Ser é Ter

a1 fernando pessoa Como encarar a vida de frente? Fiquei preso em mim mesmo por 8 dias. Libertei fantasmas, lutei com eles, viajei no tempo, descobri padrões, entendi quem eu sou verdadeiramente. E agora? Olhava o futuro como um caderno com páginas em branco. Estava pronto para começar a história do resto de minha vida. Sabia que nada tinha se dissipado, nem meus medos, nem minhas inseguranças. Sabia também que poderia escrever uma nova história de uma nova vida que estava para acontecer. Cheguei zumbi e estava saindo vivo. Integro. Pelo menos saberia como encarar meu antagonista. Não tinha mais medo de mim mesmo, nem dos meus sentimentos, fossem eles bons ou ruins. Por fim, entrei no ônibus e parti. Foi dura a despedida daqueles seres de luz que, como eu, chegaram naquele lugar sem saber de si mesmos, sem saber do que eram capazes. Compartilhamos sentimentos, assuntos íntimos, compartilhamos o amor, a vida. Saímos com as mesmas expectativas, mas felizes com as novas possibilidades. A possibilidade de ser.

Sozinho, no ônibus pensei: Eu sou! Se tenho, sou e se sou, eu tenho. Esse pensamento, desde então, não sai mais da minha mente. Descobri que sou. Sou o que quero ser. Eu sou! Não consigo mais pensar diferente. Eu sou tudo que quero ser. Essa lógica começou a povoar minha mente.

Olhando sobre essa perspectiva percebi o quão revolucionário é esse pensamento. Se sou, eu tenho. Então, percebi que ser e ter são as duas faces da mesma realidade. Toda a minha realidade, que eu via e tocava, era simplesmente eu. Minhas roupas, minha casa, minha família, meu carro velho. Tudo projeção do que eu sou. As relações que estabeleci, o dinheiro que ganhei e perdi, tudo sou eu. Olhava a estrada e via casas perdidas no meio de campos e plantações. Quem viveria ali, pensei. Alguém que sonhou viver ali.

Senti náusea por causa do cheiro de óleo diesel queimado e pensei:

– Tudo aquilo que a gente vê e toca, tudo aquilo que a gente percebe, tudo que chamamos de realidade, não é outra coisa se não a projeção dos nossos sentidos, a projeção dos nossos pensamentos e sonhos. Aquele ônibus é sonho de alguém, aquela casinha pobre no meio do mato, também.

Fechei os olhos tentando dissipar tudo isso, mas os pensamentos vinham aos montes:

-Projetamos o nosso mundo de ideias e valores da nossa existência e criamos o mundo do ser. Então, logo, eu sou o mundo que eu criei. Minhas dores, minhas posses, minhas doenças, meus medos e minhas ansiedades. Eu sou esse mundo? Sim, tudo isso.

Quando abri os olhos novamente, a náusea voltou.

Então, o pobre, o rico, são estados do ser. O artista, o escritor, o sábio e o tolo. São estados do ser. Aquele país pobre cheio de famintos. Por que? Meu país, rico em recursos naturais e tão desigual?

O ônibus parou em uma rodoviária do interior muito ordinária. Era uma parada estratégica. Cães se misturavam a vendedores de doces e refrigerantes. Pedintes imploravam por centavos. O que eles me ensinavam? Que estado de ser era aquele? Como ajudar? Um sentimento antagônico tomou conta de mim. Não era pra ajudá-los. Eles me ajudavam. Eles estavam naquele estado de ser para me ajudar a entender meu mundo, meu estado de ser.

Se eu desse muito dinheiro para aqueles pedintes, de nada resolveria. Não adianta o assistencialismo.  Existe um mecanismo misterioso que, sem dúvida, reconduz o ter ao nível do ser. Uma pessoa não preparada, ainda que temporariamente favorecida por um evento externo, é lançada na antiga pobreza caso o ter supere o seu nível de ser. Pensei no meu país. Não adianta o governo dar bolsa de ajuda aqui ou ali se o estado de ser do povo não tenha alcançado um grau adequado de riqueza interior (ética, estética, religiosa, filosófica e científica) e no seu sistema de valores.

