Chegou a hora de desescolarizar o ensino?

Another Brick in The WallConta-se que por volta de 1600 DC, um homem chamado Jan Amos Komenský (Comenius em latim) resolveu realizar algumas modificações na educação da idade média e criou um método onde a frequência dos alunos nas escolas fosse obrigatória. Isso é semelhante, de fato, com as escolas como a conhecemos hoje e , claro , como não podia deixar de ser, esse método foi um prato cheio para que as escolas fossem usadas politicamente por governos de todos os tipos. Antes disso, só procuravam o saber e o conhecimento, as pessoas que verdadeiramente o desejavam. Havia o estudo das Artes Liberais que eram oferecidos pela igreja e os ofícios que vinham tradicionalmente das famílias e seu trabalho secular. Hoje, no mundo todo a educação é um direito das pessoas, É o que diz nossa constituição. mas, em muitos países, caso os responsáveis não matriculem seus filhos em alguma escola, poderão ser sumariamente processados e poderão até serem detidos pelo estado que não hesitará em usar o código penal contra a evasão escolar.

             O pesquisador e psiquiatra Lyle H. Rossiter  escreveu um livro (A mente esquerdista) sobre a mente e o comportamento humano regulado por ideologias políticas de esquerda. O Dr Rossiter mostra quão complexos são os padrões que uma criança adquire na primeira infância quando submetidas a distorções educacionais. Mas o que o Dr. Rossiter afirma é que esses padrões são adquiridos dos pais verdadeiros ou substitutos e que a criança os levará para o resto da vida delas. Esses padrões vem principalmente da mãe. Então, essa relação bebê/mãe é de fundamental importância para a formação da personalidade do ser. É ela que formará a personalidade do indivíduo e poderá estabelecer como ele irá lidar com a realidade do mundo em que vivemos. Dependendo dos padrões adquiridos, basicamente uma pessoa poderá lidar com a vida, ou de forma ativa e responsável ou de forma vitimista e dependente, entre outras variações. Então, um indivíduo que tem responsabilidade, sabe que sua liberdade estará diretamente ligada ao seu esforço pessoal para vencer as dificuldades da vida, seja nos estudos, seja no trabalho. Já os dependentes, culparão sempre os outros, seja o professor, a mãe ou o pai pelo sua incapacidade de saber mais sobre si mesmo ou pela simples falta de vontade em agir. Sempre será um dependente, seja do estado protetor, ou de uma droga que alivie a dor da vida ou dependente de uma ideologia que facilite a vida dele ao máximo. O mais interessante é que muitos pedagogos, educadores, políticos, sabem disso. Os governos sabem disso, por isso, usam a escola para seus propósitos mais mesquinhos.

                    Ivan Illich sugere que as escolas são, de um lado, instrumentos de engenharia social estatal à serviço de interesses políticos ideológicos e de outro instrumentos de captação de alunos/clientes para oferecer a possibilidade de ascensão social a seus clientes. Ninguém tem mais o direito de NÃO IR para a escola tradicional. Quando o aluno entra no sistema de ensino, a percepção é que ele nunca será cobrado a se esforçar de verdade. Todos os alunos, até certo ponto, sabem que NUNCA serão reprovados, seja no ensino público ou particular. Qualquer esforço adicional que você impõe ao aluno, caso ele estude em escolas particulares, ele ameaça veladamente professores e diretores dizendo que (SiC): ”- eu é que pago o seu salário professor”. E, caso estude em escolas publicas (SiC) “- professor, você, nem ninguém, manda em mim”. E quando essa cobrança vem dos pais para os filhos, então um problema familiar se estabelece. Qualquer referência ou tentativa de disciplinar o aluno a respeitar códigos de conduta e regras sociais é prontamente desencorajada em nome de uma “construção do conhecimento”. Em nome de uma guerra à opressão social e familiar. Crianças, na maioria dos casos, são curiosas, geniais, comunicativas e adoram por a mão na massa quando elas têm vontade. Em minha experiência com o ensino de várias crianças e jovens, incluindo meus filhos, percebi que elas podem aprender, e muito rápido, se deixadas a explorar o mundo que as cercam, desde que elas tenham vontade e seja aquilo que elas querem. Mas, o que muitos se esquecem, não é apenas o que as crianças querem, mas o que elas de fato precisam aprender, e isso é o que realmente importa. E para que o aprendizado ocorra, é necessário que quatro elementos fundamentais brotem do indivíduo: vontade, disciplina, coragem e dedicação.

              Crianças , normalmente, gostam muito de se sentir sem limite algum, mas elas não tem maturidade suficiente para agir conforme suas vontades infantis, então em seu âmago clamam desesperadamente por limites e atenção. Por isso, é necessário que elas tenham uma rotina diária de incentivos às suas ações volitivas e de aprendizado que devem ser orientadas por pais e professores todo o tempo e devem sempre ser validadas e encorajadas a continuarem  a fazer suas perguntas e mostrar descobertas. Mas o que é preciso entender é que para que o conhecimento e o aprendizado correto ocorra e seja válido é necessário seguir determinados métodos. Ela precisa ser estimulada a entender a natureza daquilo que aprende e o que ela deve fazer para fixar todo esse conhecimento em seu cérebro de forma correta e duradoura sob o ponto de vista científico.

