Então, qual foi a sua justificativa hoje?

0000noexcuses Faz algumas semanas que resolvi anotar todas as desculpas que ouvi de amigos, colegas de trabalho, parentes e pessoas estranhas. Aí vão algumas:

“Estou preso numa maldita rotina que está me enlouquecendo, me esgotando, nossa!! estou exausto.” – Homem no trem falando ao celular!

“Aqui neste trabalho, ninguém me dá valor. As pessoas aqui não fazem ideia das minhas competências” – Moça da loja de roupas perto de casa.

“Não me sinto útil lá em casa, meus filhos me ignoram, meus vizinhos não falam comigo no elevador pela manhã, minha mulher não fala direito comigo, exceto na hora de pagar as contas no fim do mês, mas que desastre é minha vida” – De um colega que trabalha numa empresa parceira.

“Estou desanimado e frustrado” – Ex-namorado de uma amiga.

“Não estou conseguindo ganhar o suficiente para pagar as contas, desse jeito onde vou parar?” – Jovem esperando o trem junto com amigo.

“Talvez eu não seja bom o suficiente” – Filho de um amigo depois do jogo de futebol.

“Não tenho tempo nem dinheiro para estudar”- Um rapaz na fila do supermercado.

Entre outras coisas dispersas:

“Tenho medo, estou estressado, estou entediado, não amo mais meu marido/esposa, ninguém me entende, não posso mudar as coisas, me sinto tão só, minha mãe não muda, ele não me entende, o amor acabou etc, etc, etc.”

Recentemente vi uma séria pesquisa de avaliação do clima organizacional de uma grande multinacional e o resultado foi que a maioria das pessoas não acreditavam que poderiam ser valorizadas ou promovidas no ambiente de trabalho. Não se sentiam parte de algo importante. Um resultado, na verdade, desastroso no sentido pessoal e profissional.

Percebi que essas falas fazem parte da vida da maioria das pessoas, milhões de profissionais, donas de casa, executivos, crianças e , principalmente, de adolescentes, que vivem uma vida vazia e sem propósito.

Vou contar uma história real: Uma grande amiga, recentemente, me revelou que estava profundamente deprimida.  Perguntei a ela o que ela acreditava que seria uma possível causa desse sentimento tão terrível. Ela, imediatamente, disse que havia se separado de um namorado o qual estava apaixonada e não tinha mais animo para levantar da cama. Mas que estava consultando um médico e que, após a prescrição de um remédio por ele,  estava se sentindo um pouco melhor. Frequentemente conversavamos sobre esse assunto. Um dia perguntei como ia a vida dela e sua recuperação e ela me revelou que estava presa numa rotina infernal com seus pais e, apesar de estar perto dos 50 anos, não conseguia ter uma vida própria e se sentia terrivelmente manipulada pelos desejos crueis de sua mãe idosa e manipuladora.

Disse a ela para sair e encontrar pessoas, deixar a casa dela, casar consigo mesma, se libertar da condição de filha boazinha e viver uma vida diferente. De fora pude ver o quanto a mãe era realmente manipuladora e o pai totalmente omisso. O sentimento de culpa, só de pensar em abandonar os pais, era forte demais para ela seguir com a própria vida. Após uma longa conversa, ela me disse: – Ah! Vou dar um jeito nisso, em breve vou cuidar da minha vida. Mas sabe? Agora ainda não dá. Minha mãe precisa de mim e além do mais não estou bem financeiramente. Depois falou: – Também, não tenho com quem sair. Os homens são todos safados, né? E também, detesto pegar transito emorro de medo de ser assaltada. Menino! São Paulo tá um horror!  E se eu me perder? O que vou fazer?

Foi uma sequencia de desculpas que terminaram com um: – Acho que vou fazer croche, adoro! Vou ficar em casa hoje pois tá um frio lá fora… fico na paz do lar!

