Finalmente a voz interior…

very-inspirational-19 A decisão de subir aquela escada estava apenas comigo. Olhei para o alto e vi aquela Luz. Procurei a moça que guardava a entrada, ela não estava. Subi, degrau por degrau. Lentamente eu subia e a Luz não me ofuscava a visão. Não esquentava, não esfriava. Não tinha som, não tinha ruído algum. Quando cheguei no topo, vi a silhueta de um ser. Parecia um anjo. Era indistinto. Então uma voz de uma mulher ecoou em meus ouvidos dizendo:

– O primeiro dom que você recebeu quando você nasceu foi o da liberdade de escolha!

Um silêncio se formou logo após. Senti um imenso calafrio percorrer meu corpo. Novamente a voz daquela mulher ecoou:

– A história de um homem livre nunca é escrita pela sorte, mas pelas escolhas que ele faz!

Então, depois dessas palavras, comecei a entender que tudo do que havia acontecido comigo até aquele momento eram de minha total responsabilidade. Pensei: Quanta tolice e perda de tempo, meu Deus… Quanta dor e sofrimento, não era necessário. Então docemente ela falou:

– O seu receio mais profundo não era o da inadequação. Você tinha medo de ser poderoso além da conta. Era a sua luz e não a sua escuridão que mais te apavorava. Você sempre se perguntou:  -Quem sou eu? Não mereço brilhar, nem ser maravilhoso, não tenho talento, não sou fabuloso, não mereço isso tudo.

Novamente o silencio e depois ela continuou:

– Amado filho, por que não? Fingir que você é pequeno não serve ao mundo. Não é nada iluminador diminuir-se para que as outras pessoas  se sintam seguras à sua volta. Todos fomos feitos para brilhar, como as crianças. Nascemos para manifestar toda a gloria de Deus que existe dentro de ti. Deixe que sua luz brilhe sempre, pois inconscientemente você estará permitindo que as outras pessoas façam o mesmo. Quando você se liberta dos seus medos, sua presença liberta os outros automaticamente.

Sim, imediatamente entendi. Tudo que eu havia passado, até os motivos que me trouxeram até este lugar era de minha inteira responsabilidade e escolhas. Minha dependência do mundo, dos medos e dos meus traços de negatividade. Sim, tudo isso e muito mais. Sim, agora estava tudo tão claro. Aquela voz doce da mulher me fez ver o quanto eu estava imerso neste processo de repetição e de anulação de toda a minha vida.

Carinhosamente aquele ser me mostrou o caminho de volta. Desci os degraus daquela escadaria com cuidado olhando a imensidão daquele santuário. O céu cheio de estrelas, aquela galáxia linda e que de tão perto eu poderia tocá-la com meus dedos. A imensa floresta só minha e aquele rio caudaloso. Desci e no final reencontrei A-morea-ki calmo e sereno. Ele, então disse:

– Seja o diretor, a partir de agora, de todo o resto de sua vida. É a metade do caminho. Sim, aparecerão pedras. Não desista e siga em frente. Agora vá.

Imediatamente, voltei ao circulo de amigos. Estranhamente eu estava de volta, acordado. Estranhamente calmo e apreensivo pela responsabilidade de saber o que sabia.

Voltei com a certeza do que queria fazer. Qual o propósito de levantar todos os dias pela manhã. Encontrei a minha voz interior. Estava tudo conectado. Poderia finalmente evitar que meu futuro se tornasse refém do meu passado novamente, deixar de ser a vitima. Ter a consciência e trabalhar para manter viva essa faisca do fogo celestial sempre acesa. Minha necessidade, meus talentos e minha paixão estavam renascendo. Sim, uma nova força estava se manifestando. A vontade de ser!

A vontade é o estado do ser integral, agora livre e pronto para estabelecer um novo patamar de vida. A consciência, essa pequena voz interior. É calma, Traz paz. Traz inspiração. Dar vida, é isso!

