Uma brutal sabedoria.

o-que-somos-fantoches-ou-marioRecentemente fui apresentado ao Sr Nietzsche. Eu já tinha ouvido falar neste senhor e confesso que o julguei pelas aparências. Fofoqueiros me disseram que era um homem herege que havia ousado acabar com Deus decretando sua morte. Só por isso, meu lado teísta me indignou. Durante toda minha vida acreditei em teorias fantásticas e opiniões alheias e usei filtros pessoais para validar essas coisas. Foi esse o meu caso sobre as coisas que me disseram sobre o senhor Nietzsche. Eram fragmentos de uma frase aqui e outra acolá. Depois que fomos devidamente apresentados, observei atentamente seus pensamentos. A primeira coisa que ele disse sem cerimônias foi: “Em nome do céu, nega-se a terra. Em nome do valores absolutos e superiores, nega-se os corpos e seus tesões”.

Uma das coisas que mais me impressionou foi o fato dele pensar de uma forma realista. Pensar o aqui e o agora. “Quem pensa fora, nega o mundo das sensações, das energias vitais.” Fascinante.

“Amigo”, disse ele, “fuja dos modelos mentais que escraviza a vida. Os homens inventaram o ideal para negar o real.”

Para ele, o paraíso, o mundo sem classes são apenas muletas para tornar a vida mais agradável. Deuses, um grande mal para o homem, sem essas muletas o homem viveria melhor. ” Nessa hora o super-homem viveria a vida na vida, sem artifícios, simplesmente amando o mundo tal qual ele é.”

Nessa hora pensei: “Essa premissa de amar o mundo tal qual ele é, me parece perigosa. Ele pensa o presente. Passado nada mais é fragmentos de ilusões sobre algo que se foi, futuro não serve pra muita coisa apenas para se ter esperança. Esperança é ignorante, impotente e casta.”

“Uma chatice” bradou ele.

E emendou: “Meu amigo, por favor, lamente-se um pouco menos, espere um pouco menos e ame um pouco mais. Faça uma reconciliação com o mundo.”

Como assim? Amor por quem encontrei, pelo que sou e pelo que tenho?

“É meu caro, Não se esqueça que os instantes que você vive aqui e agora e as pessoas que você convive aqui e agora são os mais importantes da tua vida por que são os únicos reais. Não espere do mundo mais do que ele pode te dar”

Minha cabeça explodiu iluminada. A fórmula para expressar o que há de grande no homem é o amor de fato. Não querer nada além do que é nem do futuro em si e nem do passado em si. Não se trata, então, de tolerar ou suportar as coisas do jeito que são, mas amar. A única forma de estar no amor real, é afastar-se do idealismo tolo. É como acreditar que existe a verdade absoluta. Ela é um ideal como qualquer outro e impossível de se traduzir em palavras. E isso assusta.

E o homem desembestou a falar:

“É como você ser convidado a amar o mundo como ele é. Mas para isso você tem que se despir de todo tipo de idealidade que você, ao longo da vida se dispôs a construir. E isso não é fácil. Não seja vitima das suas ilusões. Você é ESCRAVO da ilusão de que a vida boa pressupõe morar em Nova Iorque ou ter o corpo da Gisele, ou ter um carrão ou ser famoso ou que te achem inteligente e esperto. Não! Tudo isso é um impeditivo do amor pelo mundo como ele é. Se você queria ter um filho super inteligente e  ele não é tudo isso, você está se impedindo de amá-lo pois você é escravo de um ideal.”

Pare, pare, pare, senhor, eu pensei. Imediatamente me veio a pergunta:

Qual a chance do mundo ser exatamente como eu idealizo?

“Ora, nenhuma!” vociferou ele “porque não seria ideal, seria apenas o mundo. Então, se você espera que o mundo real vire o ideal para poder amar, não amará nunca absolutamente nada.”

Então, concluo que preciso imediatamente fazer uma triagem dos “agoras” que merecem ser vividos eternamente. Devo escolher o que amo neste instante, já! Escolho o que eu faria infinitas vezes feliz da vida. Vou viver de tal maneira que devo desejar reviver sempre. Meu desejo é repetir infinitamente o que amo. Aquele cujo o esforço ou o descanso é a alegria suprema. Não avaliarei a vida fora da vida, cada segundo deve valer nele. Ah! quando eu encontrar não recuarei ante nenhum pretexto.

“Mas e o mundo? Ele não entenderia”. Pensei apavorado.  “Se você quiser viver de acordo com seus mais profundos desejos, você terá problemas.”

Em uma empresa se você disser “Eu tenho como critério existencial a seguinte pergunta: se eu quero repetir infinitas vezes esta tarefa. Portanto, o meu querer é o que conta na hora de decidir como eu vou viver” Meu amigo, você não consegue nem terminar essa explicação. Você será desligado, descontinuado, apagado, tornado inexistente. Porque? Oras, em uma empresa o engajamento, o comprometimento é que será premiado. E isso nada mais é do que a submissão da própria vida ao desejo do outro. Foda-se o que você deseja.

E agora? É a eternidade que está em jogo.

“A eternidade é o presente que não vira passado” Ele disse: “Se você não viver segundo o que você deseja e ama, é porque você permitiu que a sua vida fosse submetida a um processo de escolha dos instantes a partir dos desejos que não são teus, portanto a sua vida foi regida de fora para dentro. E uma vida assim é totalmente INDEVIDA. A vida deve ser regida pelo que o vivente deseja e só assim a vida será legitima. Viver você vai viver de qualquer jeito, mas você pode escolher viver de vários jeitos. A fugacidade da vida significa entregá-las as forças das ilusões. A intensidade da vida  significa decidi-la a partir das forças vitais de sua alma.”

Lembrei das marionetes enfim: “A ação que move o boneco da marionete paira sobre a marionete sem que você possa ver o cordão de nylon que liga a ponta, o eixo da força propulsora. Então você acredita que a marionete se move por si só, mas na verdade ela se deixa mover por forças que transcendem a ela, portanto a marionete é um exemplo clássico de uma vida fugaz. Você acredita ser o senhor da própria vida porque não enxerga o fio de nylon que te ESCRAVIZA. A vida intensa é a vida onde se rompem os cordões da marionete e o boneco não desmorona, porque neste instante passa a se mover por suas próprias forças, e as forças que movem o boneco agora são as forças de seus desejos.

Mas não concordo com ele em apenas um ponto fundamental: “Meu amigo, por favor, lamente-se um pouco menos, espere um pouco menos e ame um pouco mais. Faça uma reconciliação com o DEUS.” Ahhh Isso sim é liberdade!

Texto extraído do curso de Ética do Prof. Clóvis de Barros Filho.

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