Sim, é muito interessante o quanto nos desculpamos, o  quanto repetimos a vida, sempre da mesma forma e relutamos tenazmente em quebrar a nossa segurança mas amamos mantê-la, mesmo que isso signifique nossa estagnação. Dar um passo definitivo em nossas vidas em direção à liberdade requer coragem. Vencer o medo do desconhecido é uma dura tarefa. Todos somos assim. Recentemente percebi em mim mesmo o quanto é dificil mudar os padrões que acreditamos ser nossos. É uma luta diaria e para vencer requer um profundo auto conhecimento. Essas conversas com minha amiga me fizeram ver o quanto eu também vivo e mantenho certo comportamento, justamente para manter meus padrões, por mais estagnação e estrago que eles me causem.

Faça uma reflexão e veja, em sua própria vida, que tipo de desculpas voce dá todos o dias apenas para manter a segurança de viver uma vida de repetições.

O ataque real do meu antagonista!

01 Outsiders_Poverty-26-1 Hoje foi um lindo sábado de sol, e por conta de ser um feliz proprietário de um veiculo importado, sofro com os problemas que esses tipos de carros sempre apresentam quando começam a ficar velhinhos. O coitado vai passar 15 dias na UTI mecânica e sem plano de saúde. Coitado de mim, a conta será astronômica. Esse fato me obrigou a sair cedo de casa com toda a família. Um evento simples mas planejado a semana toda. O meu carro velho, já foi citado aqui na minhas memórias foi o protagonista. Ele é fruto do crescimento da família. Ele veio junto com meu segundo filho. O fato é que o carro é fruto de minhas escolhas. A vantagem de se ter um veículo grande e confortável é poder andar num mundo hermético e aparentemente seguro. Liga-se o som, fecha-se o vidro, liga-se o ar condicionado, fecha-se as portas automaticamente ao se atingir 20km por hora. Todos dentro do carro. Contamos piadas, rimos, fazemos parlendas, o que é o que é, cantamos e seguimos em frente. A cada cruzamento o medo e a atenção. Sentimos apenas alguns buracos ou lombadas. Nada a reclamar. Afinal, oras bolas, é um lindo sábado de sol.

Na volta, depois de largarmos o nosso velho amigo francês na oficina, seguimos alegres e confiantes para a estação de metro mais próxima. De cara uma ladeira íngreme a enfrentar. Onde ela estava antes? Nem percebemos essa ladeira de dentro do nosso carro quando chegamos. Pensei em voltar e pedir para o simpático dono da oficina me dar uma carona. Depois de confabularmos, decidimos todos juntos a subir a ladeira. Meu filho mais novo, cantava alegremente, já com as bochechas rosadas do esforço da subida.  Depois de uns minutos chegamos ao alto daquela ladeira. Ufa! Como seria bom estar dentro do meu velho carro francês, pensei.

Andando pelas ruas da zona norte, percebi o quanto é difícil vencer as calçadas estreitas, o vai e vem dos ônibus velozes e dos carros com seu equipamentos de som fantásticos tocando musicas que não reconheço. – Como eles conseguem aguentar o som nesse volume? falei. – Super Bass Papai! Comentou meu filho mais velho. Rimos como nunca. Eu, ria, mas algo me incomodava na cena.

Após vencermos, com dificuldade, a primeira etapa em direção a estação do metro, percebi que algo estava me trazendo lembranças. “Casal, quatro filhos, andando apressadamente para pegar o ônibus em direção a periferia”.      – Que saco, pensei. Exatamente como meu pai fazia.

Os pequenos não reclamavam. Não se cansaram. O mais novo segurava a minha mão enquanto o mais velho ia na frente com a mãe que, mais incomodada que eu, andava rapidamente para se livrar daquele sol e movimento das ruas. Em dúvida de qual caminho seguir, parei em frente a um bar ordinário, sabe aqueles botecos que tem apenas um balcão e prateleiras com garrafas de pinga e ovos coloridos em exposição? Sim, esse mesmo. – Moço, onde é o metro? perguntei prum rapaz de muletas e olhos azuis e bem avermelhados. Ele me olhou e meio zonzo tentou responder, e logo o amigo dele o salvou respondendo e mostrando o caminho e me despachando rapidamente.