Então, na hora, ouvi as seguintes palavras: Viver, Amar, Aprender e deixar um legado. Siga em frente, meu filho…
– Sim pai, eu respondi sorrindo em meio às lágrimas.!
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Como se tornar um ser integral?

imagesCAZFY4VU Viver minha propria morte foi bastante problemático para mim. Não sabia, até este momento, lidar com esse fato. Depois deste exercício percebi claramente que a morte é a imortalidade às avesas. Sempre soube que nossa vida é feita de transformações. Somos hora lagarta, hora borboleta. Hora cinzas, hora fênix. Saí da beira do lago um pouco mais conformado com o fato de que somos o que somos. Mas que podemos ir além, que podemos ser sonhadores do nosso próprio destino. Apenas temos que  assumir o controle dos padrões que regem a nossa mente. Devemos ampliar a nossa visão do mundo, devemos mudar os padrões das nossas crenças sobre o que merecemos e o que é possível. Entendi que tudo é possível se a vontade existe e vem da sua voz interior. Esta é a zona de mudança fundamental, da força e da energia e do verdadeiro significado da coragem.

Após essa experiência intrigante, fui em direção a pousada onde me reuni com todos os outros. Um clima de paz e tranquilidade estava no ar. Eles formavam um círculo e eu me juntei a eles e procurei com o olhar as duas moças que me receberam quando eu era apenas fragmentos desconexos de ser no universo. Elas estavam lá, atentas, olhando para mim. Eu não sabia, mas estava prestes a passar por uma das experiencias mais fantásticas de toda a minha vida.

Sem dizer uma só palavra, nos concentramos e eu facilmente mergulhei no fundo do meu ser, procurei aquele lugar só meu, onde nada era permitido estar lá a não ser eu mesmo.

Alí percebi a força e energia que temos. Todos nós temos esse lugar escondido. Eu o chamo de paraíso portátil. É um lugar que eu ja estivera muitas vezes antes quando me sentia pressionado ou cansado. Meu santuário particular, Mas, curiosamente, nunca havia estado além da praia. Nunca havia entrado na floresta. Na minha floresta particular

Neste lugar encontrei o meu guia A-Morea-Ki. Só Ele poderia estar ali comigo. Ele sorriu pra mim e apontou para uma direção que eu jamais havia estado. Dentro da floresta. Sem dizer uma palavra, ele sumiu mata adentro. Eu corri e o segui logo atrás. Andamos por corredores iluminados por uma luz tenue. Seguimos por um estreita vereda perfumada e rodeada de flores de cores variadas. Apesar da densa floresta, não sentia dificuldade alguma em andar por ali, era como se eu estivesse realmente em casa. E estava.

Em um dado momento a luz tenue se transformou e iluminou o que parecia o centro daquele lugar. – Como eu nunca tinha visto isso? eu pensei. A-Morea-Ki parou e com um movimento de suas mãos abriu uma passagem onde eu vi um rio e uma escada feita de pedras.  Aquela luz vinha do alto deste lugar. A escada era guardada por uma mulher vestida de branco.

Meu guia então finalmente me disse: – Chegou a hora. Eu sou sua voz. Sua necessidade, talentos e  paixões. Eu sou sua consciência. Te dou a disciplina, a visão. Isso tudo para que voce viva, aprenda, ame e deixe um legado. Chegou a hora de juntar seu coração, sua mente e seu espírto no seu corpo. Agora voce viverá de acordo com essa consciência e experimentará a integridade e paz de espírito.

Cai de joelhos em prantos. Suavemente ele me levantou e disse:

– Veja esse rio. Nele um barco pode navegar para leste e outro para o oeste, levados pelo mesmo vento. É a posição das velas e não a ventania que  dá o rumo a eles. Como os ventos do mar, assim é o destino. E quando viajamos pela vida é a posição da alma que decide seu rumo, não a calmaria nem a rivalidade.

A-morea-Ki apontou para o primeiro degrau da escadaria. Relutante olhei para a luz e dei o primeiro passo rumo à minha liberdade.

O que vão falar de mim?

