo.  Narciso se afogou acreditando que o que ele via era real. Cheguei a conclusão que sempre havia acreditado que os eventos de minha vida fossem únicos os geradores do estado em que eu vivia e todas as circunstâncias externas, as responsáveis por me fazer tão inseguro e sem confiança. Infeliz.

Agora eu sabia. Era verdadeiramente uma visão invertida da realidade.

A moça  novamente apareceu. – Venha comigo, ela disse. Voce esta pronto para entrar nos porões da sua vida, nos lugares mais sombrios de sua existência. Há muito para eliminar…

O dia quando eu tive a consciência do que deixei para tras…

ImagemApós o choro descontrolado e honesto, parei e revisitei a antiga casa dos meus pais. As dores, as decepções, as alegrias e as brincadeiras. Os natais, os jantares, as surras que levei, os jogos com meus irmãos. Os amigos da rua e a simplicidade da nossa vida não eram obstáculos para minha curiosidade. Foram 50 anos em um segundo, sem dó nem piedade. As dores que se formaram durante a minha vida me mostraram o mundo cinza em que eu estava vivendo antes de chegar nesse lugar. As imagens mais recentes sufocavam-me, mais um choro se despontava. Tive enjoos do que via. Eu era apenas um homem perdido em sentimentos frágeis sobre mim mesmo, sem um bom propósito para tirar o pé de casa, apenas com um pensamento único de sobrevivência e medo. O trabalho. Naquele instante me veio a imagem minha sentado em uma mesa desolado. Uma pilha de papéis e um telefone. Um tela de computador apenas e a sua luz iluminando meu rosto pálido. O telefone tocou e uma voz suave disse: “Um homem não depende de uma empresa; não é limitado por uma hierarquia ou por um chefe, mas o é pelo medo. Dependência é medo.Depender significa deixar de acreditar em si mesmo. Depender significa deixar de sonhar” Foi um soco no meu estômago. Eu não era diferente de milhões de pessoas que vivem escondidas nos cantos das organizações sem vida. Eu havia  negociado minha liberdade por um punhado de certezas ilusórias.

Voltei a mim e olhei as lindas moças na sala. Elas estavam lá, segurando as minhas mãos tremulas e frias. Percebi que o trabalho que eu teria pela frente seria mais complicado e profundo do que eu poderia imaginar. Como aceitar que todas as incertezas da minha vida tinham sido criadas por mim mesmo, pelas minhas lentes míopes em que eu via o mundo.

– Pronto! Elas disseram. – Agora vá, você tem muito o que aprender.

Sai do quarto um pouco envergonhado, mas seguro de que estava pronto para lutar com meus monstros e fantasmas internos. Nos dias que se sucederam a esta entrevista, tive a certeza de que deveria repensar tudo o que havia vivido e desaprender tudo que haviam me ensinado sobre a vida, sobre meus pais e avós, minhas gerações passadas e futuras. Sobre o mundo espiritual e sobre Deus.

Aprendi neste novo mundo, que tudo é aqui, agora! Passado e futuro estão agindo juntos neste instante da vida de cada um de nós.

Aprendi que não nascemos para morrer. Que toda a morte é um suicídio impensado. Isso mudou minha realidade. Aquela presença escura que sempre me seguiu na escolha de cada passo na minha vida deveria ser controlada a todo o custo, se eu tivesse mais uma chance.

Descobri que sou como todos os seres humanos, sou um fragmento disperso no universo governado pelas emoções negativas… Acusar, lamentar-me, depender foi a história da minha vida… era o único sentido que eu sabia dar as coisas. Destroçados pela angustia, nós humanos tentamos esquecer a morte com a morte.

Depois de passar por todo o processo a que fui submetido e voluntariamente havia aceitado quando cheguei neste lugar, curei meu passado apenas por conseguir parar de me deixar levar pelas apreensões, dúvidas ou medos. Sim, consegui significativamente, de bom grado, me perdoar por dentro.