Uma criança leva aproximadamente 8 anos para falar a língua mãe de forma articulada, sempre baseada no que ouve de sua mãe, pai e pessoas mais próximas. Ela aprenderá a falar o português dessas pessoas, mas ela jamais será capaz de entender a lógica da sintaxe gramatical correta por si mesma se não se esforçar e estudar ativamente sua língua mãe durante décadas sob a orientação de professores de língua portuguesa sérios e engajados com a língua falada e escrita de forma correta. Os alunos jamais entenderão por si só que aritmética e álgebra são ferramentas que eles usarão para o resto da vida e que só aprenderão com muito esforço e por vezes por enfadonhos processos repetitivos iniciais (vide a tabuada), mas que os ajudarão no raciocínio lógico para os estudos científicos e filosóficos futuros, ou simplesmente para não serem enganados na mercearia do bairro.

              Segundo Illich, cada vez mais nossa sociedade se torna super complexa. As tecnologias caminham junto com as sociedades e estão cada vez mais desenvolvidas, então não podemos mais admitir que um jovem de 16 anos não saiba como funciona a lógica matemática na multiplicação, não saiba entender a relação lógica entre um texto de filosofia e um programa de computador.

                  Muitos alunos sempre fazem a clássica pergunta: – Professor, por que temos que aprender isso, se nunca vou usar essas fórmulas? A resposta é simples: Da mesma forma que seu jogador de futebol favorito aprende nos treinos as jogadas, e as treina, treina para fazer os mais belos jogos e gols para seu time. Aprende-se isso para a vida! Você estuda isso para dar continuidade ao legado que nossos antepassados nos deixaram. Você entende a responsabilidade que é isso? Você não está aqui nesse mundo a passeio. Quando você vai na academia, você exercita todos os músculos do corpo, principalmente os que você acha nunca usará, apenas para estar preparado para um torneio ou competição, estudar é a mesma coisa.

                 Existem casos de alunos que nada sabem, nada aprendem, se esforçam pouco e passam raspando no “conselho de classe” em escolas de médio e alto nível em São Paulo. Sem generalizar, o que parece é que esses conselhos de classe nada mais são que um sistema para evitar a perda de alunos pagantes (clientes) e para evitar um possível conflito com os pais caso haja uma reprovação. A escola particular, então, vira refém do mercado (dos pais pagantes e dos alunos). Os alunos, inteligentes que são, sabem disso e se aproveitam para iludir pais e professores e fazem o esforço mínimo apenas para seguir adiante, mesmo sem entender os detalhes importantes de uma determinada matéria. Os pais, vendo que seus filhos são aprovados, mesmo com um desempenho ruim, ficam até certo ponto satisfeitos, pois investiram uma fortuna durante todo o ano letivo e não querem perder isso. Os alunos ficam bem satisfeitos, pois apenas passaram de ano e a escola fica feliz, pois garante matrículas para o ano seguinte, mantendo assim seu equilíbrio físico- financeiro saudável.

             Na escola pública, como é sabido, os alunos passam de ano sem esforço, os professores jamais confrontam o aluno exigindo disciplina, pontualidade e esforço, pois sabem que podem ser processados e ou agredidos (por alunos e pais) e os pais mais desavisados e sem tempo ou sem recursos, acham que, com os filhos na escola, o problema da educação deles está definitivamente resolvido. Os alunos espertos, apenas são os que se esforçam um pouco mais.

              Ledo engano achar que está tudo resolvido, sabemos também que muitos professores tem incrustados em seu pensamento uma mentalidade ideológica que vem sendo formada há mais de cinco décadas. Os professores são dependentes desta ideologia e mentalidade em sua grande maioria e são pressionados por escolas e governos para não reprovar alunos desinteressados em nome de uma coletividade oprimida imaginária.

                Os fatos apresentado por Illich mostra que os alunos precisam entender que sem um esforço pessoal individualizado e força de vontade, não há como obter sucesso nos estudos e na vida. Eles precisam entender que existem os professores bons e que são uma parte fundamental no processo e suas soluções, mas existem professores ruins e que são parte do problema. Sertillanges em sua obra “A vida intelectual” nos ensina que alunos precisam saber que estudar é uma vontade individual que vem do âmago de sua alma. Vem deles o processo volitivo para empreender uma ação positiva em busca da verdade e do saber genuíno. As discussões sobre os modelos de escola, luta de classes, currículos, métodos pedagógicos etc, não passam de uma cortina de fumaça para encobrir a verdadeira raiz problema. Como disse o Prof. José Monir Nasser em uma palestra sobre o Trivium: “A escola só serve como elevador de ascensão social ilusório e como instrumento político. Escola, infelizmente, não educa ninguém que não queria ser educado e não ensina ninguém que não queria saber a verdade.O que é o aprendizado se não uma constante repetição voluntária ou involuntária de termos e palavras, expressões e números? Tem certas coisas que não tem como aprender se não estudar até marcar no cérebro. É como fazer um carimbo que é impresso na mente. E isso deve ser feito de forma sistemática e inteligente. Não existe aprendizado sem esforço, sem disciplina, sem dedicação, sem coragem e principalmente sem amor ao saber”.