O ônibus chegara ao seu destino. Confiante e feliz eu sai pronto para encarar as páginas em branco do resto de minha longa vida!

Um novo pacto com a vida!

ImagemDepois de toda essa experiência notei que poderia criar um plano de fuga, um mapa. Uma noite, lá na pousada, eu sonhei que andava num campo de trigo. Era uma campo perfumado e lindo. Na minha frente uma vereda batida, uma trilha conhecida. Eu sempre andava por ela. Era minha velha conhecida. Tinha tudo o que eu queria. Me levava sempre até a saída do campo. Estranhamente, assim que eu chegava na saída do campo de trigo, eu me deparava com o mesmo campo eu olhava em frente e via a mesma vereda batida. Um certo momento, senti uma vontade muito grande de beber água e ao longe vi um lago com águas cristalinas, mas aquela estrada não me levava até o lago. Forcei criar um novo caminho, sai da vereda e entrei no meio do campo de trigo criando um novo caminho, mas por mais que eu tentasse avançar, ficava difícil andar pela nova trilha. Ao lado, não muito distante, vi aquele velho e conhecido caminho. Andei cada vez mais e me afastava e em um determinado momento me vi sozinho no meio do campo de trigo sem água e sem a antiga trilha.

Percebi o quanto é dificil sair dos velhos e conhecidos caminhos adotados na vida. O quanto é complicado manter a vontade de mudar, mesmo que a sede de mudar seja muito forte. Manter a segurança do que é conhecido pode ser mais confortável, mas nos impede de viver novas alternativas de vida. Temos medo de nunca mais achar nosso caminho na vida.

Na minha vida, as duvidas mais angustiantes e complicadas manifestaram-se diante do pensamento de abandonar meus piores traços. Aprendi que eu era unico obstáculo, o maior inimigo da minha evolução e de todo e qualquer insucesso meu. Percebi que muitos anos de observação e esforços ainda seriam necessários para entender  que todas as circunstâncias adversas que pareciam objetivas, externas e independentes da minha vontade são na realidade apenas minhas criações. Os obstáculos que dificultam a mudança são apenas a dor que vem das partes mais escuras do meu ser.

Faz alguns anos, havia sofrido de cálculos renais no rim direito. A dor foi lascinante, Foi no meio de uma confusão profissional onde estava perdendo milhões em faturamento por conta de uma mudança nos meus distribuidores locais. Uma pedrona que arrebentou meu ureter e me custou o uso por 40 dias de um doloroso cateter que me cutuva a bexiga todas as vezes que eu ia ao banheiro e evitou uma descida de esqui nos Alpes que tive que recusar por medo de um sangramento no topo da Europa. Havia optado pela doença onde eu podeia refugiar-me no regaço escuro da existência, onde não se compete nem se combate, mas onde eu me acusava, me justificava e implorava piedade do mundo.

É, percebi o quanto estava sabotando algumas coisas e como ainda tinha potencial para repetir esse danoso traço de comportamento inconsciente, agora mais consciente do que nunca.

Percebi que tinha que reciclar tudo isso. Ser ecologicamente correto comigo mesmo. Não deveria procurar o paraiso, não. Nem pensava em fazer nada para merecê-lo. Deveria apenas ter a vontade de eliminar o inferno da minha incompreensão sobre mim mesmo.

Vi que nós somos os construtores dos nossos fracassos e sucessos. Tudo nasce dentro da gente. As mudanças, para serem duradouras, sempre devem se manifestar de dentro para fora. Nossos pensamentos tem a força necessária para promover mudanças de caminho. Nada vem de fora. O externo não existe. Somos nós os únicos responsáveis pelo mundo que criamos. Definitivamente eu tinha que resolver a questão dos meus traços e pensamentos.

Era hora de enfrentar meus seres monstruosos, inimigos milenares, terríveis e ilusórios como os meus medos. Era hora de enfrentá-los!