Curriculum Vitae

 

Cesar Manieri 1Em tempos de crise é necessário manter nosso curriculum atualizado. Então, acho que aqui neste blog, seria uma boa oportunidade de dizer realmente como foi minha vida profissional de forma livre e sem as amarras do mundo corporativo. Quem sabe algum recrutador curioso se interesse pelo meu “eu” verdadeiro e me convide para tomar um café:

Meu nome é César Manieri, sou um homem de meia idade, empreendedor, desempregado. Bem, não tenho vergonha de dizer que eu estou desempregado com um pouco mais de 50 anos. Afinal, não há desonra em viver em um país de poucas oportunidades e com 15 milhões de desempregados, aqui o fato é que existe apenas a realidade dura e fria.

Minha vida escolar foi muito interessante e desafiadora.  Cheguei na escola já alfabetizado e logo fui convidado a ler em voz alta diante da minha primeira plateia: A sala de aula. Tive que mostrar a eles essa incrível habilidade de saber ler antes dos 6 anos de idade. Naquele dia, estava afônico e ler para uma classe de 30 alunos, sem voz, nervoso e tímido, foi uma tarefa árdua, mas consegui vencer, mesmo sob os risos e chacotas dos colegas de sala e o olhar sarcástico da professora maldosa. Nos primeiros anos de vida, lá nos anos 60, tive que lidar com as adversidades de ser um “infeliz” canhoto. Era um hábito mal visto pela professora. Então, desde cedo, aprendi a me adaptar às mudanças, pois fui obrigado a me tornar, forçosamente, destro. Às vezes, levava reguada para trocar de mão quando esquecia do “mal” que eu tinha. Às vezes, ela amarrava minha mão esquerda como forma de castigo pelo esquecimento. Me decepcionei demais com a escola, mas não desisti, meu desempenho sempre foi excepcional até a 4a série.  Mudei de escola e tropecei na 6a série e fui reprovado em matemática. Isso me ensinou que nem sempre somos bons em tudo. Isso me ensinou a cair e a me levantar. Fora todas essas coisas, a vida no ensino fundamental foi tranquila.

No fim dos anos 70, entrei na escola técnica do ensino médio. Foi por minha escolha mesmo, mas essa escolha teve uma forte influência paterna. Eu sempre sonhei em ter uma profissão digna, assim como meu pai teve. Estudei eletrônica por 3 anos. Mas foi no ano da minha formatura que eu tive certeza que havia sido uma boa escolha, pois fechei as matérias com nota máxima no exame final. Ao mesmo tempo que eu estudava para ser técnico eletrônico, eu tinha aulas de piano e inglês. E finalmente, em 1981, me formei técnico eletrônico e músico. Minha escolha foi levar tudo junto, de forma paralela. Técnico de profissão e músico por diversão. Eu era o dono do mundo.

Nessa época arrumei um estágio em uma empresa de aparelhos médicos perto de casa. Era inexperiente e sabia muito pouco sobre esse assunto. Nessa empresa ganhei uma mala de ferramentas e nenhum treinamento. Me jogaram no campo e aprendi como um peixe pequeno se sente em meio aos tubarões. Visitei UTIs em grandes hospitais e vi coisas que assustam de verdade um jovem de 19 anos. Três meses depois, cometi um erro técnico simples e fui massacrado pela chefia que me demitiu. Aprendi de forma implacável a dor de ser defenestrado sem ter recebido uma base técnica adequada. Prometi para mim mesmo que se um dia tivesse um funcionário, o treinaria adequadamente primeiro, antes de cobrá-lo.

Cheguei em casa naquele dia e toquei ao piano as valsas de Chopin por 2 horas.

Mas eu só tinha 19 anos e o tempo era infinito. Então, algumas semanas depois, fui contratado por uma empresa de máquinas de escrever, calculadoras e etiquetadoras eletrônicas. Era longe de casa, levava horas para chegar. Mais experiente, resolvi ficar atento ao que deveria ser feito e aprendi a desmontar os mecanismos das etiquetadoras e a testar seus circuitos eletrônicos. Aprendi ali o valor das amizades e o perigo delas também. Ali me ofereceram oportunidades e algumas drogas que foram firmemente recusadas. Desenvolvi o trabalho como deveria. Mas meu chefe ficou enciumado quando soube que eu era pianista e amava ler obras de ficção científica. Até hoje não entendo o porque. Ele me dava apelidos chulos na frente dos amigos e eu, como não queria ser defenestrado pela segunda vez, levava tudo na brincadeira sem questionar. Um dia, ele ficou bravo comigo por eu ter limpado mais máquinas do que deveria e gritou feito louco que eu não poderia ter feito aquilo. Chateado e de forma silenciosa, subi para falar com o dono da empresa e educadamente entreguei minha carta de demissão. Foram dois anos interessantes onde aprendi a ter brios. Saí de lá prometendo a mim mesmo jamais gritar com algum funcionário meu ou colega de trabalho.