Nessa, meu filho mais velho, de mãos dadas com a mãe, já estava indo na direção indicada pelo homem. – Por que deixei o outro carro na garagem, pensei comigo mesmo.

Finalmente um oásis bem na nossa frente. Um shopping center. Ar fresco, escadas rolantes, compras, comida, sorvete e o caminho de volta pra casa. Andamos um pouco. Compramos camisetas para os garotos e seguimos para o metro. Os meninos excitados por causa do barulho, da luzes, as conversas daquelas pessoas diferentes. O nariz grudado na janelinha do trem. As perguntas deles sobre: pra onde vamos? ou, já chegou papai? e agora?, já chegou? Mesmo estando bem longe de casa.

No meio do caminho escolhemos mudar de trajeto e ir até a interligação com o trem de subúrbio, seria uma oportunidade nova para os meninos, andar de trem, ver a realidade. No fundo estava apreensivo. O que ou quem encontraríamos na estação de trem do subúrbio?

Seguimos para a plataforma. Eu amo trens, mesmo os de subúrbio tem um apelo saudosista em minhas memórias, lembro da linha Santos-Jundiai, que não existe mais e da Estação da Luz. Logo o trem veio, mais depressa que eu esperava. Andamos até um ponto da plataforma e esperamos o trem parar. Pessoas descem, pessoas embarcam. Nós entramos no trem e os meninos correram para os bancos vazios. Estava me tranquilizando quando vejo em minha frente aquela senhora que certa vez me pedira uma moeda. Ainda mancando, fingindo estar doente e pedindo um passe de trem ou metro, ou um real ou 10 centavos. Não importa, o que vale é seguir pedindo. Ela não me viu. Confesso que fiquei torcendo para ela não me pedir nada. Não saberia qual seria a reação dela e seria a mesma da última vez. Afinal desejei que ela continuasse nessa vida de pedinte pra sempre. O trem parou. Descemos todos, inclusive a velha pedinte. Ela correu para outro vagão, esperta e faceira. Nós seguimos para a saída. Eu distraidamente, segurando ainda a mão do pequeno, passamos as catracas e finalmente podíamos ver nossa casa ao longe. Uma ilha de tranquilidade.

De repente, todos sumiram. Ficamos apenas eu e minha família andando por um corredor sinistro. Eu, um pouco atrás com o pequeno e o mais velho, um pouco a frente com a mãe. Eu, ainda pensando na velha pedinte vi uma outra senhora sozinha logo à frente sentada envolta em panos sujos e velhos. Era uma velha senhora desdentada e amarrotada. Os cabelos emaranhados e a pele sofrida. Imprudentemente falei como que avisando o pelotão da frente: Cuidado, aqui tem “noia”. Foi um misto de aviso e medo. A senhora, mesmo distante, me ouviu e então ela fixou os olhos claros em mim e veio em minha direção transtornada de ódio dizendo as seguintes palavras:

– Do que é que você tem medo heim? Seu medroso de merda. Saiba que seus filhos podem ser “noias” um dia. Olhe para eles, o que você tem ensinado a eles?

Quis correr, mas meu filho pequeno, alheio ao que ela dizia me segurava com seus passinhos lentos. Mais uma vez ela me atacou:

– Você não saberia nem mendigar, quem você pensa que é seu bosta, você não é nada ainda, sabia?

Senti minha cabeça quase explodir diante daquelas palavras. Quanta ofensa vinda de uma sem teto, suja e com piolhos. Fiquei perdido por alguns segundos que pareciam uma eternidade.

Nesse meio tempo, alcançamos meu filho mais velho e a mãe que estavam um pouco à frente. Já tínhamos atravessado a rua, deixando para trás a velha senhora e já percorríamos a avenida movimentada que me levaria para a minha ilha de segurança e da minha família. Mesmo assim, ainda olhei para trás para tentar vê-la e ela havia sumido. Ainda transtornado por aquelas palavras, pensei: – Nossa, encontrei meu antagonista. Ele foi impiedoso.