Coffin-1Todo esse processo me fez pensar profundamente em que tipo de pessoa eu sou. Quem sou eu de verdade? Me fiz essa pergunta olhando para meu comportamento, para minha vida. O fato de eu estar isolado do mundo, na pousada, por escolha própria, isolado completamente do convívio com todos do mundo externo, me fez refletir muito sobre como as pessoas me viam como pessoa, como ser e que tipo de legado eu deixaria para este mundo. Diante deste pensamento, preferi me isolar em algum lugar próximo ao lago. Uma pequena pedra em formato de banco, perfeitamente alinhada com a paisagem e banhada pelo sol fraco da manhã.O sol estava convidando-me a refletir sobre tudo isso. Pensei em como descobrir as respostas às minhas perguntas. Quem sou eu de verdade? Pensei em como eu me apresentava às pessoas do meu convívio. – Olá, como vai tudo bem? Há quanto tempo, né? Bem simples, assim! Oras bolas, nada de especial. Quando eu atendia aos telefonemas dos clientes? – Alô, bom dia! Quem fala? Pois não?

Fechei os olhos e relaxei por alguns instantes. – Quem eu era realmente? Me perguntei várias vezes. No mesmo instante ouvi uma voz me dizendo: – Ao telefone, não diga “alô quem fala”, apenas diga “Alô, quem sou?”

Essas palavras me deixaram muito confuso, perdido. Imediatamente comecei a imaginar como as pessoas me viam. Lembrei me dos estudos que fiz do Dr Covey sobre “liderar a si mesmo”. Ele propôs o seguinte exercício sobre auto conhecimento.”Ir para um local sossegado e imaginar o inimaginável, saber o que dizem sobre você”

Imaginei que estava andando por um campo gramado extenso, um dia frio, nublado e garoento. Por um instante, notei uma casa ao longe. Com frio, andei até ela apressado. Perto dessa casa, notei varias pessoas fora e outras dentro da casa. Algumas murmuravam, outras conversavam baixinho e algumas estavam quietas e pensativas, algumas riam de piadinhas fora de hora. Quem eram elas? De onde vieram? Pensei. Entrei na casa me desviando desta gente. Entrei pelos corredores e vi uma sala onde havia algumas pessoas aglomeradas. Segui até lá e notei que algumas choravam baixinho e percebi na hora do que se tratava. Era o velório de alguém. Andei com cautela para ver quem estava ali deitado. Lentamente me ergui por trás do ombro de uma mulher de branco entre dois homens altos e me vi ali deitado, velho, branco como um boneco de cera e rígido, entre flores. Morto.

Olhei em volta. Não reconhecia ninguém. Se sou eu que estou ali. Onde estão as pessoas que viveram comigo? Olhei em volta e vi os dois homens ao lado da mulher de branco. Meus filhos, pensei. A mulher de branco, minha esposa. Ao lado gente que deveria ser alguns amigos e colegas de profissão e trabalho. Todos conversavam ou pensavam em como eu tinha vivido a minha vida. O que estariam dizendo?

Pelo que eu havia construido até então, eu imaginei eles dizendo coisas do tipo: – Se preocupou tanto com tudo, coitado, descansou. Ou, – Viveu a vida querendo mudar, olha só agora. – Viveu com medo a vida toda. – Nunca ajudou ninguém mesmo. – Foi tarde!

Torci para que alguém gritasse: -Olha lá, ele ta respirando, ele tá vivo! Chamem um médico!

Essa experiência me abalou de certa forma. Não saber se estou vivendo dentro de valores e princípios corretos me fizeram pensar mais sobre a forma como eu via as pessoas que estão ao meu lado. Sobre quem eu sirvo e sobre quem me serve neste mundo.

A mudança necessariamente tem que vir de dentro para fora. Não existe outra forma de mudar. O externo não muda você. Ele está atrelado a forma como você vive. Se você é agressivo de todas as formas, o mundo o agredirá severamente.

Nada que vem de fora poderá mudar a forma como você vê o mundo. Nada acontecerá se você não permitir. É você que escolhe o que irá acontecer ou não com sua vida. Esqueça todo o resto.

