Uma carta a um amigo alemão.

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Caro amigo,

Vou começar respondendo sua carta com a pergunta mais importante que você me fez: Qual meu sonho profissional hoje? Realmente não é uma pergunta fácil de responder. Durante muito tempo sonhei com muitas coisas. Na verdade eram sonhos até simples de serem realizados, tanto que os realizei. Na medida que fui amadurecendo, percebi que havia um descolamento entre a minha vida prática, meus sonhos e a realidade das coisas. Essas duvidas me fizeram buscar meu eu verdadeiro, quem realmente eu era e o que estava fazendo da minha vida. Nesse momento comecei a estudar profundamente muitos temas que eu havia colocado de lado pela minha própria formação acadêmica e profissional. Descobri então que era necessário muito mais do que eu possuía para dar os passos necessários em direção ao auto conhecimento e liderança. Os meus estudos me levaram a entender muitas coisas necessárias para meu desenvolvimento pessoal e profissional.

Escrevi um pequeno livro com bons textos, me tornei um fotografo elogiado pelos mais próximos, voltei a tocar Bach e Chopin ao piano. Fiz um curso de Ciências Políticas e Ética na USP e estou estudando Liderança, gestão de pessoas e do conhecimento para inovação também na USP. Estou em um curso de História da Filosofia . E, por fim, estudo pedagogia com a minha esposa em uma plataforma ON-LINE também.

Você se lembra que eu trabalhei em uma empresa do setor automotivo por quase 2 anos? Então, eu descobri como opera uma empresa que funciona às custas das benesses do governo, onde qualquer mudança no sentido de meritocracia ou eficiência é visto como heresia e causa um medo generalizado nos profissionais ali instalados. Fiquei um pouco frustrado. Foi ai que resolvi empreender. Me senti preparado para enfrentar as dificuldades de ser empresário no Brasil. O Brasil é um pais complexo e belo. Mas nossa sociedade é ainda imatura e cheia de “vitimismos e coitadismos”. Você se lembra quando o Sr Lula era presidente? Pois é, vivemos uma época boa, nossos negócios iam bem e prosperavam. Mas tudo foi uma falácia, um engodo. Tudo foi baseado em uma ideologia de esquerda “marxista” e na manutenção e perpetuação de poder que eu jamais poderia imaginar. Na verdade toda a América Latina está assim. Esses caras se uniram para se perpetuar no poder. Coisas do tipo Venezuela, sabe?

Pois é. Nós brasileiros não sabemos resolver nossos problemas, não temos um senso prático das coisas. Muitos brasileiros são inteligentes o suficiente para ganhar muito dinheiro e enriquecer, mas não conseguem resolver um problema em família, não entendem quando os cachorros brigam no quintal, não sabem separá-los quando estão enganchados, não sabem como resolver seus mínimos problemas. É uma loucura. Muitos acreditam que as coisas acontecem e se resolvem como num passe de mágica.

Meu empreendimento é uma pequena escola. Uma boa escola onde procuro prestar um serviço de excelência para alunos do ensino fundamental e médio oferecendo um complemento aos estudos tradicionais que, atualmente, são uma piada de mau gosto por aqui. Meu sonho profissional até o momento é ter a oportunidade de transformar a vida das pessoas para melhor. Transformar a vida dos meus colaboradores e alunos. Parece algo vago. Mas acredito que os problemas não se resolvem no mesmo nível em que eles foram criados. É preciso se desenvolver para resolvê-los. Nem sei se isso realmente agrega algum valor para alguém. Muita gente nem liga para isso. Em grandes empresas, isso pode soar estranho também, afinal qual o resultado prático disso? Penso que, com esta visão, posso transformar, por exemplo o ato de vender em algo maravilhoso, ou de ao invés de prestar um serviço comum, prestar serviço de excelência ou de transformar a fria comunicação com os clientes em algo incrível de forma clara e eficiente. O mundo precisa de gente que sabe olhar no olho, que sabe ouvir, ouvir, ouvir, entender e mudar sempre que necessário para agregar valor na vida de alguém. E por fim, entender que somos nós mesmos os agentes transformadores da realidade do nosso mundo. É o que eu faço aqui na minha escola. Consegui muitos alunos que estavam felizes e me davam um voo tranquilo em direção ao lucro. As condições políticas e econômicas do país de hoje me fizeram perder mais de 50% do meu faturamento habitual e, do ponto de equilíbrio, caímos para quando estávamos iniciando as operações. Foi um baque. Cortei todos os custos. Aos poucos estou me recuperando, mas não vejo muita saída. Mas fazer o que, não poderia desistir ou simplesmente largar tudo assim e pegar o primeiro voo para o primeiro mundo, apesar de sonhar todas as noites com isso.