Quando entrei em casa, corri para o quarto. Estava exausto. Então, me deitei para entender o que havia acontecido, tentei entender as duras palavras. Fiquei algumas horas refletindo. Sim, mais uma revelação. Eu deveria era agradecer às velhas senhoras. Elas me mostraram o quanto ainda tenho que lutar contra tanta coisa. Mostraram que a luta fica cada vez mais dura quanto mais eu me preparar para ela. Havia me esquecido de que o mundo, os outros, é a expressão mais honesta e sincera daquilo que realmente somos. O mundo é assim porque eu sou assim.

Quantas vezes me perguntei de onde vinha aquela voz que, diariamente, tentava me persuadir a não seguir com meu sonho. No fundo dizia, “com essa economia instável, não vai dar certo, espere mais um pouco, você tem que se sentir mais seguro, espere um pouco mais, isso da um medo, certo?” As velhas senhoras pedintes são a personificação desses pensamentos.

Por intermédio da disciplina de me conhecer, de correr aos fins de semana, de lutar contra minhas resistências, combatendo meus hábitos, percebi que começava aflorar a parte mais desconhecida, mais obscura do meu ser. Sim, as velhas senhoras, os miseraveis e as vitimas existem e sempre existirão para nos ajudar a achar e manter nossos sonhos, ajudar a nos encontrarmos, a vencermos e finalmente a atingirmos a integralidade do ser.

Um repentino despertar…

acordeiLevei muito tempo para perceber algo básico no comportamento humano. Descobri que o maior inimigo do ser humano é ele mesmo. Depois do processo, por algum tempo, fiquei em um estado alterado, liberto de determinados padrões e negatividades e  que intensamente nortearam minha vida e minhas escolhas. Lentamente a vida voltou ao normal. Com uma diferença: Eu sabia o que fazer diante de determinadas situações que eu, no passado, não saberia como lidar.

Por um período curto, vivenciei um sentimento de liberdade, livre da poluição psicológica que rodeiam a mente dos homens. Um tempo depois comecei a refletir sobre o que realmente havia deixado para trás. Tinha eu realmente largado tudo que não me servia? Abandonado definitivamente meus pertences?  Quão diferente tinha sido minha atitude ao me deslocar em direção ao novo!

Percebi que os homens são guiados pelo medo. Vivemos uma vida em conformidade com a multidão, Anos e anos de dependência… sem encontrar coragem para respeitar seu sonho, sua integralidade.

Desde a minha volta,  sabia que visão e realidade eram a mesma coisa. E a realidade ainda me mostrava algumas coisas que não queria rever. As recriminações, reclamações, acusações, os eventos, as pessoas antagonistas, as circunstâncias pairavam. Definitivamente eu não admitiria uma mudança apenas aparente. Isso seria meu fracasso e a premeditação da derrota.

Me lembrei do que meu antagonista havia me dito uma noite:

– Você é o exemplo mais evidente de quanto é impossível ao ser humano abandonar as prisões da mediocridade e levantar as armas contra os próprios limites. A amargura que você esta vivendo e sua fidelidade ao sofrimento são a prova disso. Pode parecer que sua vida esteja árida, reduzida, como se a raízes estivessem doentes, mas a verdade é que você jamais sonhou com algo diferente desta pobreza, desta dor, desta prisão.

Saber disso tudo me daria uma vantagem enorme nos novos passos que eu iria empreender na minha vida. Mesmo que arrumasse um novo emprego, sabia que não queria me transformar novamente num ciclope mal humorado e fisicamente fora de forma. Naquele ser amorfo e sem graça de anteriormente. Agora seria mais que um observador das circunstâncias, seria o dono dos meus sonhos. Havia despertado repentinamente para a realidade que eu queria desesperadamente tornar palpável.

Observar o mundo ao meu redor e perceber o quanto eu observo a mim mesmo fazendo isso é ótimo. A felicidade em saber que com a vontade real eu posso mudar qualquer circunstância da vida é simplesmente libertador.