Sobre uma mulher verdadeira que conheci…

vovoUm dia depois de ler em vários lugares mensagens sobre as mulheres em comemoração ao dia oito de março, de ler todos os textos tristes de vitimismo que escreveram, muitas vezes exagerando fatos, estatísticas mórbidas e frias sobre o quanto são mortas, violadas, socadas e estupradas, me veio à mente uma cena e um diálogo que eu tive e que jamais me esquecerei com uma das mulheres mais fortes que conheci na vida.

A cena foi a seguinte:

Estava eu, com meus 19 anos de idade, em casa, olhando para aquela caminha de solteiro no meio da sala de estar. Nela estava deitada uma senhora de boa idade, minha avó. Pele e osso, mas ainda vaidosa aquela senhora, que, mesmo toda carcomida pelo tempo e por um severo AVC que tivera anos antes, ainda prezava sempre em estar bem arrumadinha. Ela ficou doente de verdade quando voltava de uma longa internação hospitalar após um grave problema pulmonar. Ela encontrou um dos seus filhos (ela teve 18 gestações) caído morto por um tiro fatal no coração dentro de casa. O filho que ficara com ela não aguentara a pressão, o peso da dor da vida. Ela, sim, suportou com muita coragem. Mesmo debilitada decidiu seguir em frente sozinha. Mas sua força não era suficiente para seguir sozinha como sempre fizera. E agora ela estava ali na minha casa e eu a olhava, resignado. Com a respiração ofegante, ela se virou e me olhou com um olhar severo, mas doce, e disse:

-“Fio”, pode preparar meu cigarrinho de palha? – pediu tentando levantar o corpo magro e fraco.

-Vovó, a senhora tem certeza que isso te fará bem? – perguntei relutante.

-Deixe de bobagem homem, vá lá e faça o que estou te pedindo. – ordenou do alto de sua autoridade. – A comida “sargaaaada” da sua mãe me faz mais mal que esse inocente cigarrinho. – completou de forma sarcástica.

Fui até a cozinha, peguei uma faquinha amolada e o fumo de corda que eu havia comprado semanas antes a pedido da minha mãe. Levei até a sala, puxei a mesinha de centro e me sentei ao lado de minha avó. Cuidadosamente comecei a cortar finamente aquele fumo de cheiro forte e adocicado.

– Eu quero que você pique o fumo assim mesmo, bem fininho, entendeu? – ela disse, apontando para minhas mãos.

-Sim, dona Palmira! – respondi sorrindo.

Depois, peguei a palha que estava perfeitamente embalada e cortada em retângulos, enrolei pacientemente o tabaco, e apertando os dois lados para não deixar o fumo escapar, entreguei a ela colocando um cinzeiro vermelho feito de alumínio, que era do meu pai, ao lado dela.

-Tá bom assim vó? – perguntei mostrando para ela o resultado do meu trabalho.

-Tá, fazer o que, vai assim mesmo! – Respondeu pegando o cigarrinho com desdém.

Ela lambeu as pontas, colocou o pito nos lábios murchos, finos e pálidos. Rapidamente acendi um fósforo e aproximei do fumo. Foi quando comecei a ouvi-la sugar o cigarro de palha com força, puxando a chama até aparecer uma brasinha na ponta. Então vi uma fina fumaça subindo pelo ar. Ela sugou e tragou a fumaça com satisfação. Soltou uma baforada e olhou para o cigarro de palha com prazer e seguiu dizendo com a voz embargada:

-Deus se esqueceu de mim “fio”. – enquanto dizia isso, uma de suas mãos trêmulas tentava manter o cigarro firme para evitar derrubar as brasas no lençol e a outra mão, já meio paralisada, segurava uma bolinha de espuma.- Veja meu estado! – Ela continuou – Veja aonde cheguei. Todos que conheci um dia se foram. Seu avô, meus parentes antigos, muitos filhos meus. E eu aqui velha, presa nesta cama. Sem saída.

-Não diga isso, vó. Você ainda tem a gente, tem seus seus descendentes. Tem suas filhas aqui que cuidam de você. Nós te amamos vó.

– Que bom saber que ainda me resta isso. “Óio” pra trás e vejo luta, suor, calos nas mãos. Olhe minhas mãos. Tenho saudade da minha casinha lá de Mineiros. Da minha roça. Das minhas plantas. Mas tudo se foi. Cuidar daquele monte de “fio”, trabalhar na roça, lidar com aqueles moleques endiabrados, minhas “fias” me ajudaram enquanto eu ia pra “roça carpi”, mas com a morte sempre de olho na nossa vida.

-Como foi isso, vó? – perguntei despretensiosamente para ver se arrancava alguma história inédita  dela.

-“Fio”, vocês não sabem de nada da vida. Vocês tem de tudo e vivem reclamando. Na casa da gente não havia os confortos de hoje. Sinto falta do meu fogão a lenha, dos meus “caipiras”cantando suas músicas no meu rádio. Sinto saudades do bife feito na banha de porco. Tenho certeza que reencontrarei todos eles para onde eu vou.

-Nós lutávamos para viver. Eu pari criança em baixo de pé de café, lá no meio da roça. Eu eduquei 13 filhos, todos estão hoje muito “bão”, tudo homem feito. Perdi alguns “fios” em casa por doença e acidente. Sinto pena, mas não choro por isso. Afinal eu tive um monte deles. É uma bênção, afinal.

