Flores…

Flores

– Posso te pedir uma coisa? Perguntou minha mulher com um leve sorriso no rosto. – Sim, respondi como que esperando uma ordem ou pequena tarefa para aquele momento. – Por favor, nunca me mande flores, apesar de serem lindas. Fiquei, ali parado, olhando para ela sem saber o que dizer.  Neste pequeno espaço de tempo, entre o estimulo e a resposta, pensei em o porquê deste estranho pedido. Me lembrei das flores que fotografei, das flores que alegraram meu verão Europeu nos parapeitos das janelas das casas em Erlangen, das flores que a entreguei na volta do processo Hoffman dela.

– Me explique melhor, pedi gentilmente.

– É que as flores não merecem isso.  Não merecem desaparecer tão cedo. Sair de cena apenas para satisfazer alguém, ela disse num tom mais sério.

Sem entender direito, comecei a procurar o real motivo por trás deste estranho pedido. Tenho certeza que ela ama as flores tanto como eu, pensei.

– Tenho dó delas. Ela me disse isso rapidamente. – Outra coisa, não coloque flores sobre meu corpo quando eu partir.

Nossa! Imediatamente parei de pensar nas flores do campo tão lindas na natureza para me lembrar das flores horrivelmente arranjadas para os velórios.

Desde sempre, essas flores específicas e seus cheiros me provocaram dores de cabeça fortíssimas. Não sei se motivado pelo terror que o próprio evento provoca, ou se o cheiro das flores misturado com o das velas, é que alteram o bom funcionamento do meu fígado.

Sim, ela tem razão. Coitadas das flores que servem a esse propósito. Na verdade, tudo que envolve os velórios é muito feio. Me lembro de quando tive minha primeira triste experiência com isso. Eu era uma menino de uns 6 anos de idade. Naquela época os mortos eram velados em casa. Todo o bairro ia até a casa do falecido. E lá fui eu, empurrado pela minha mãe. De longe vi a porta de entrada da casa aberta, as cadeiras encostadas na parede e no centro da sala a urna funerária. Era meu avô. Lá estava ele. Um senhor já de idade que eu mal conhecia. O que mais me impressionou foram os suportes metálicos das velas, da urna. Horrendos. Depois, foi a tule que cobria as flores e o morto e que revirou meu estomago. Lembro de minha avó espantando uma mosca que pousou sobre a tule que cobria as flores e que até hoje povoa meus pesadelos. Isso impressiona de verdade uma criança de 6 anos. Tanto que até hoje, quando vejo esse tipo de tecido, mesmo em enfeites de casamento, fico com um sentimento bem negativo.

Outra coisa detestável são as frases que são escritas nas coroas de flores. Feias.

Uma flor singela, na natureza tem uma beleza indescritível. Já as coitadas das flores, arranjadas naquela coroa, são de um tremendo mau gosto. Sem contar com a falta de jeito para carregar as coroas que ficam suspensas por um tripé de madeira. Quem compra isso?

Se fosse eu o morto, entraria em pânico. Pularia de um prédio. Mas como, se já estou morto?

Claro, não se pode rir num velório. Falta de compostura. Música? Nem pensar.

Tudo que envolve esse evento é horrível, de mau gosto. Feio. Péssimo.

Acho que essa estética do mau gosto deva ter algum propósito. Talvez faça com que, vendo essas coisas péssimas, esqueçamos, por algum instante a dor da nossa perda. As coisas feias que vemos nos velórios espantam a dor da saudade pela indignação da feiura. Será?

Há algum tempo comecei a pensar nesse tipo de situação. Penso que eu não deveria ofender meus visitantes no meu velório. Por outro lado, não gostaria de ser ofendido sendo colocado numa caixa em uma sala esteticamente mau decorada, pesada e amedrontadora, de mau gosto.

Por que isso não ser uma coisa bela?

Penso em preparar isso como um bom evento. Com coisas de bom gosto. Músicas adequadas: Réquiem de Mozart para a emoção da missa, Chopin para celebrar o amor, Debussy para lembrar da leveza que deveríamos levar a vida e Rock clássico para finalizar a cerimonia. Rock, meu bom e velho companheiro, não pode faltar nesse rito de passagem (pois não sei bem para onde vou mesmo, mas desconfio). Juntamente as minhas melhores fotos que lembrem todos da boa vida que eu vivi. Servir boa comida e bebida. Sim, me lembro que beberam o Quincas. Seus amigos foram beber o morto. Linda homenagem. Nada mal servir um bom vinho aos visitantes. Água para os mais nervosos e sensíveis. Depois de relaxados, mais vinho e, com certeza, irá aparecer uma cervejinha (pão líquido).

Minhas músicas já estão sendo escolhidas, as fotos preferidas também. Tudo aquilo mais que eu escolher. Estou preparando aos poucos. Falta ainda muitas coisas, muitas mesmo, por isso cuido de mim com zelo para que de tempo de eu preparar tudo conforme minha vontade. Isso pode levar muitos anos ainda. Claro, as fotos da minha boa vida e das viagens pelo mundo que ainda vou fazer, tem que estar atualizadas e adoraria colocar algumas com meus netos.

O que vão dizer de mim? (Já escrevi sobre isso) Com certeza algo de bom, espero, talvez uma poesia do meu amigo e poeta Fabio Kerouac ao som de blues com o violino esperto do grande amigo e violinista J.R. Cantinelli. Espero que os mais próximos digam coisas que emocionem e alegrem e confortem. Por isso, espero que sirvam o vinho na entrada, isso desinibirá um pouco os que discursarão.

Ai, após tudo isso, espero que metam fogo no que restou de mim (no local adequado claro – crematório). Isso purifica. Acelera o processo e não ocupa espaço nesta terra.

Uma semana depois, espalhem as cinzas ao vento, (pode ser às margens do Rio Sena). Delicadamente. Ou, se a grana faltar, as coloquem ao pé de uma árvore na floresta, ou no mar que tanto amo. Vou escolher alguma poesia para este momento tão especial.

Nesse ponto, eu e minha esposa temos a ideia em comum (além do Rio Sena). Esse desejo de manter o planeta rapidamente o mais limpo possível de nossas pegadas.

Agora, como ela, nem penso em flores como eterno cobertor ou a famigerada coroa de flores já mortas com as frases amedrontadoras, tadinhas das flores. Em troca peço que plantem um jardim de flores de leve perfume, plantem árvores que deem seus frutos para os pássaros, criem uma hortinha em casa ou no apartamento para divertir seus filhos. Justa homenagem.

E para minha esposa, se ela for antes de mim, como ato de amor, plantarei uma árvore para que os nossos netos possam, um dia, se sentar sob sua sombra e ler poesias e ouvir música e reviver a vida contando e ouvindo as histórias da vida maravilhosa que estamos vivendo…

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