No fim, o que você irá ouvir dos que te acompanharam nessa vida? Se você se puniu, vitimizou, adoeceu, mendigou amor de tudo e de todos, o que ouvirá no final? Pense?

Foi o que eu fiz na beira do lago. Pensei sobre o que quero ouvir neste momento. O fato é que o resultado das nossas escolhas e ações é que colocarão as palavras nas bocas das pessoas que estarão olhando você na hora final.

Qual é a sua vontade?

artworks-000045141749-rbpv71-original  O encontro com meus antepassados foi um processo visceral e profundo, foi parte da transformação. A voz do meu antagonista, estava cada vez mais presente. Ouço essa voz agora cada vez mais alta. Ela me desafia, me mostra o quanto estou preso a velhos padrões aprendidos, herdados. Para minha integralidade seria necessário muitas viagens ainda. Viagens ao meu interior, a busca por uma transformação definitiva. Naquele dia, após a visão do passado, clara e cristalina, me senti dentro de um novo contexto sobre a vida.

Encarava meu antagonista como o Grilo Falante, do clássico Pinocchio. O paralelo é simples: Mentimos para nós mesmos quase que o tempo todo. Somos escravizados, enganados e mortos pela nossa própria falta de entendimento e de consciência da necessidade da integralidade do ser. Nosso antagonista, (aquele monte de vozes)para nós, está sempre certo, nos apontando os nossos erros, medos, fraquezas e acertos. Ele sempre nos protege da dor. E sempre damos todos os ouvidos a ele. No fundo, no fundo, estamos sempre em busca da nossa reintegração de posse. Queremos o que é nosso por direito, a nossa liberdade. Queremos nos livrar do medo. Mas não sabemos. Dei sorte. É por isso que eu estou neste lugar, vivendo essas histórias. Vim pra cá para tomar de volta minha consciência. Ganhei uma grande revelação pessoal.

A consciência é luz. Saber o que acontece dentro da gente permite interferir no instante, o único tempo real, para projetar um mundo livre dos acidentes. Onde existe essa consciência, onde essa luz chega, os acidentes não tem razão de ser. Para que uma coisa inesperada aconteça, uma longa preparação é necessária.

Para mudar, eu deveria ficar atento. Percebi, então, que uma vida infeliz, flagelada por dificuldades e problemas não se deve ao acaso, mas à falta de atenção a tudo aquilo que nos acontece intimamente. Lembra? É como guiar aquele caminhão cheio de pedras, que não são nossas, de olhos vendados, atravessando cruzamentos e ruas no mais profundo sono.

Então, bem no meio de uma aula da viagem espiritual percebi o óbvio. Me vi completamente responsável pela minha vida e morte, completamente responsável pelo meu destino. Olhei para meu ser etéreo e reconheci que dor, doença e pobreza não são obras do acaso, mas produtos dos meus conflitos. Eu é que criara tudo isso. Criara, com muito zelo aqueles malditos cálculos renais de anos atrás e que quase me matou de dor.

Quando carreguei meus mortos, estava carregando a possibilidade de mudar com a dor, mas não via dessa forma. Por isso, resisti bravamente aos meus padrões. Me agarrei à vitimização, ao medo e à insegurança. As crianças da minha mãe e de meu pai me mostraram isso. Olhei a nossa culpa. Percebi que somos culpados pela nossa vida e ao mesmo tempo não temos culpa.

Vi que onde eu estava não era nada além de uma escola. Estava aprendendo a ser eu novamente, estava aprendendo a identificar toda a minha involuntária negatividade. Tinha que expulsá-la a todo custo do meu mundo. Junto comigo tinha alguns outros poucos que perceberam a necessidade de uma escola especial, somente poucos dentre poucos tem as qualidades para poder encontrá-la. Não! Eu não estava entre aqueles poucos. Foi meu antagonista que me escolheu para demonstrar aqui o que todo o ser humano pode conseguir. E ele foi duro comigo: – O papel que uma pessoa assume é sua expiação e um dia será seu caixão! Por isso, é necessário que uma nova humanidade substitua esse pagamento involuntário que fazemos usando a dor. Preste atenção, ele disse, A cura virá antes da doença e a solução chegará antes dos problemas.