Entre uma frase e outra, uma tragada. O cheiro do fumo impregnava toda a sala. Não me importava. Me lembrei quando eu estava de férias na casinha dela, daquela senhora levantando às 4h da manha, quando ligava seu velho rádio à válvula, sintonizava na estação de música caipira, fazia esse ritual tão seriamente como se fosse ouvir Mozart e começava a abanar seu fogão a lenha com uma tampa de lata de banha para fazer o café antes de ir trabalhar. Uma força sobre humana. Uma braveza só. Dura como pedra.

– Deus se esqueceu de mim? Logo eu que fui tão “trabalhadeira”. – dizia isso com os olhos marejados.

-Sente alguma dor vó? – Perguntei a observando de perto.

– Deus sempre ouve seus filhos. Uma mulher como eu não tem o privilégio de sentir dor da vida. Dor da vida é para essas “frufrus” bananas que vocês namoram. – disse sorrindo malvadamente.

Ri junto com ela, sem entender a dimensão do que ela me dizia. Achei que ela estava delirando ou sei lá.

-Olha, quase fui abusada pelo meu padrasto safado. Resisti. Casei com seu avô, um homem errante, tinha quer ser, pois eu prometi casar com o primeiro que aparecesse por lá. E foi o que fiz e fui viver minha vida longe daquele estrupício. Paguei o preço dessa escolha com resignação. Fiz o que tinha que ser feito. Mas agora estou cansada, velha, já contribui com essa vida. Não quero mais ser carregada feito um saco de feijão pra fazer essa tal de “fisio” que vocês me levam todo santo dia. –  ela disse isso me olhando nos olhos com um misto de agradecimento e certeza do que dizia. – Deus vai me ouvir, ela disse baixinho.

Sim, naquela época eu era o responsável por carregá-la no colo para fazer a fisioterapia. Era um tarefa que eu fazia com alegria e era fácil, achava que com o tratamento ela ficaria como antes, cheia de vida. Estava tão magrinha, tão leve. Eu a retirava de dentro da velha Brasília bege e a carregava. As pessoas, quando eu entrava na clínica com ela, me olhavam espantados vendo aquele menino carregando aquela velha senhora nos braços. Não entendiam o que se passava em nossos corações. E nem poderiam. Não os culpo. Nem queria saber o que pensavam. Eu não ligava.

– É preciso vó! É necessário fazer isso para sua recuperação. – eu dizia isso imaginando mudar a opinião daquela guerreira. Mas no fundo, eu sabia que era inútil dizer qualquer coisa a ela naquele instante.

Ela deu sua última tragada na bituca que sobrou e de forma trêmula apertou-a no cinzeiro. Parou por alguns segundos e deixou a fumaça restante se esvair dos seus pulmões sem pressa.

– Agora preciso descansar. Deixe-me em paz.- Ordenou com a dureza de sempre.

Naquela noite, escutei minha avó chamar pela minha mãe lá em baixo na sala. Era tarde já. Perto da meia noite.

-Fiaaa, Fiaaa!

E todas as noites era assim. “Ela quer ir ao banheiro”, pensei. Ouvi minha mãe se levantar como todas as noites, descer as escadas calmamente falando com minha avó:

– Calma mamãe, estou chegando.

Minha mãe a levou ao banheiro, como sempre.

Um tempo depois, ouvi minha mãe aflita chamando pela minha avó. Um chamado triste, sem resposta. Levantei da cama correndo e desci as escadas. Tive tempo apenas de ouvir seus frágeis pulmões se esvaziando por completo. Tomei-lhe o pulso, coloquei meus ouvidos em seu peito ainda quente e notei um silêncio calmo.

– Mãe, ela se foi! – eu disse essas palavras com o coração apertado de dor e saudade. – Deus ouviu as preces dela.

Pedi para que minha mãe subisse, chamasse meu pai que dormia pesadamente. Queria levá-la rapidamente para o hospital, “quem sabe eles revertam isso”, eu pensei de forma egoísta. Arrumei o pijama perfumado dela. Cobri seu corpo para não esfriar. Meu pai desceu já pronto. Me troquei. Peguei minha avó no colo pela última vez. Coloquei seu corpo quentinho no banco de trás e deitei a cabeça dela em meu colo.

-Pai, sabe, ela foi uma guerreira. Que vida, que história. Que mulher. – disse isso a meu pai enquanto ele dirigia, me olhava pelo retrovisor e minha mãe, ainda aflita, soluçava ao lado dele.

Lá no pronto socorro, os médicos vieram rápido com uma maca fria. Rapidamente a colocaram ali e levaram para dentro. Depois de cinco minutos voltaram e disseram: – Sim, ela se foi.

Só me lembro de ouvir minha mãe chorar baixinho.

Por isso, respeito as mulheres. Por essas histórias. Respeito as mulheres pela sua força, coragem, por tudo isso, pois elas dão a vida delas por nós, assim como nós damos as nossas a elas. Mas elas é que, verdadeiramente, nos deram a chance de estarmos aqui, nos deram a oportunidade também de vivermos as nossas histórias da vida real!

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