Naquele dia cheguei em casa e ouvi Led Zeppelin o dia todo no volume máximo.

Paralelamente, montava minha primeira banda de garagem. Desenvolvi meu primeiro projeto MIDI para computadores pessoais e me especializei em síntese de som.

Algumas semanas depois de ter procurado emprego no “Estadão” de domingo, fui chamado para uma entrevista em uma grande empresa metalúrgica que estava começando no ramo de automação industrial. Fui aceito e comecei a trabalhar como técnico de testes. Mais experiente ainda, sabia como deveria ser meu comportamento para sobreviver no mundo empresarial. Me tornei estudioso, comunicativo, mas profundamente cauteloso no trato com colegas e chefes. Foi ali que percebi claramente quem eram os amigos de verdade (alguns são meus amigos até hoje). Vi quem eram os carreiristas e como funcionava a política dentro das empresas. A amizade, a inveja, o ciúme, o “puxasaquismo” e às vezes competência, faziam parte do dia a dia. Foi nesse ambiente que aprendi tudo sobre pessoas e sobre o mundo da automação industrial e corporativo. Foram 6 anos de um profundo aprendizado sobre o amor a profissão e às pessoas. Um dia, depois de chegar ao meu limite neste aprendizado, pedi ajuda para ser transferido para a área comercial. Eu sabia que a área de desenvolvimento de hardware nos anos 80 não era o forte neste país, tampouco o meu. Eu sabia que como homem comercial, poderia chegar ao topo e ganhar mais dinheiro. Negaram. Pedi para sair e a moça do RH me indicou para outra empresa do setor, onde fui aceito como vendedor.

Naquele dia, voltei para casa e decidi que deveria concluir o curso de engenharia na universidade. Toquei Jarre no meu sintetizador e gravei tudo no meu porta-estúdio Tascam.

Com a banda de garagem, gravamos nosso primeiro disco. Paralelamente abri empresas e comecei a me apresentar como músico em teatros e igrejas pela cidade tocando em casamentos e fazendo eles chorarem, de emoção 🙂

Fui aceito como vendedor em uma gigante nacional fabricante de motores elétricos. Foi aí que me tornei um vendedor de verdade. Terminei a faculdade e virei engenheiro de aplicação em automação industrial. Lidava bem com robôs, motores, drivers, plc. Fui apaixonado pelo trabalho durante quase 7 anos. Atendia os clientes com esmero, mesmo quando era xingado por eles por razões que só eles sabiam. Dominei o estado de SP. Eu era conhecido como Cesar da Empresa de Motores. Eles falavam: “- O Cesar da Empresa de Motores chegou!”. As identidades se fundiram. Sonhava em chegar longe. Um dia, depois de ficar 12 horas de pé em uma pequena feira técnica, fui duramente criticado por deixar o posto de trabalho só por ter ido comer um lanche e na volta parei para ver uma banda muito boa tocar. Isso me fez ver que chegara a hora de alçar voos em empresas multinacionais maiores ou melhores, queria o Brasil, o mundo e não apenas o estado de São Paulo. Poderia passar fome no trabalho, mas que fosse na Europa ou EUA. Silenciosa e discretamente, busquei uma nova posição em empresas multinacionais de grande porte. Fui aceito em uma multinacional alemã como gerente de vendas. Estava pronto para crescer mais e mais.

Naquele dia, fui para casa e fiquei no meu home estúdio gravando até de madrugada, sonhando com as estrelas, novamente me sentia feliz. Fiz duas canções nesse dia. E decidi fazer pós graduação em Analise de Sistemas de Automação.

Era novo ainda, mas minha experiência já era de um sênior. Sabia muito tecnicamente, mas faltava saber vender mais e liderar. E a empresa alemã me deu a cancha que precisava. Fui gerenciar regiões, distribuidores, bati de porta em porta vendendo equipamentos de automação, dirigia por horas e horas visitando uma imensa carteira de clientes. Olhava meu trabalho como algo que tinha que ser feito. Era necessário enfrentar e atravessar o deserto para chegar onde eu queria. Comecei a ter cada vez mais contato com gente de fora do país. Meu pares e líderes gostavam de mim. Mas um dia, meu trabalho foi reconhecido por um concorrente. Era uma outra empresa alemã que me ligou convidando para ir trabalhar na Alemanha. Minha hora havia chegado. Aceitei.