Percebi que deveria amar a mim mesmo, com todas as minhas forças, em todas as circunstâncias e sob qualquer condição, sem descanso. As coisas acontecem sem esforço, naturalmente, por necessária consequência, e são todas reguladas pela minha vontade!

Sim a vontade de mudar era tão infinitamente grande que eu tive a certeza que nada poderia deter esse ímpeto, esse meu novo destino.

O passado é pó!

dust 1 Naquela noite, após o jantar, conversei animadamente com meu companheiro de quarto André. Falamos sobre a vida. Falei sobre minhas viagens, sobre o meu mundo e meus fracassos, sobre minhas vitórias e perdas. Descobrimos juntos que perdemos, coincidentemente, os nossos pais nas mesmas condições. Quando meu pai se foi, eu estava dormindo no quarto ao lado. Com o André foi igual. No meu caso, foi numa noite quente de Março em 1996. Nunca me esquecerei da última visão que tive dele. Jantamos juntos. Minha mãe havia ido em um velório de uma velha senhora da rua de baixo. Durante o jantar comentamos sobre a morte. Ele me revelou um certo desprezo por esse rito de passagem. Me disse que não queria ficar de “licença premio” por aqui, termo muito usado por funcionarios públicos de carreira para tirar folgas adicionais, coisa que ele também não dava importância. Perguntei se ele estava bem com aquele calor, típico dos meses de março. Me respondeu com um “hãm-hãm”. Isso era tão comum em meu pai. Sua falta de dialogo me deixava triste e intranquilo. Vimos um pouco de TV e horas depois ele se recolheu sozinho e me disse um tachau frio como sempre. Minha mãe ainda no velório, voltaria só algumas horas mais tarde. Fiquei vendo TV e logo me cansei. Subi as escadas e ouvi meu pai dormindo, roncando, deitado na cama espalhado. O calor era tanto que eu resolvi sair do banho ainda um pouco molhado e me deitar na cama direto. Acordei com o pedido de ajuda da minha mãe dizendo: -Filho, o papai está com problemas!!!

Andre se espantou com as coincidências. Eu, apenas um pouco. Fiquei com o grito que dei ao ver papai naquele estado, ecoando em minha cabeça sobre o travesseiro. Pensamentos difusos de lugares e pessoas nunca vistas…

Um tempo depois me deparei com um lugar incomum. Uma casa simples no meio do mato. A casa cercada por uma cerca feita de bambu com uma portinhola na frente. De longe vi um homem alto, nariz italiano grande. Ele conversava rispidamente com uma mulher loira alta. Ela segurava uma criança no colo enquanto outras corriam pelo quintal daquela casa desolada. De longe notei que ele segurava o braço dela com força e tentava jogá-la no chão. Ela segurava firmemente a criança e tentava se soltar. Dei um grito de longe. – Ei? Voces tem um pouco de água? O homem olhou pra mim, e veio em minha direção com os olhos cheio de raiva e passou por mim e nem me notou. Apenas saiu , cruzou a estradinha de terra e sumiu pelo mato adentro. A mulher entrou na casa e pude notar ela abanando o fogão de lenha com um pedaço de lata de banha antiga.

A portinhola estava aberta, e curioso, entrei naquela humilde propriedade perdida no meio do mato. Percebi que não tinham muitos recursos e a senhora chorava baixinho na cozinha. Não notaram a minha presença. Eu não fazia parte daquela cena. Era como um espectador. Um espirito vagando por entre aquelas pessoas. As crianças brincavam na terra vermelha, todas sujas e remelentas corriam em volta da casinha. Um dos meninos, aparentemente o mais velho, tentava arrumar um velho caminhão de algum vizinho ali de perto. Ele deveria ter uns 13 ou 14 anos. Foi então que ele chamou um outro garoto que estava do outro lado do quintal e eu não havia notado. Ele estava perto da cerca de bambus, largou o que estava fazendo e veio caminhando em direção ao irmão mais velho.   – Pegue aquela ferramenta ali, disse o mais velho. Então, ele olhou em volta e pegou um pesado martelo que levantou com dificuldade. Ele deveria ter uns 7 ou 8 anos. Foi quando ele me notou ali parado, como um fantasma.

