No país dos meus sonhos.

01thompson-springs_018Eu vivo em uma casinha com cerquinha branca e varandinha. Quando acordo de manhã, saio pra fora, respiro fundo o ar puro da manhã e logo encontro uma bolsa com meu pão e leite junto com os víveres do dia. Às vezes falta e por garantia como metade do que mandam, vai que…. Hoje tem o almoço e meu jantarzinho ali, fresquinhos, garantidos. No país dos meus sonhos não tem ônibus lotado, afinal vivo em uma casinha com cerquinha branca e varandinha de frente pro lago. O ministério dos transportes me deu uma bicicleta igual a do meu vizinho. No país dos meus sonhos, mesmo sendo uma minoria individual, tenho tudo que preciso para me satisfazer. Meu vizinho também vive numa casinha com cerquinha branca e varandinha igual a minha e também tem garantido seus direitos de minorias individuais. Ele não pega ônibus lotado para trabalhar todas as manhãs, ele tem uma bicicleta igual a minha. Outro dia o ministério da felicidade bateu na porta dele. Descobriram que ele andava trocando algumas batatas doces que ele plantava por itens dos viveres de outros vizinhos e o ministério queria saber o motivo de tanta infelicidade. Existe uma ordem expressa do ministério de abastecimento geral que impede as pessoas de produzirem seu alimento por causa do risco de contaminação. Só os ministérios do abastecimento geral podem manipular e sabem quais são os alimentos saudáveis para as minorias individuais. Coitado dele, o ministério da felicidade o interrogou por horas e no fim permitiu a ele que consumisse mais da maconha orgânica produzida pelo próprio ministério da felicidade, acho que ele melhorou. A minha plantação de cenouras está no porão. Mas ele não deveria estar infeliz. Afinal o santo líder supremo deu a ele a felicidade de viver no perfeito paraíso. No país dos meus sonhos as crianças estudam na melhor escola. Aqui elas aprendem livres com a natureza. A natureza do país dos meus sonhos é a mais bela. Os professores são do ministério da educação doutrinal e todos eles aprenderam na mesma escola da natureza. É lindo. As crianças aprendem a pintar as cercas de branco e a construir as varandas. Elas aprendem como e de onde vem os víveres do dia. Do ministério de abastecimento geral, claro. Grande sabedoria. Elas trabalham na natureza e aprendem a valorizar a vida que todas as minorias individuais levam. A bela vida linda dos habitantes do paraíso. Cantam as músicas em louvor ao nosso santo criador. Uma semana ao ano integram-se, na cidade, para observar a indicação de trabalho que os ministérios fazem: enfermeiras do bem maior, carteiros estatais, guardas de trânsito ministerial, policiais do ministério de defesa nacional, repórteres do jornal estado belo, feirantes do ministério do abastecimento geral e cozinheiros profissionais do mesmo ministério. Assim aprendem como a sociedade deve funcionar, mergulhando em seus sutis mecanismos que, à superfície, nos asseguram a assepsia social. No país dos meus sonhos não há temas tabus. Todas as “situações-limite” da vida são tratadas com abertura e profundidade: dor, perda, morte, enfermidade através do uso dos doces fornecidos pelo ministério da felicidade. As crianças, desde cedo, exercem sua sexualidade livremente como minorias individuais que são. Não tem tabus. Os adultos do ministério da reprodução assistida as ajudam a lidar com suas diversidades desde cedo e estimulam jogos entre elas para o despertar de sua identidade sexual o mais cedo possível. No país dos meus sonhos a morte é encarada como um fim em si. Nosso líder santo supremo é o único que viveu entre nós e criou o país dos meus sonhos. O ministério dos assuntos filosóficos junto com o do futuro está pesquisando sobre como aumentar nossa longevidade para desfrutarmos ainda mais da bondade do líder supremo. No país dos meus sonhos todos tem sua TV e seu celular. Anualmente recebemos uma bolsa do ministério do abastecimento eletrônico com as atualizações devidas. A internet é totalmente grátis e aberta. Todos podem trocar informações na rede social ministerial. Não tem tabus. Tudo é livre e não há abusos.  Os programas da TV são educativos e divertidos e aqui também não há tabus. As novelas e programas mostram com naturalidade as diversas formas de relacionamento das minorias individuais do nosso povo. Aqui não se briga com a TV, pois ela jamais incomoda o povo com temas prejudiciais à manutenção da vida e da felicidade das minorias individuais. No país dos meus sonhos as famílias são as que você entende ser a melhor e respeite sua minoria individual. O ministério da reprodução assistida tem uma lista com todas as famílias que podem ser criadas no país dos meus sonhos. A lista é grande. Do outro lado do lago tem uma família linda que vive em uma casinha com cerquinha branca. Ele se casou com seu velho Jatobá e tem 4 cadeiras nobres como filhos. Uma vez por semana o gritos do homem incomoda enquanto a arvore balança pra lá e pra cá. Mas ninguém o incomoda. O ministério da felicidade garante as liberdades das minorias individuais. No país dos meus sonhos, não existem mais as diferenças entre pobres, classe média e ricos. Ninguém precisa mais pular de classe em classe para ser feliz, viver e sobreviver. Pois é no país dos meus sonhos onde viver nesta sociedade é um privilégio, é um direito universal das minorias entes oprimidas e que agora sim tem acesso a esta sociedade perfeita, é um dever obrigatório do estado garantir sua felicidade através do ministério do controle social, e deve ser totalmente garantido a todas as minorias individuais. O único problema é que eu queria usar uma roupa diferente das roupas cinzas que o ministério do vestuário me manda semestralmente. O único problema é que não temos mais problemas… afinal somos todos iguais nessa merda de pais dos meus sonhos.