Foi nessa época que eu casei e montei minha família e foi aí que vi a importância de ser líder de si mesmo… e decidi fazer outra pós graduação em administração industrial.

Fui para a Europa, aprendi a lidar com minhas limitações, medos e cresci muito. Fiz palestras em grandes reuniões de vendas na Europa e EUA. Depois disso, enquanto minha vida pessoal se desenvolvia e meus filhos nasciam, rodei o mundo. Fiquei mais de 13 anos nessa vida profissional até chegar a Business Development Manager da América do Sul vendendo micro eletrônica de uma empresa de Munique. Um dia, depois de bons serviços prestados, essa empresa me chamou e disse que meu tempo lá havia acabado. Eu estava com 50 anos. Desde os anos 80 passei por muitas crises, desafios, fracassos e sucessos. Mas por essa eu não havia previsto, na verdade havia previsto sim, mas pensei que esse dia nunca chegaria para homens como eu. Me lembrei da 6a série.

Naquele dia cheguei em casa, deitei no colo de minha esposa, chorei em silêncio e dormi.

Conhecia o mundo, mas não o verdadeiro Brasil. Agora, sei como ele funciona depois de estudar muito nossas raízes. Foi aí que aprendi mais sobre mim mesmo e o povo brasileiro do que em 30 anos de trabalho.

Paralelamente, escrevi meu primeiro livro e inaugurei um blog e um canal no YouTube. E me tornei um bom fotografo. Ter tempo para a gente mesmo, muda tudo.

Pelo meu networking, consegui uma recolocação em uma outra multinacional como “terceiro” em desenvolvimento de produto.  Mas não sou um desenvolvedor de produtos da gema e sim de mercados. Posso ser eclético, mas nem tanto. Então, de cara percebi que ali não era meu lugar, saí depois de quase 2 anos e preferi empreender.  Agora, tenho uma escola (que decidi fechar por causa da crise e a montei na varanda do meu apartamento), uma marca (Escola Íntegro), sou auto didata em educação clássica, estudo ciências políticas, filosofia e estou escrevendo meu primeiro romance. Acabei de terminar uma pós graduação em Educação, estou fazendo licenciatura em Matemática e fui aceito em um programa de mestrado em um universidade em SP. Com mais tempo livre aproveito e leio cerca de 10 livros por mês (não inteiros). Com minha experiência, ajudo jovens a entender matemática, física e principalmente a eles mesmos. Ensino esses jovens a ler, escrever e pensar, a acreditar em si mesmos, estudar, treinar, a tomar boas decisões, a treinar de novo se falharem e jamais, jamais grito com eles. Eu os ensino a amar a verdade e a jamais gritar com qualquer pessoa que seja, sem uma boa justificativa.

Foto Jornal

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

 

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4 comentários sobre “Curriculum Vitae

  1. Roberta Simoes junho 14, 2016 / 10:59 am

    Nossa!!!Como eu adoro ler vc!!! Eu vejo, eu vivo e me emociono com suas palavras. Louca, esperando o lançamento do seu romance.
    Como curriculum … Achei perfeito! É a experiência de um grande homem,profissional pai, marido, ser humano e amigo. Contratado!!!

    • Cesar Manieri junho 14, 2016 / 11:41 am

      Obrigado Roberta! Quando eu começo? 🙂

  2. Eduardo Nunes da Silva junho 9, 2016 / 11:09 am

    Muito bom o post! Você é um grande cara, que sempre mantém o bom humor, o que é algo que admiro, como bela virtude humana, mas não conhecia sua capacidade de se expressar por escrito. O texto é inteligente, sensível e com uma ironia elegante. A propósito, na foto em que está ensinando o jovem, vê-se na parede a publicação “Palavras de Luz”, editado por nós aqui na Seicho-No-Ie.

    • Cesar Manieri junho 9, 2016 / 12:00 pm

      Ola Edu, Grato pelas palavras. Exatamente!! todo ano eu compro as Palavras de Luz… todos aqui em casa leem e adoram. Aproveito para desejar a você Paz, Luz e Harmonia em sua vida!!

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