Ele sabia que eu estava ali e que ninguem podia me ver, apenas ele. Um ar frio me atravessou a alma.

O menino correu até a cerca e continuou com a sua brincadeira solitária. De longe, ele continuou me olhando, enquanto os outros nem sabiam da minha existência. Criei coragem e fui até ele.

Ele sabia quem eu era. Não disse uma palavra. Apenas me mostrou um alçapão e visgo. Sabia que ele gostava dos cantos dos pássaros, seus únicos companheiros. Mostrou a casa, as roupas, as marcas da surra que havia levado por derrubar uma fruta no chão ao defender mãe da brutalidade do pai. Mostrou o quanto tinha pena da mãe que vivia apanhando do pai ausente. Magro, mostrou a casa de poucos recursos, me levou até os fundos e abriu um portão onde havia uma criação de galinhas, a única proteina da semana.

Mostrou que não entendia o sofrimento de seus pais, não sabia nada sobre amar, apenas gostava da natureza e seus mistérios e da companhia dos irmãos mais velhos que o levava para brincar e caçar no meio do mato. Era como eles se viravam para sobreviver.

Então, seu rosto se transfigurou e ele olhou para mim e disse: – Entendeu agora? Então vá, meu filho!

Acordei num sobressalto às 3 da manhã. Meus pensamentos eram confusos. Demorei algum tempo para me recompor.

Perguntei para mim mesmo: Mas como? Se eu não me recordar do passado, da minha história como poder extrair conhecimento dela? Como evitar, no futuro, os erros cometidos no passado?

Então, ouvi a voz do A-Morea-Ki: – Passado é pó. O tempo não é horizontal e sim vertical. Entenda isso e quebre o ciclo. Limpe o pó que é o seu passado. Entenda: o mundo é o que voce é.

Passei o resto da noite vendo o rosto transfigurado do meu pai criança e jamais verei da mesma forma a figura dele que ainda habita minha mente e minha alma.

O dia em que viajei no tempo…

time_travel Tempo de mudanças. Sim é hora de mudar. E para mudar necessitaria voltar no tempo.

Recentemente tive uma conversa muito interessante com um querido primo meu que mora em Quito, próximo a um vulcão. Falamos sobre a vida perto desses verdadeiros monstros adormecidos e sobre nossa família que tinha sido outro vulcão em erupção. Descobrimos que temos muito mais em comum do que poderíamos imaginar. Percebi que a minha descoberta sobre nossos antepassados é a peça chave deste processo de autoconhecimento.

Na pousada descobri que para mudar deveria saber mais sobre meu passado do que sobre mim mesmo. A minha auto confiança estava parcialmente acabada e tinha que descobrir o fio da meada. Na minha imaginação de criança, viajar no tempo era uma coisa que exigia um enorme esforço. Vários cientistas juntos trabalhando como no seriado O túnel do tempo nos anos 60. Ou simplesmente com o DeLorean do Dr Brown em De volta para o Futuro já nos anos 80. Eu precisava dar um passo na direção do passado, ouvir o que meus antepassados tinham para me dizer. Para mim, este entendimento é fundamental para a mudança que eu estava empreendendo. Eu sou o que sou justamente por que outros foram o que foram. Esse outros, fizerem o que puderam com o que tinham para sobreviver e eu precisava ouvir deles a versão dos fatos. Não o que me contaram, mas a verdade sobre o que aconteceu na vida deles. Como chegar lá sem o DeLorean?

