A difícil arte de envelhecer com dignidade.

geeting oldAs mãos não mentem a idade que tem. Percebi isso vendo uma pequena mancha crescer sorrateiramente em minhas mãos sobre uma veia saltada. Ainda imperceptível para muitos, ela dorme e acorda comigo, me avisando que o relógio biológico está a todo vapor. Vejo meus filhos crescerem rapidamente. O mais velho já saiu da primeira infância e experimenta os primeiros e difíceis passos de sua vida mais consciente. Logo, estará na puberdade. Diante de suas dificuldades iniciais com seus limites naturais, ele já percebeu que a finitude da vida é mais real do que ele pensava. Certo dia ele me perguntou sobre a morte. Ele foi direto:

– Papai, quanto tempo você vai viver? 100 anos? – perguntou ele com um sorriso maroto.

– Espero que sim, filho. –  respondi a ele e, em tom de brincadeira, eu disse:

– Um dia filho, eu troquei sua fralda, espero chegar aos 100 anos usando cuecas ainda. Talvez você me carregue no colo como eu te carrego hoje. Espero que não precise trocar minhas fraldas. Com certeza será divertido pra mim, mas nem tanto para você.

Descobri recentemente que tenho algo nas articulações. Algo que me faz perder células sadias constantemente, uma hoje, outra amanhã, e isso causa algumas dores indesejáveis nos dedos, nos quadris, nos joelhos. Nada que atrapalhe tocar piano ou digitar esse texto.

O que mais me incomoda na verdade é ver que meus heróis estão partindo, gente mais jovem que eu ou da minha idade, estão partindo naturalmente. Incomoda-me o fato de estar navegando pelo meu rio, que antes eram de águas tranquilas, mas agora percebo que a correnteza esta acelerando, esta cada vez mais rápida. Consigo ver a paisagem em volta, mas preciso de óculos para aproveitar melhor a vista. O corte no dedo cicatriza bem, mas não tão rápido quanto eu gostaria.

Faz alguns meses, eu resolvi intensificar meus treinos de corrida. Sabe como é, aumentar a longevidade. Tudo ia bem, até o momento crucial lá no parque, quando estava fazendo um treino intenso. Sim, senti uma dor esquisita nos quadris. “- Nada de mais”, pensei.  Só que isso não se cura da mesma forma tão fácil que antes.

Eu sou o Nexus do Blade Runner: “- Time” – ele disse isso enfiando um prego na mão que insistia em se manter fechada por conta do envelhecimento rápido. Por isso, ele matou seu criador, mas deu a chance da vida ao Deckard salvando-o da queda no vazio. Afinal, o Nexus amava a vida mais que tudo.

Tudo isso assusta um pouco. Em um país onde envelhecer pode ser muito perigoso, fico pensando como enfrentar a ação inexorável do tempo. Tem gente, que por razões que não cabe a nós julgar, tenta resolver a casca. Entrega-se de corpo e alma ao Dr. Rey. Tudo bem, dá pra entender. Só que para mim não funcionaria. Eu até que engano bem. Tenho muito cabelo preto e poucos fios brancos na cabeça. Sorte genética.

Com mais de meio século de vida, descobri que a mente se mantém jovem. Eu me sinto com a mente de sempre, salvo alguns lapsos de lógica matemática ou palavras que sumiram das lembranças. Mas sabe o que é pior? É que eu ainda mantenho meus velhos vícios vivos, velhos medos. Amadurecer é entender que não é necessário correr tanto e sim rir mais de si mesmo, parece fácil, mas nem tanto diante de um mundo tão complexo em que vivemos.

Depois de mais de meio século, desacreditei em ETs e em outras bobagens, por sorte minha, e o pior, descobri que acho difícil demais falar e realmente fazer o que eu mesmo digo. É como dizia um velho amigo meu alemão:

“- It´s hard walk to talk Caesar.”

Foi ai que comecei a não ligar mais para o teatro da vida. Agora sei que representamos por medo de tanta coisa, principalmente por medo de não pertencer a algo. Mas não pertencemos mesmo, a não ser a nós mesmos. Depois de mais de meio século, descobri que às vezes precisamos manter algumas de nossas loucuras pessoais para tentar seguir em frente. A eternidade ficou na adolescência. Agora tenho a realidade dura e cruel pela frente.

Felizmente, não mudei tanto o quanto eu pensava. Sou o mesmo no âmago do meu ser. E isso é realmente bom. Ainda tenho meus velhos sonhos e valores aqui comigo. Ainda cometo tantos erros. Sou ainda um menino que quer tanto ser feliz. A dignidade de ser quem realmente somos de verdade é que devemos lutar para manter. Manter a nossa identidade e sanidade é mister, manter aquilo que realmente te faz feliz por dentro é tudo, mesmo que não tenhamos de fato vivido o que sonhamos.

Minhas escolhas me trouxeram até aqui com uma certa dignidade. Espero, que as escolhas que eu fizer a partir de agora, me ajudem a me manter perto do meu sonho, perto de quem amo, perto da minha família. Espero poder, um dia, olhar para trás e ver o meu rio da vida, longo e calmo, refletindo a luz do sol e mostrando que cada sinal, ruga no meu rosto, cabelo branco, dor, valeram pela luta e fez de cada segundo vivido a grande aventura real e maravilhosa que todos nós sonhamos viver neste mundo.

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s