O dia quando eu morri…

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Esse foi um dos grandes aprendizados de minha vida: Aprendi que quando queremos dar uma nova contribuição para este mundo, precisamos nos preparar novamente. Resolvi fazer isso, depois de muita resistência de minha parte. A vontade apareceu quando descobri que estava com sérios problemas em me reconhecer no espelho. Levantava de manhã e evitava o terrível encontro com o meu vazio interior. Fazia a barba sob o chuveiro para não ter que me encarar logo cedo. No fundo eu sabia que o que eu encarava não era nada agradável. Um ser inerte e sem propósito. Fiquei assim durante anos, tentando achar o meu verdadeiro propósito. Porque levantar cedo da cama quentinha? Qual o propósito de enfrentar a trânsito logo cedo. Os xingamentos, as notícias ruins, a indignação a cada som ouvido e a cada imagem vista. Ter que encarar, aquela cara de poucos amigos da secretária, logo cedo, era o menor dos meus problemas. – Onde estariam meus melhores dias?, sim, eu pensava isso todas as vezes que eu tinha que encarar o ar pesado e viciado do escritório. O mais incrível era saber que as nove horas da manhã meu corpo funcionaria como um relógio e me faria ir ao banheiro para novamente ter que me encarar no espelho daquele minúsculo cubículo sem janela. O pesadelo era saber que eu teria que fazer várias micagens para, pelo menos, rir daquela imagem sonsa e sem alegria que se formava diante de mim. No final ela me dizia: -É isso ai seu babaca, é assim mesmo, engula esse sapo e siga em frente. Então, eu saia do banheiro, fingindo alegria, assobiando uma velha canção do Roberto (por influência do meu pai). Para todos eu era o poço da calma. Por dentro estava completamente desequilibrado. Minha vida era uma roda quadrada sem a menor condição de me levar até onde eu realmente gostaria de ir. O tempo foi passando e inevitavelmente eu ia me perdendo em pensamentos completamente desconexos. Frequentemente me lembrava do filme “Click” sabe?, sim, eu estava totalmente no automático. Um zumbi vendo o tempo passar sem a menor chance de acordar. Eu estava sendo engolido pela frustração, enfraquecimento e desvalorização que milhares de indivíduos estão passando nas empresas, famílias e instituições das mais variadas. Eu me perguntava a todo momento: – Onde estaria a paixão pelas coisas simples da vida? E os meus pensamentos? Isso era o pior dos mundos. Cada um mais fantasmagórico que ou outro. Depois de um dia inteiro de pressão para produzir mais com menos, num mundo terrivelmente complexo, chegava em casa cada vez mais anestesiado com minha condição de morto-vivo. Eu estava certo que este era o único caminho a seguir, não havia saída: Tinha que sobreviver, ganhar o pão com o suor do meu rosto e enfrentar essa maldição com hombridade. Sim, uma fatalidade criada no Gênese para justificar uma mordida irresponsável em uma doce maçã no jardim do Éden, tolos Adão e Eva. Deus estava no comando e eu não poderia fazer nada diante dessa autoridade suprema que tudo sabe e nada diz com clareza. E assim a vida seguiu. Eu estava me sentindo um caminhoneiro cego. Dirigindo um caminhão lotado de pedras grandes e pesadas, pedras que eu já acreditava serem minhas, correndo por uma tortuosa estrada sem sinalização. As vezes saia dessa condição alimentando minha mente com coisas diferentes: fotos, músicas, livros, apenas um pequeno analgésico para uma dor constante que insistia em aumentar a cada letra lida, a cada nota ouvida e a cada foto tirada.

Empresas são um bom lugar para entender o que se passa na vida das pessoas nesse sentido. A grande maioria dos trabalhadores estão zumbis. Vivem no automático e são bem felizes. Saem de casa de manhã, beijam a esposinha, ficam o dia todo fora, as vezes sentem a pressão mas fingem ser bem tolerantes a ela, ganham seu salário que possibilitam a ter todos os produtos da moda tipo iPhone, iPod, iPAD, iPQP, SUVs e camisetas Abercrombie&Fitch para os “filhotes teens”. Os tiranos que se orgulham em vestir a moda que já é sucesso nas favelas das grandes cidades. Até ai tudo bem. O problema é que são esses tipos que pensam que decidem sua vida. E na verdade decidem mesmo. Mandam e desmandam na sua vida, são os senhores dos escravos modernos, escravos estes que querem ter as mesmas coisas que esses tipos. Imagine, como pode? Eu tinha acabado de perceber que eu estava apostando todas as minhas fichas neste tipo de vida apenas para manter meu status quo.

Uma sexta feira, como sempre, saí da casa feito um zumbi. Dentro do carro, diga-se de passagem, que não era efetivamente meu , fui normalmente para o escritório. Sim, achando que estava fazendo o que tinha que fazer. Acreditava que a falta de critério, validação, projetos, paciência, visão, eram dos zumbis que estavam nas outras mesas e em suas salas envidraçadas e seguras. Afinal, eu estava seguindo a cartilha do bom trabalhador. Honesto, pontual, bem vestido, sem polêmicas ou brigas e cumpridor das metas e objetivos. Mas que zumbi mentiroso eu era. Acreditando na minha própria mentira, eu me achava imune a certas decisões dos chefes. Depois do almoço, acertadamente ou não eu já estava fora do jogo!

Com dignidade, segui a vida. Fui sair da condição de zumbi apenas 15 dias depois, onde finalmente consegui ver um sinal de vida, ainda que bem precária, fora dali. Ainda não tinha parado de comer meu próprio cérebro, cardápio preferido dos zumbis da moda,, mas as vezes percebia o quanto aquilo era indigesto.

Após semanas de vida no limbo e sem rumo, vi que meu caminhão estava perigosamente desgovernado fazia muito tempo e um acidente grave poderia acontecer cedo ou tarde.

Uma noite, durante um sono agitado, um lindo sonho povoou minha mente. Um anjo de pele morena , cabelo cacheados e sorriso franco me disse: – Vá e tome seu rumo, eu sei que você sabe qual é o rumo a seguir. Mas te digo: o caminho é esse!

Dias depois, arrumei uma malinha com poucas roupas, uma escova de dentes, documentos e alguns poucos reais na carteira e, então,  peguei um ônibus em direção ao interior. Apenas me lembro, horas depois, de entrar em uma sala ampla. Ali encontrei umas 25 pessoas agitadas, outras um tanto nervosas e apreensivas. – Você já foi entrevistado? uma delas me perguntou com o ar curioso. Eu, ainda sonolento e sem saber realmente onde estava pensei: – Que coisa é essa de entrevista, do que se trataria uma entrevista nesta altura do campeonato? Um novo emprego? Não….

Uma senhora simpática e misteriosa me disse: -É a sua vez, suba aquela escada e entre naquela porta onde a luz está acesa. Fui em direção a escada e , relutante, subi os degraus da escada. Vi a porta entreaberta, fui recebido por duas moças simpáticas e atenciosas que me pediram para sentar. Sentei e nervosamente fingi estar seguro, sem medo, como sempre fiz. Elas me olharam carinhosamente e segurando a minha mão, uma delas me perguntou: – Então, conte me tudo e principalmente como você se sente agora…

Minha vida toda passou diante dos meus olhos, então, chorei muito, como nunca havia chorando antes, pois eu tive a certeza, naquele instante, que eu havia morrido. E eu estava bem morto e não tinha mais volta.