A inveja no Brasil é cultural. Um exemplo real.

 

Allianz_Parque_-_Palmeiras_Campeão_Brasileiro_de_2016Essa semana, por causa da polemica da final do campeonato, eu assisti a um vídeo de um dirigente de um grande clube de futebol da cidade de São Paulo dizer que “não se ganha campeonato se não for roubando”. Meu filho de 11 anos, que observava esse vídeo junto comigo, ficou assustado. Foi aí que iniciamos uma interessante conversa:

– Por que esse homem falou isso, papai? Foi por causa do jogo de domingo?

Como explicar uma excrescência dessas a uma garoto de 11 anos de idade e que adora futebol e não entendeu bem por que as regras do jogo não foram respeitadas. Como explicar essa “frase de efeito” e que foi dita por um dirigente famoso, líder e referência de uma grande comunidade esportiva.

Comecei explicando a ele:

Filho, a situação politica em que nos encontramos é fruto da falta de noção da realidade do nosso povo. O que esse dirigente disse foi algo totalmente errado e reprovável. Ele, provavelmente falou isso por ‘brincadeira’ ou talvez estivesse bêbado. Mas, infelizmente isso não muda o fato de o dirigente ter uma certa razão no que disse. Afinal, esse é o pensamento geral do brasileiro. Olha só, vou te contar uma história: Nos anos 70 teve uma propaganda de cigarro que ficou conhecida como a “Lei de Gerson”. Esse  Gerson foi um grande jogador de futebol e fazia a propaganda de uma marca de cigarros chamada Vila Rica. A Lei de Gerson postula que todo brasileiro que supostamente fuma essa marca de cigarro “sempre gosta de levar vantagem em tudo”. E como o brasileiro tem essa característica, a marca vendeu seus cigarros como nunca.

-Vantagem? Por que, nós brasileiros, gostamos de levar vantagem em tudo?

-Porque somos um povo culturalmente invejoso, não poderia generalizar, mas essa é a nossa natureza. Infelizmente é essa a nossa realidade. O brasileiro, diante de sua incapacidade de criar algo de positivo para si mesmo, inveja os poucos que conseguem um determinado sucesso na vida profissional ou na vida intelectual verdadeira. Essa é a tônica do sentimento do brasileiro comum. E quando eles tem a oportunidade, passam a perna nas outras pessoas ou invalidam suas ações positivas para se sentirem bem ou ganharem algo com isso.

– Mas pai, como é possível que a inveja do sucesso dos outros seja a tônica no sentimento do brasileiro comum?

Porque, grande parte do nosso povo odeia o sucesso alheio. Principalmente se for um sucesso baseado em ações honestas e lucrativas. Ganhar ou perder é do jogo, filho. Faz parte. Mas o pensamento geral é que sempre é mais fácil destruir um trabalho bem feito, bem planejado, do que construir um trabalho sólido e deixar um legado para as futuras gerações. Deixar um legado é algo que leva uma vida inteira. Devido a grande incompetência geral do nosso povo, formada em decorrência da péssima estrutura educacional brasileira e da falta, em grande parte, de estrutura familiar e moral decente, o brasileiro se sente incapaz de buscar sua elevação espiritual, social e financeira e se sente mal quando percebe que alguém foi mais longe que ele e conseguiu resultados concretos em seus empreendimentos. Por isso, foi mais dolorido que de costume essa derrota em uma situação tão inacreditável como foi nessa final.

-Ainda não consegui entender pai, me de um exemplo real, por favor.

– Olha só, sempre fomos um clube de muitas vitórias. Mas nos anos 80, nosso clube de futebol preferido era motivos de piadas. E com razão. Era financeiramente falido, montava esquadrões de péssima qualidade, não ganhava jogos, muito menos campeonatos. O pensamento geral de nossa torcida era um pensamento vitimista e derrotado. Então, nos anos 90, homens inteligentes que gostavam de futebol e do nosso clube, fizeram um acordo com uma empresa e montaram um sistema de gerenciamento do departamento de futebol extremamente profissional. Era algo inédito e exclusivo. Levou um certo tempo para a coisa engrenar. Normal. Por isso, muitos disseram que não daria certo, mas logo os frutos começaram a aparecer. Ganhamos partidas, depois ganhamos campeonatos seguidos, eramos um dos maiores clubes de futebol da América do Sul. Mas, até hoje, muitas pessoas não admitem que foi um sucesso e dizem que foi armado um “esquema” sei lá do que para ganharmos campeonatos. Mas estava claro que ganhamos por pura competência e sucesso financeiro. Esses são os invejosos que não aceitam e nem entendem o sucesso alheio. Um dia essa parceria infelizmente acabou, tudo voltou na mediocridade como era antes e muitos de fato comemoraram sabendo que isso colocaria o clube em uma situação muito difícil. Voltamos a era da incompetência e fomos rebaixados duas vezes. Isso você já sabe.