Recentemente tivemos diversas manifestações para o impeachment da presidente Dilma (alguns a chamam de presidenta, mas isso não condiz com a boa língua portuguesa). Minha família participou. Estamos ativos na política local. Sabe, existe uma polarização social por aqui. São ricos contra pobres, preto contra brancos, gays contra héteros, cristãos contra ateus, tudo muito louco. São falácias criadas para causar um certo medo ou uma tensão social. A violência está a níveis extremos. O problema chegou a tal ponto, que cheguei a me envergonhar das minhas conquistas pessoais. Há duas semanas teve um “panelaço” aqui contra a Dilma e no dia seguinte a imprensa nos chamou de “elite branca”. Fiquei transtornado e revoltado e no dia seguinte escrevi um texto interessante que alcançou muita gente tão ou mais indignada que eu.
O desemprego é uma realidade e os pais dos alunos se foram por questões financeiras. Não quero ser fatalista, mas analistas econômicos garantem que teremos uns 10 anos de recessão e que a “marolinha” do PT se transformará num pesadelo se medidas drásticas não forem adotadas. Ainda acredito que sobreviveremos, mas a que custo? Economistas ainda preveem crises mundiais maiores que a de 2008.
Para mim o que resta é lutar pelo que entendo ser tudo que tenho hoje que é minha família. Quero que meus filhos tenham a oportunidade de “ser” e não de apenas “ter”. E para isso tenho que manter minha sanidade.

Quanto ao dinheiro que me ofereceu, obrigado pela generosidade. Tenho algumas poucas economias para aguentar um  período por aqui ainda. Felizmente fui prudente e guardei algum dinheiro. Mas não durará para sempre. Por isso, estou procurando algo no mundo onde eu possa utilizar meus conhecimentos e usar minha experiência e, quem sabe, prosperar, mesmo que tardiamente.

Quanto a oportunidade na Alemanha, infelizmente meu alemão de umas 50 palavras, meia dúzia de expressões, não seria suficiente para exercer uma atividade em Munique que exige fluência na língua alemã, algo que sonho com frequência. Precisaria de algum tempo para aprender sua língua adequadamente. Uma pena. Mas com certeza se o alemão não fosse um impeditivo arrumaria as malas amanhã mesmo e sumiria daqui, mesmo amando esse meu país.

Por favor, mantenha contato e se souber de alguma empresa europeia que precise de alguém com meu perfil adoraria conversar a respeito, ok? Enquanto isso, vou me matricular no “Goethe institut.”

Um super abraço,

De seu amigo!

