Movimento ecológico.

lil-old-ladyNo caixa de um supermercado uma velha senhora, do alto de seus 80 e poucos anos aproximadamente, escolhe lentamente uma sacolinha de plástico para armazenar suas compras. Nesse momento, uma jovem de uns 16 anos com uma argola no nariz, que estava na fila, olhando a cena impacientemente, a repreende dizendo que ela não tinha consciência “ecológica”:

–  Senhora, senhora! – disse ela. – Sua geração simplesmente não entende o movimento ambiental do século XXI, não? Desse jeito, é a nossa geração e a futura é que vai ter que pagar pelos erros cometidos pela geração mais velha que desperdiçou todos os recursos disponíveis no planeta!

A velha senhora, um pouco trêmula devido a uma artrose severa que castigava as articulações de suas mãos, assustada pelo tom de voz da garota e sem entender direito essa pergunta,  se desculpou com a jovem na fila, explicou:

– Sinto muito minha jovem, mas não tivemos nenhuma educação sobre o movimento ambiental quando eu tinha a sua idade. No meu tempo, essas coisas simplesmente não existiam, por isso peço desculpas – disse ela meio sem graça já se despedindo.

Quando a velha senhora ia saindo do supermercado, cabisbaixa e pensativa, a jovem retrucou gritando:

– São pessoas como você, senhora, que arruinaram todos os recursos planetários e agora somos nós que temos que pagar a conta. A senhora tem razão! – continuou a jovem – vocês nunca se preocuparam com a proteção ambiental, na sua época vocês foram muito relapsos, isso sim!!

Um silêncio repentino e sepulcral caiu sobre o burburinho típico em lojas desse tipo. A velha senhora então se virou lentamente, voltou, devolveu a sacolinha e ainda trêmula falou:

– Jovem, jovem, você tem razão! – ela disse – esqueci minha sacola de compras em casa. E erguendo as mãos cansadas pelo tempo ainda segurando a sacolinha de plástico, falou:

– Admito que fomos negligentes com a natureza. No meu tempo guardávamos as garrafas de leite, garrafas de limonada e cerveja. Fazíamos isso, pois as garrafas nos pertenciam, nós tínhamos que comprá-las. Para comprar nosso leite ou cerveja, tínhamos que levar as garrafas vazias. O dono da venda as enviava para a fábrica onde eram lavadas, esterilizadas e ficavam prontas para serem usadas novamente. Essas garrafas eram reutilizadas várias vezes. Nós pagávamos pelo uso dessas garrafas. Se elas quebravam ficávamos chateados. Nós não sabíamos nada sobre reciclagem ou movimento ambiental.

– Na minha época, minha filha, nós tínhamos que subir escadas: os hotéis não tinham escadas rolantes nem elevadores em todas as lojas ou escritórios, então, éramos obrigados a caminhar. Andávamos até o supermercado também. Mas hoje, usamos o carro, nem que seja para andar duas quadras para ir até a padaria. Mas é verdade, você tem razão,  nós não sabíamos nada sobre o movimento ambiental.

– Na minha época, minha mãe lavava as fraldas dos meus irmãos pequenos com sabão; não havia fraldas descartáveis ou lenços umedecidos para limpar a bunda deles. As roupas secavam usando a energia do sol e dos ventos no varal; e não em uma secadora que consome 3000 watts por hora. Nossas roupas eram passadas de um irmão para outro e não ficávamos chateados por isso. É verdade! não sabíamos nada sobre o movimento ecológico.

– Na minha época, havia apenas uma TV ou rádio em casa; não uma TV em cada quarto. E a TV tinha uma tela pequena do tamanho de uma caixa de pizza, não uma tela do tamanho do Brasil.  Na cozinha, nos preocupávamos em preparar as refeições do dia; não tínhamos todos estes aparelhos elétricos especializados para preparar tudo sem esforço apenas apertando um botão, que é só esperar alguns minutos e um tanto de energia depois beeeeeepppp está tudo prontinho!!

– Na minha época, veja só, se tínhamos que enviar algo frágil para alguém, usávamos jornal ou lã de algodão não usávamos plástico bolha, isopor ou produtos sintéticos  para proteger os objetos e os mandávamos em caixas que eram reutilizadas.

– Na minha época, utilizávamos energia muscular para cortar a grama; no máximo usávamos cortadores a gás e não elétrico ou a gasolina.

– Na minha época, nós estávamos trabalhando duro, usávamos os músculos; nós nem imaginávamos ir para uma academia para correr em esteiras que só funcionam se liga-las na tomada elétrica.

–  Na minha época, nós bebíamos a água da fonte quando estávamos com sede; nós não utilizávamos copos ou garrafas de plástico cada vez que queríamos tomar água, para depois, jogar esses recipientes fora.

– Usávamos as canetas-tinteiro junto com um frasco de tinta em vez de comprar uma nova caneta a cada semana; substituímos as lâminas de barbear em vez de jogar o barbeador inteiro após cada barbear. Mas é verdade, nós não sabíamos nada sobre o movimento ambiental.

– Na minha época íamos para a escola a pé ou de bicicleta em vez de usar o carro da família.As crianças usavam a mesma mochila por vários anos, cadernos era usados de um ano para o outro, lápis de cor, borrachas, apontador de lápis e outros acessórios duravam tanto tempo quanto podiam. Hoje as crianças trocam de mochila duas vezes por ano, jogam foram caderno de anotações , compram material novo só por terem um novo design ou slogan ou personagem favorito estampado neles. Mas é verdade, nós não sabíamos nada sobre o movimento ambiental.

– Você tem razão, minha jovem, concordo que hoje tenho que fazer minha parte, mas não me venha com esse discurso moralista de movimento ambiental verde. Na minha casa eu tenho uma tomada elétrica por quarto, não uma faixa multi-saída para atender a uma gama completa de acessórios elétricos necessários para a juventude de hoje se esbaldar na tecnologia e para carregar a bateria desse seu iPhone moderninho que você orgulhosamente ostenta aí, viu mocinha?

A velha senhora saiu levando suas compras com a sacolinha nos braços ainda trêmulos sob o olhar indiferente da jovem e dos outros clientes.

Moral da Historia: Você decide, afinal, a ecochata não quis se livrar do seu iPhone e seguiu com a sua vida politicamente correta. A velha senhora, bem, ela voltou pra casa e colocou a sacolinha em um saco cheio de outras sacolas.

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

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