A volta ao passado é um processo intenso, ou pelo menos achava isso. Exige um grande esforço para entender as palavras e as imagens que você vê. Em um momento de folga, entre um exercício e outro, vi uma oportunidade de me isolar do grupo e passear por entre as arvores de um bosque próximo. Ao redor do bosque tinha um pequeno lago artificial, em uma de suas extremidades tinha uma pequena comporta que represava toda a água e a deixava sair por uma pequena passagem criando um vórtice frenético de agua e outros materiais. Fiquei ali por um tempo cuspindo na agua e jogando gravetos como eu fazia quando era criança. Mais adiante eu vi um outro pequeno lago onde a agua ficava calma e bem em frente havia um pequeno tronco caído de uma arvore mal cortada e que estava ali formando um pequeno banco natural. Sentei no tronco e percebi que estava extremamente só. O lugar era tão calmo que pensei ser perfeito para tentar fazer uma viagem no tempo usando apenas minha mente. Ali eu pensei: – Com o DeLorean seria tão legal. Encostei no tronco que sobrou de pé e ali fiquei pensando…pensando.

Cansado de tentar, sem sucesso, resolvi atirar no pequeno lago algumas pedrinhas e pedaços de madeira e observava as ondas que elas formavam na superfície calma. Nisso, surgiu de trás de uma plantação de margaridas uma garotinha de uns 7 anos. Morena e de cabelos pretos, ela veio em minha direção e perguntou sem cerimonia: – Eu faço poemas você quer ouvi-los?

– De onde ela veio? eu pensei. Ela pegou na minha mão e me disse: – Vamos, eu moro ali naquela casinha depois do lago. Levantei hesitante, tinha que voltar logo pra pousada. Estava curioso para ouvir o poema daquela garotinha esperta. Cruzamos uma ponte de madeira e logo eu vi a casa dela. Era simples, gente pobre. Ao longe vi uma mulher saindo para trabalhar e dando ordens para o que parecia ser o filho mais velho. – É a minha mãe e meu irmão mais velho, ela me disse apontando seu dedo na direção deles, ela vai trabalhar na colheita de café na outra propriedade aqui perto. Meu pai esta no mercado trabalhando. Fiquei curioso para saber mais sobre quem era aquela gente. Perguntei muitas coisas, porque a mãe dela trabalhava com café, quantos irmãos ela tinha, quem era o pai dela e ela foi respondendo. Detalhadamente.

Descobri muitas coisas sobre ela, sobre seus medos, anseios e sonhos, sobre o quão difícil era viver naquelas condições, soube que ela quase morrera afogada no lago uma vez, mas um homem misterioso a tinha salvo segurando uma de suas mãos que estava fora da agua. Ela contou que já tinha tido difíceis perdas na família e que os irmãos a chamavam de doida só porque ela fazia poemas e conversava com as plantas e os animais.

Olhei no relógio apressado, o tempo voara e vi que já era tarde e estava perdendo as explicações das professoras sobre como viver integralmente. Me despedi e segui rumo ao outro lado do lago. Ao longe vi a menina acenando para mim e me lembrei de perguntar o nome dela e gritei: – Qual o seu nome? Ao longe eu a ouvia, mas não entendia. O que? Como? gritava alto e ela cada vez mais distante respondia gritando ao longe, quase que imperceptível…me revelou em um eco distante… Clarisse Carneiro.

Num arrepio, me vi sentado em frente ao lago. Incrédulo, tremulo e pensei: – Tive um dialogo com minha mãe criança?

Olhei no relógio e passara apenas um minuto.

Vencer a si mesmo!