Do alto da minha varanda gourmet…

1088107042Eu sou sou proprietário de um apartamento com “varanda gourmet”. Esta semana eu li nos sites de notícias e vi comentários de amigos em redes sociais sobre isso e acabei refletindo a nossa atual situação neste país. Sim, moro em um apartamento com “varanda gourmet” e bati panela também, mas após ler um monte de bobagens sobre o panelaço, uma tristeza invadiu meu coração e foi grande quando percebi que fui cerceado do meu direito de ser um digno proprietário de um apartamento com “varanda gourmet”. Porque fiquei tão triste e totalmente sem esperança de viver em um país decente? Vou contar minha história, que deve ser muito parecida com quase todos os dignos proprietários de “varandas gourmet” espalhadas pelo país. Foi assim: Meus antepassados e avós paternos foram imigrantes que vieram da Itália no fim do séc. XIX início do séc. XX. Vieram fugindo da fome e da guerra. Fugiram do nazismo e do fascismo que despertava naquele continente. Meus avós paternos se estabeleceram no interior do Paraná. Na “terra rossa”. Passaram fome, enfrentaram doenças enquanto criavam os filhos. Meus avós maternos já nasceram no Brasil do inicio do século XX. Minha avó materna veio de uma família que aparentemente tinha posses, mas por conta da guerra, perderam parte do que tinham. Por isso, minha avó materna (que era descendentes de índios), para fugir do assedio do padrasto, aos 13 anos se casou com o meu avô (que era descendente de africanos mas de origem misteriosa). Ele já tinha mais de 25 anos com certeza. Meus avós paternos tiveram 8 filhos e os maternos 18 (5 morreram). Entre toda essa turma, nasceram meu pai e minha mãe. Todos trabalharam na roça. Todos tiveram muitos filhos. Gente simples. Meu pai veio para São Paulo em 1945 com 13 anos e logo começou a trabalhar nas indústrias da capital. Minha mãe fez o mesmo trajeto e veio trabalhar nas casas das famílias quatrocentonas abastadas dos barões do café e nos palacetes e grandes apartamentos dos industriais paulistanos. Meu pai era técnico de elevadores e por uma coincidência do destino conheceu minha mãe quando ele estava consertando um elevador de um dos prédios onde ela trabalhava. Meu pai trabalhou por 45 anos para nos educar, eu e meus 2 irmãos e minha irmã. Começou construindo sua casa na periferia de São Paulo. Era um porão úmido construído em uma rua lamacenta fruto do loteamento do haras Patente na divisa com São Caetano do Sul. Com apenas o ensino fundamental, sabia que precisaria estudar e trabalhar muito para levantar a casa dele. E foi o que ele fez. Se preparou, estudou e se tornou um ótimo técnico eletrônico e eletricista. Homem correto. Minha mãe lutadora e dona de casa. Meu pai era metalúrgico e do sindicato e já me dizia nos anos 70 sobre a “índole de filho da puta” de muitos de seus integrantes, inclusive do Lula. Meus pais criaram os 4 filhos. Suaram, correram, choraram. Eu segui seus passos com dignidade e retidão. Da minha mãe herdei a força da luta diária, da resignação e da resiliência, do amor a família. Eu trabalhei duro durante 30 anos, estudei tudo que podia, mas estudar nunca é demais, me preparei como meu pai. Construi minha vida assim, como meus pais me mostraram. Trabalhei duro. Por mérito meu e da minha esposa, conseguimos comprar nosso apartamento com “varanda gourmet”  para criar nossos filhos. Paguei cada centavo, cada juro extorsivo e abusivo cobrado pelos bancos. Recentemente fui demitido da indústria, que está ultimamente fracassada nesse país. Então, ouvindo um chamado, a minha voz, resolvi empreender e no momento que nossa pequena empresa iniciou a decolagem fomos surpreendidos por toda essa merda de cenário atual e por toda essa turbulência política. Foi ai que chegamos no dia 8 de Março de 2015. Cento e quinze anos depois da chegada dos meus avós ao Brasil fugindo da crise da Europa. E após ler argumentos de jornalistas de “peso” sobre a “elite branca” que protesta contra a presidente do Brasil e seu partido energúmeno, fiquei profundamente sem palavras. Sim, eu fui ofendido, pois para eu estar aqui na “varanda gourmet” derramei muito suor. Abri mão de muita coisa e muitas vezes escolhi trabalho extra pra ter o que tenho. Não aceito ser tolhido do meu direito de mandar todos os políticos e pessoas corruptas, seus corruptores, a Dilma, o Lula , o PT, Aécios , os comunistas, idiotas úteis e afins e todos os seus simpatizantes Tomar no meio do Cu. Tenho o direito de expressar meu sentimento de indignação e dor. Mando e vou mandar sempre que eu for desrespeitado como brasileiro honesto, trabalhador e cumpridor dos meus deveres. Eles ofendem meus antepassados e meus descendentes. Eles desrespeitam meus antepassados que viveram e morreram para que eu pudesse ter meu apartamento com “varanda gourmet”. Não aprendi a xingar em casa no seio da família. Meus pais me ensinaram o respeito ao próximo, os valores e as condutas morais e  virtuosas e me deram a liberdade de crer em Deus. Me ensinaram a não pegar nada de ninguém. Pecado gravíssimo. Uma desonra. Aprendi a xingar nas ruas lamacentas e nos terrenos baldios cheios de mato do Jardim Patente quando era desrespeitado em meus simples direitos de moleque de rua, mas mesmo assim sabíamos quando xingar. Tínhamos nosso código de ética. Nunca usarei meu direito de xingar em vão. Portanto, políticos corruptos e seus corruptores e todos os vendidos que apoiam a situação atual, que nem chegaram a condição de merda humana, seus peidos fracassados, lavem a boca antes de falar sobre quem literalmente construiu e constrói esse país, que somos nós, as famílias brasileiras, que criam seus filhos, que tem valores, princípios e conduta moral, que tem história de luta verdadeira, que não tem nada de revolucionária, coisa que vocês, donos do poder, não tem nem ideia do que seja. Ou se tiveram um dia, já se esqueceram, iludidos pela ganancia do poder e pelo dinheiro fácil.

Um futuro que jamais chegará

escolaqueimadapvh_2Desde que me afastei da industria para criar minha própria escola com o intuito de ajudar a fortalecer a construção de uma base educacional efetiva dos estudantes que frequentam as escolas particulares e públicas da minha cidade, tenho visto uma realidade assustadora que chega às raias da loucura. Por mais que eu tente entender o que realmente está acontecendo, cheguei a conclusão que será necessário muito tempo ainda para eu me aprofundar mais ainda nos estudos do pensamento humano. Quero que minha mente seja clareada com algum facho de luz para entender todo o processo de destruição a que gerações inteiras foram e estão sendo submetidas ao frequentar escolas fundamentais, médias e superiores neste país.

Por força desta minha atividade atual, tenho que regularmente agendar conversas com escolas da minha região para aplicar projetos educacionais junto aos alunos de instituições públicas e particulares.

