Notoriedade a qualquer custo!

cinegrafista

Eu amo fotografia. Faz alguns anos, comprei uma máquina fotográfica melhorzinha com uma boa lente e recursos diversos. Normalmente, a uso para registrar o crescimento dos meus filhos, festinhas, encontro de família, viagens e eventualmente para fotografar coisas inusitadas tipo: o estranho comportamento humano. Não sou profissional, mas nos meus sonhos mais secretos adoraria ter o talento de um S. Salgado ou JR Duran. Esse talento dá a eles muito trabalho, mas, tenho certeza, que os dois se divertem muito com o que fazem.

Tenho também muitos amigos e conhecidos que amam fotografar coisas, lugares e pessoas. Um velho conhecido de infância, o Edezio Ribeiro, para minha surpresa, se tornou profissional e se diverte muito atrás de uma câmera de vídeo. Fiquei impressionado com a facilidade que ele tem em lidar com esse tipo de tecnologia. Ele registrou o último encontro da nossa turma da escola primaria de forma muito criativa e engraçada.

Eu adoraria sair pela cidade de São Paulo fotografando tudo. Eu penso que nossa cidade oferece milhões de temas, desde arquitetura até manifestações populares. Mas tenho medo. Por isso, deixei um projeto interessante na gaveta. A ideia é a de registrar os altos e baixos da cidade de São Paulo. Engavetei justamente pela falta de segurança. Tenho profundo respeito aos fotógrafos e cinegrafistas que não medem esforços em registrar as melhores cenas, os melhores ângulos.  Respeito àqueles que enfrentam desafios e não medem esforços para registrar a verdade para ser exibida no jornal da noite.

Eu, fotografo amador, tenho medo de sair pela cidade para registrar o cotidiano. É por essa violência gratuita que nos ronda. Tenho medo de ser roubado. Tenho medo que levem embora parte da minha essência. Tenho medo que levem minha alma. É como diz o fotografo escocês “amigo meu” John G. Moore: “Quando estou atrás de uma câmera, sou eu mesmo, fico zen”. Concordo com ele e acho que sem ela eu ficaria muito chateado.

Hoje, indo para o trabalho, dentro do trem de subúrbio, como todos os dias, sintonizando minha rádio de notícias preferida, ouvi uma noticia que me entristeceu profundamente. Um cinegrafista profissional, experiente e que amava seu oficio, era respeitado, e possivelmente ficava zen atrás de sua câmera, teve sua essência roubada enquanto ele registrava a verdade da vida. Pelas costas ele foi atingido por um artefato pirotécnico. Foi disparado a esmo. Não tinha um alvo definido.  O artefato foi disparado por um manifestante que, em meio a protestos contra aumento do valor das passagens do transporte publico no Rio fez o pior. Sorrateiramente ele acendeu o pavio. Como um foguete, o dispositivo viajou rápido e rasteiro pelo chão e incrivelmente iniciou seu voo no ângulo e posição exatos em direção à nuca daquele cinegrafista.  Ele estava ali firme, em pé, segurando sua câmera, seu meio de vida, seu lado zen. Em um milésimo de segundo a explosão e a Luz que iluminava seus registros se apagou. Caído, seus colegas correram para socorrê-lo.

Mais tarde, vi o depoimento de um fotografo que registrou brilhantemente toda a sequencia descrita acima. Ele, com medo, não quis se identificar, com razão. Ele fotografou o manifestante que acendeu o pavio que saiu correndo deixando a cena do crime para trás. Deixando para trás sua “arte”. Possivelmente ele nem sabe o estrago que fez.

Neste instante, comecei a refletir sobre isso tudo. Pensei em Bonnie e Clyde. O casal criminoso que viveu nos EUA no inicio do século XX durante a depressão. Ela, linda, queria notoriedade, queria ser famosa, atriz de cinema, bailarina. Queria ser reconhecida. Ele, de boa família, era pobre. Eles se conheceram e se apaixonaram. Ele fez pequenos assaltos. Sabe o lance da adrenalina? Sim , por isso ele roubou carros e algum dinheiro. Foi preso, sofreu, perdeu os dedos do pé esquerdo e as pregas quando foi currado por um grandão da prisão. Ela, uma vez, saudosa do amante, o libertou da prisão com uma arma sem munição. Ela queria aparecer, ser famosa e ter notoriedade a qualquer custo. Então, um dia, Clyde comprou uma máquina fotográfica que tinha a impressionante capacidade de tirar até oito fotos. Então eles se fotografaram. Divertiram-se e assim mandavam tudo para o jornal. Começaram a assaltar bancos e registrar tudo. Ela, excitada com a aventura, guardava os recortes do jornal com eles na manchete principal em uma velha caixa. Metralhavam a policia, mas nunca haviam matado ninguém. Iam ao cinema, viam as noticias da depressão e de outros criminosos, mas nunca falavam deles. Um dia, no natal, foram roubar um carro. O dono, que estava comemorando o natal com a família, viu seu carro sendo roubado e correu para evitar. Bonnie, sem pestanejar, atirou no pobre homem que caiu morto na calçada na frente da família. Perguntaram para ela por que ela tinha atirado e ela disse: “- Pensei que ele estivesse armado”. Ela conseguiu o que queria. Notoriedade ao custo da vida de um pai de família no natal. Os jornais falavam de Bonnie e Clayde, o cinema mostrava as fotos de Bonnie e Clyde. Eles ficavam cada vez mais violentos e mortais. Eles estavam num caminho sem volta. O final desta história todos conhecem. Foram totalmente destruídos pela policia numa emboscada depois de uma longa caçada por vários estados americanos.

Os manifestantes mascarados, sem querer, estão conseguindo notoriedade atingindo justamente quem não deveriam. Eles estão colocando em risco justamente quem eles pensam que defendem: a democracia, se é que pensam que a defendem. Na verdade, já estão sendo currados pelo grandão da prisão faz tempo, já perderam os dedos dos pés, só que ainda não sentiram. Por sorte, os fotógrafos e cinegrafistas de hoje tem super-equipamentos. Procuram mostrar a verdade. Pena que, eventualmente, ela pode ser manipulada também por super-programas de computador.

Acredito que ainda temos tempo de evitar que entremos no caminho sem volta que Bonnie e Clyde entraram. Espero e peço a Deus que esses manifestantes não caiam na tentação de matar “o pai de família no dia de natal”.

Pensei em Deus, por que Ele não fez o foguete falhar? Seu eu fosse um Super Herói. Se eu pudesse empurrá-lo no exato momento e tirá-lo do caminho do cinegrafista. Se eu pudesse segurar o foguete. Iria livrá-lo. Um segundo apenas. Não dá, isso é sonho. É irreal.

Espero que eles não tenham aberto a caixa de Pandora.

Espero que as pessoas de bem, que são verdadeiramente “ser antes de ter”, inteligentes e influentes deste país não deixem que uma emboscada cheia de falsas promessas destrua com o nosso sonho de uma sociedade mais justa, livre, alegre e cheia de vida que é nossa.

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

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Um comentário sobre “Notoriedade a qualquer custo!

  1. Roberta fevereiro 18, 2014 / 12:05 am

    Provavelmente este país esta caminhando para o progresso… E talvez este seja apenas uma etapa deste processo.mas o medo, a insegurança, me fazem ter dúvidas e na dúvida eu me sinto presa nesta selva violenta,onde matar um pai de familia no dia de natal, se tornou
    apenas mais uma notícia.

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