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Quem fala a verdade não merece castigo!

lixo-janela-carroUm grande discussão aconteceu ontem por conta da polêmica declaração do cantor Ed Motta dizendo: “Não falo em português no show”. Confesso que me diverti muito com os comentários dele contra muita gente nas redes sociais o criticando. Na verdade, até certo ponto, eu concordei com ele. Vejo a necessidade de se criar um contraponto nesta questão. Na verdade já passei vergonha na Europa fazendo coisas que para mim eram perfeitamente normais. Educadamente recebia olhares de reprovação por comportamentos típicos da minha brasilidade. Uma conhecida minha (Faye Waddington-ayres), que mora no Reino Unido, resumiu bem o que eu pensei sobre este assunto:

“Os comentários feitos na pagina dele (Ed Motta) são tendenciosos – pois o artista foi muito claro e nada ofensivo no que ele disse, e esse tipo de reação continua sendo a forma brasileira de “tapar o sol com a peneira”, de ridicularizar uma observação pertinente quando se está sendo criticado. Ri-se daquele que ousa discordar, acha-se a ele um apelido ou pecha, e segue-se na total porem confortável e arrogante ignorância (que agora já não tem mais nada de santa). Tocar para os gringos , que ele correta e respeitosamente chama de publico internacional, é o que qualquer artista pode almejar, e todos que estão desenvolvendo carreiras em altíssimos padrões sabem que isso não acontece por milagre – brasileiros  como Yamandu e Egberto Gismonti, Sergio e Odair Assad, bailarinos, músicos, atores, pintores, joalheiros, engenheiros, cientistas entre muitos outros brasileiros de destaque, que o digam. O que Ed Mota tem coragem de expor, justamente por gostar de seu país, é um grau de decepção com seu próprio povo, pelo constrangimento que esse mesmo povo que recusa-se a se preparar decentemente e acha que tem o direito de se impor. Eu posso lhe garantir que é muito difícil estar em meios evoluídos, que poderiam inclusive oferecer mais oportunidades aos seus compatriotas, mas que recolhem-se temerosos ante a aproximação da possibilidade de terem problemas totalmente desnecessários resultantes da falta de civilidade, civilidade essa que os brasileiros já tiveram, mas que resolveram trocar especialmente nos últimos 15 anos pela vulgaridade, pela baixeza, e pela escolha de ignorar pequenos detalhes que em sociedade tornam a vida de todos muito mais prazerosa. E é muito ruim ter que deixar de contatar a comunidade brasileira para se evitar dissabores. É muito ruim não poder evitar a estranheza nos olhares incomodados, nem desfazer, nem justificar o barulho, a sujeira, a sem cerimônia em lugares de cerimônia, a grossura óbvia de centenas e centenas de pessoas que desembarcam na Europa, por exemplo, diariamente, deixando os aviões com aspecto de ter transportado um furacão pelo dado de dentro! Possivelmente os passageiros quando saem não veem muito dessa destruição e lixo, pois todos estão pisando nele, apressados e amontoados nos corredores esperando as portas se abrirem. Mas se um dia você tiver a paciência de ficar entre os últimos a sair, convido-o a observar as tripulações extremamente cansadas de tanto trabalhar em longos voos lotados e cheios de exigências (ninguém melhor para tratar os outros como empregadinhos como os brasileiros com algum dinheirinho no bolso) recolhendo o lixo depositado no chão (porque não puseram nos sacos de lixo que os comissários passam no final da viagem?), de meias usadas a cobertores, almofadas, embalagens, papeis, plásticos, material de toalete… tudo para ser apreciado pelos profissionais de limpeza que também merecem respeito, obviamente, mas que os brasileiros ainda tratam como escravos. Por que é tão difícil demonstrar consideração? Essa noção do “eu to pagando, eu posso, eu quero” é muito própria desses farofeiros morais, tantas vezes fantasiados de viúvas Porcinas e executivos cool. E deixe-me lembra-lo de que ter a mesma nacionalidade não torna ninguém parente, confidente e receptor natural da falta de educação alheia. Assim, o que Ed Mota diz, e eu lhe garanto que centenas de brasileiros devem estar repetindo e agradecendo, é que é bom lembrar as velhas lições da boa e sociável, a verdadeira Cultura Brasileira, aquela que ensina aos seus filhos desde pequeninos que para tudo há um lugar e uma hora e é de bom tom olhar em volta para se saber onde está e como agir. Isso é criação, berço – o que não tem nada a ver com dinheiro. Resumindo: se uma pessoa entra em uma Sala de Concertos para se comportar como se estivesse em um churrasco, o sinal é de que ela não deveria estar lá. Mas como para tudo há uma saída possível e lógica, ou essas pessoas procuram aprender, adapta-se ao lugar para apreciar uma nova experiência, ou vão tocar pagode livremente, gritando palavrinhas de ordem aos gritinhos das popozudas, com birita e espetinho, nas suas praias da vida.”

Pois é, o processo evolutivo em direção a um novo patamar de entendimento não é fácil. É doloroso e exige esforço de cada um de nós. Se nós estamos incomodados com o que o Ed Motta falou, é sinal que precisamos mesmo aprender inglês urgente e decentemente. É como eu sempre digo: Um problema nunca é resolvido no mesmo nível em que foi criado, portanto, vamos parar de reclamar e vamos evoluir.