               Podemos até questionar o formato de salas de aula, currículos, pensadores e pedagogos etc., mas não podemos negar o fato de que, para aprender efetivamente é necessário sempre um esforço a mais de quem estuda. Não existe simplesmente o aluno construir seu saber por sí, assim do nada, levando em consideração apenas que sua condição social será o catalisador que fará ele entender a realidade ipso facto. Isso não é aprendizado acadêmico científico e jamais será, isso pode ser verdadeiramente, outra coisa.

                  Illich acredita que o melhor é ajudar os alunos nas questões que incentivem uma vida de ação ao invés de uma vida de consumo ou prazeres efêmeros. Referenciando-se a Miguel Sgarbi PACHIONI, ele diz que “Illich: “crê na capacidade do ser humano em produzir um estilo de vida que propiciará sua espontaneidade e sua independência ao invés da manutenção de um estilo de vida restrito apenas ao fazer e desfazer, produzir e consumir”.

              Portanto, seria mais sensato que soubéssemos fazer os alunos aprender a escolher entre o ser ao invés do ter e não apenas depender somente do método mastigado de escolarização atual, e sim buscar um relacionamento educacional entre o ser humano que é, e a realidade que o cerca.

Illich apresenta três ideias para um bom sistema educacional:

  • Facilitar o acesso aos recursos necessários para o aprendizado daquilo que se queira efetivamente aprender (de forma prazerosa);
  • Capacitar aqueles que queiram partilhar seus conhecimentos e possibilitar que os demais interessados neste saber os encontrem;
  • Dar oportunidade aos que queiram tornar públicos seus conhecimentos para que seus desafios sejam conhecidos.

           Neste contexto, até a tecnologia poderia estar tanto à disposição do ensino burocrático, onde temos um docente que apenas lida com os documentos a serem preenchidos, como a serviço da autonomia e independência de alunos e professores. Concordo com Illich quando ele propõe abordagens que possibilitam aos estudantes acessar recursos para traçar suas próprias metas de aprendizado: Usar a gestão de projetos reais da vida real para reforçar um aprendizado para uma sociedade inventiva e criadora, como ele mesmo diz: “que se relacione com a natureza (essência) das coisas e não por suas aparências (industrializadas)”, é necessário disponibilizar dispositivos tecnológicos e seus processos, dar ao aluno a oportunidade de assumir sua responsabilidade pelas ações que tomar em sua vida.

          Importante é que entendamos que o compartilhamento de conhecimentos e habilidades sendo elas formais ou não sejam incentivados. Isso não pode ser limitado e medido apenas por certificados e diplomas emitidos, pois estes podem tirar a liberdade de educação à medida que confinam o conhecimento, tiram a liberdade individual pela busca de determinados conhecimentos. É importante entender que, com a tecnológica atual já estamos possibilitando o encontro de pessoas com interesses específicos, sejam eles quais forem, e eles estão se complementando. Essas redes de comunicação propiciam a oportunidade do indivíduo de se fazer ouvir em diversos grupos; se pudermos incentivar a mistura entre o que temos aprendido e o que muitos aprenderam com a experiência de vida, poderemos buscar novos conhecimentos mais como uma forma de lazer, será uma forma prazerosa de ensinar e aprender. E assim, poderemos criar uma relação mais próxima entre pais, professores e alunos e, com isso, viabilizaremos trazer de volta a humanização das relações neste processo politizado, padronizado e rígido no qual o ensino atual ainda descansa.

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2 comentários sobre “Chegou a hora de desescolarizar o ensino?

  1. leonardomalves junho 15, 2017 / 9:29 pm

    Interesse o post. O desafio de Illich para desburocratizar a educação deve ser considerado seriamente.

    Uma correção. Comênio não foi o inventor da educação compulsória. Aliás, a agoge, a educação compulsória já era praticada em algumas pólis grega, como Esparta, na Antiguidade. No Ocidente, educação primária, pública e com presença obrigatória começou por volta de 1530 em vários estados alemães. Por fim, Comênio foi um cultor das artes liberais, tratando dela em sua Didática Magna.

    • Cesar Manieri junho 19, 2017 / 1:30 pm

      Obrigado pelo comentário pertinente Leonardo! Você tem razão quanto ao Comênio.

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