remember_the_beach_scene_in_the_mov_286350406_1680x0Eu me lembro muito bem a primeira vez em que pensei nisso. Foi há alguns anos quando decidi prestar mais atenção em como eu estava comigo mesmo. Essa história aconteceu bem meio dos meus pesadelos no trabalho, lembra daqueles dias em que eu não sabia quem eu era e quanto estava me tornando um zumbi? Eu estava com a ideia fixa em como liderar a mim mesmo. Em como alterar aquele estado de coisas e definitivamente aprender a lidar com minhas dificuldades e com os obstáculos que a vida estava me fornecendo. Eu estava buscando uma fórmula mágica da impavidez, da invulnerabilidade, da vitória, da glória. Estudando o trabalho do Dr Covey, percebi que deveria seguir certos hábitos e um deles seria vencer o grande desafio contra meus padrões mentais e contra mim mesmo. Ir contra tudo que havia aprendido em quase meio século de existência. Foram quase quatro anos de espera até me encontrar sentado em torno de uma grande piscina da pousada, isolado do mundo e onde resolvi me curar. Sentei-me em uma espreguiçadeira de plástico, relaxei e me deixei levar para um lugar só meu, bem fundo em minha mente. Desde pequeno eu conhecia este lugar, já havia ido até lá muitas vezes sem saber. Parecido com a cena do filme Contato, de 1997, adaptado do romance de mesmo nome escrito por Carl Sagan e dirigido por Robert Zemeckis, (dois gênios, diga-se de passagem) quando a Dra. Eleanor “Ellie” Arroway – Jodie Foster- encontra o pai, há muito desaparecido, no paraíso dele. Para mim a melhor cena do filme. Quando eu vi essa cena, me impressionei com a semelhança da minha própria concepção do paraíso. Ali eu O encontrei. A-morea-ki vestia uma túnica branca e vinha de óculos escuros, achei muito bom esse estilo dele. Aquele dia estava sol, pelo que me lembro. Ele chegou me saudou e foi logo dizendo:

– Liderar-se é antes de tudo ser um diretor de si mesmo e da sua vida. Tem que saber reconhecer e identificar qualquer negatividade. Tem que saber que, para vencer todas as batalhas, é necessário vencer a si mesmo. Isso significa não permitir que as emoções negativas governem a sua vida. É ter as rédeas da sua vida em suas mãos. Significa vencer a destrutividade dos seus pensamentos e não permitir a auto sabotagem. Significa a superação dos seus limites e de quaisquer obstáculos criados pelo medo, pelas dúvidas e por qualquer outra sombra do seu ser. Vencer a si mesmo significa desenterrar a vontade, fazer uma viagem de retorno em direção à integridade. Não há outra coisa a se fazer na vida, as provas da existência que chegam até o seu ser, os empenhos no trabalho, ou toda dificuldade que você encontra em seu caminho representam outras tantas oportunidades de acalmar a multidão briguenta que você carrega dentro de si e avançar em direção à integridade. Vencer a si mesmo significa não sentir nem deixar transparecer a menor expressão de negatividade. Não permitir internamente nenhum abaixamento, nem mesmo a menor careta de dor.

Foi uma revelação que imediatamente me fez sentir que a batalha pela integração iria ser mais complexa do que eu imaginava.  Como já dissera antes, poderia durar todo o resto da minha vida. Esforcei-me para permanecer no meu paraíso com Ele. Na verdade não era muito difícil ficar ali, ouvindo as revelações da toda uma vida de perguntas sem respostas até então. Ele ajeitou os óculos escuros do mesmo jeito que eu faço com os meus e continuou:

– Veja só, vou te dar uma dica: se você for tomado pelo tempo, resista. Se você for tomado pela dor, mastigue a dor. Se você for tomado pela dúvida, engula a dúvida. Se você for assaltado pelo medo, sublime o medo.

Como assim? Eu pensei. O que é isso? Minhas reflexões rumavam à direção oposta, eu queria mais tempo, a dor era parte da vida, a dúvida a minha companheira constante e de todos os homens, o medo era base da sobrevivência humana. Isso era viver para mim e também tinha sido para o pessimista pensador Schopenhauer.

– Vencer a si mesmo significa não depender do mundo, significa ser criador e senhor de si mesmo, dos próprios estados do ser, portanto senhor do mundo.

Foi um soco no meu estomago. Fiquei pensando nas máscaras que, como uma criança, eu usei a vida toda. Tudo para me adaptar ao mundo que eu mesmo projetara e estava vivendo. Ele sabia dos meus pensamentos e soltou a bomba:

– A sua liberdade custará a você as mascaras que você usou assim por tanto tempo.

Hora de mudar!!!