Hoje visitei uma escola estadual muito conhecida no meu bairro. Logo que cheguei, fui muito bem recebido pelos funcionários e pela direção. Pediram para que eu esperasse para poder iniciar os trabalhos. Neste momento, ainda sentado, observei que havia uma bíblia sobre um pedestal aberta nos salmos. Resolvi folhear e acabei chegando no apocalipse. Nada mais apropriado para o que eu veria a seguir. Notei um certo alvoroço entre os alunos que ficam em uma ala separada da secretaria. O acesso às salas de aula é dado por um corredor que está separado por grades. Os alunos, todos fora das salas de aula, aos gritos e pulos estavam aparentemente fora de controle. Corriam, socavam portas, pulavam, batiam uns nos outros. Notei que é uma rotina normal para todos eles. Uma balburdia, uma “mixórdia” como dizia minha mãe. Um verdadeiro caos. Os funcionários tentando controlar os alunos que, sem a menor cerimônia, deixam as salas de aula a qualquer momento para atormentar outros alunos em outras salas. Os professores educadamente tentam organizar a aula, mas a força da liberdade de expressão destas crianças é muito mais poderosa. Nada pode ser feito. Alunos maiores totalmente endemoniados e sem controle, mesmo depois de suspensos, voltam para a escola sabedores de que nada nem ninguém os poderá deter, nem a polícia, em sua sanha de destruir o pouco que resta de dignidade dos coordenadores e professores.

Depois de alguns minutos fui conduzido a uma sala da 6a série, onde crianças se amontoam e desorganizadamente se colocam à disposição do professor para aprenderem a lição do dia. Fiquei diante da sala com pouco mais de 25 alunos entre 10 e 13 anos e observei atentamente cada um deles. Crianças com todo o potencial para despertar e florescer, para serem eles verdadeiramente. Diamantes brutos a serem lapidados. Após alguns segundos de observação iniciei meu contato com eles com um: “Olá pessoal? Peço um pouco de sua atenção!”. Aqueles olhos que brilhavam em minha direção estavam ávidos por afeto. Ávidos para ouvir uma frase: Eu amo vocês.

Mas a realidade aqui é outra. A completa falta de conexão, o desespero, a super exposição à todo o tipo de informação inútil transforma esses alunos. Um fala sobre o outro em uma confusão de palavras e duvidas sem respostas, uns se socam, outros se xingam, uma dorme descaradamente, outras no fundão falam de seus amores ou do baile funk do fim de semana. A falta de respeito entre eles é enorme. O meu colega professor está refém e impotente diante destes tiranos.

Minha cabeça começou a rodar, pensamentos tentado achar onde e quando aconteceu essa ruptura com as condutas morais e educacionais. Quem estabeleceu esse critério de formação destas tiranias do ter a qualquer custo, do prazer em desconstruir, do desrespeito a si mesmo. De onde veio esse currículo do qual nada pode ser feito a um aluno imbecilizado pela ditadura do prazer imediato?

A resposta pode estar em alguma ideologia nefasta. É como diz meu professor de filosofia Olavo de Carvalho: “Por muito tempo, foi negado às nossas crianças durante anos qualquer rudimento de educação, por mais mínimo que fosse, para lhes garantir a longo prazo uma vida mais dotada de sentido. O sistema educacional brasileiro tornou-se um dos piores do universo, uma fábrica de analfabetos e delinquentes como nunca se viu no mundo. Sabendo perfeitamente que a quebra repentina dos padrões de moralidade tradicionais produz aquele estado de perplexidade e desorientação, aquela dissolução dos laços de solidariedade social, que desemboca no indiferentismo moral, no individualismo egoísta e na criminalidade.” Foi o que vi hoje.

Apenas para ilustrar, o aluno que fora suspenso, voltou horas depois de forma pedante e delinquente. Apesar da direção chamá-lo, aos gritos para que ele se retirasse , ele simplesmente ignorou e seguiu adiante para sei lá onde com um caderno na mão. Um ser completamente sabedor de sua imunidade, um Nero, pronto para colocar fogo em Roma. Ameaçou a professora de morte.

Me parece que a desorganização sistemática da sociedade é o modo mais fácil e rápido de elevar uma elite militante ao poder absoluto. Pois só com a destruição do pensamento é possível perpetuar a ideologia do ter em detrimento do ser.

A educação é uma conquista pessoal, mas precisa de que alguém, de algum mestre que indique os caminhos. Um mentor. Agora como fazer uma criança nesse ambiente nefasto entender isso sem uma base comportamental e moral que a sustente?

Infelizmente, diante deste cenário e da realidade que me cerca estou convicto que aquele pais do futuro que sempre nos fizeram acreditar jamais chegará.