-Mas não entendo, pai, por que muitos preferem e torcem pela mediocridade?

É uma questão complexa filho. A inveja está relacionada ao pensamento da escassez de recursos, por medo e pela incompetência pessoal. O brasileiro comum pensa que se ele está pobre é só porque alguém está rico e esse rico se apropriou indevidamente do seu pedaço de riqueza, trabalho e recursos. Então, esse ser pensa que essa riqueza poderia e deveria ser distribuída igualitariamente entre as pessoas. Outros torcem para que a mediocridade se estabeleça para subtrair dinheiro das entidades que eles lideram, sejam elas pública ou privada.

-Deixa eu ver se eu entendi: eles querem destruir quem gera a riqueza ou se mostra competente em suas áreas para colocar todo mundo no mesmo patamar de pobreza?

Exatamente! Olha só, veja o que houve na final do campeonato. Uma confusão maluca. Isso aconteceu por que as autoridades descumprirem determinadas regras já acordadas pelos participantes. Com isso, nosso clube perdeu a partida e o outro se sagrou campeão. Alguém vencer e se sagrar campeão é algo absolutamente normal. O problema é que por causa da confusão criada e a partir deste ponto é que começou um massacre da narrativa do rico e poderoso que já se achava campeão e foi derrotado pelo mais humilde. Mesmo sendo uma mentira isso. Alguém usou de sua prerrogativa de “autoridade” para alterar uma decisão tomada com muita convicção por um juiz e que jamais poderia ter sido alterada naquelas circunstâncias e isso abriu as portas para uma série de ataques invejosos, maliciosos e maldosos se iniciarem. A tiração de onda por parte dos rivais é algo saudável no futebol, mas em cima de um fato ilegal é que assusta.

-É foi ridículo, mas o que isso tem a ver com a riqueza em si?

Bem, depois que fomos rebaixados no início dos anos 2000, algumas pessoas de alto poder aquisitivo e que gostavam do clube, viram que poderiam trazer os anos de glória novamente. Perceberam que o clube tinha um capital humano imenso. Existia a possibilidade de transformar esse clube em um produto altamente rentável e ao mesmo tempo ter um time extremamente forte juntamente com a maior e mais moderna arena de shows e espetáculos da América Latina. Então, essas pessoas sanearam financeiramente o clube e começaram a montar uma estrutura de trabalho digna de qualquer clube europeu. Sabe esses clubes internacionais que todos “babam o ovo”? Barcelona, Real Madri, Bayern, Liverpool, etc? Essas pessoas resolveram pensar grande igual aos dirigentes desses clubes europeus. Quem sonha grande, consegue resultados grandes. Pois é, nosso clube pensa assim agora. E esse tipo de pensamento causa muita inveja nos incompetentes. Muitos torcem para que isso não de frutos. Mesmo dentro do próprio clube. Eles torcem o nariz para os que buscam ser excelentes no que fazem. Essa visão moderna e de geração de riqueza causa inveja a muita gente sem capacidade de entender a realidade. essa gente torce de verdade que a mediocridade vença a competência.

-Mas pai, eu quero ver meu time ganhar título sempre, todo ano.

Todos os torcedores de todos os times querem que seus times do coração ganhem, filho. E isso nada tem de errado. Mas o problema é que eles querem apenas os fins, ou seja, querem apenas ser campeões, não importando quais os meios usados para isso. Muitos se endividam e dão o passo maior que a perna. Outros, com essa confusão mental do povo, aproveitam e roubam o clube e destroem seu patrimônio, outros para agradar políticos fazem negociatas, usam de meios escusos e sua influência para mudar resultados e ganhar campeonatos. Usam sua influência política para construir seus estádios privados usando dinheiro público. O povo brasileiro, que adora adora futebol, não liga pra isso e ainda apoia esse tipo de “gestão”, afinal se o time de coração for campeão tá tudo certo. Isso é levar vantagem. É o pensamento imediatista, vitimista e socialista que os impedem de ver a realidade. Ainda por cima, criticam os clubes que querem se tornar verdadeiramente grandes, ricos e vencedores. A maioria dos torcedores não tem paciência de esperar o momento de colher os frutos. Preferem criar a confusão e o caos em nome de uma conquista pequena e torcem para que os gestores sérios se deem mal e percam tudo que construíram. Inventam histórias dizendo que boa gestão não ganha campeonato. Mas filho, torcida também não ganha campeonatos. Brasileiro, além de invejoso, quer resultados imediatos e se eles não aparecem, os torcedores ameaçam de morte todos os “responsáveis”, culpam jogadores, destroem o patrimônio do clube. Não entendem que conquistas sólidas e honestas demandam anos e anos de trabalho duro. Isso vale para todas as esferas da sua vida. Torcedores reclamam que agora o time está rico, mas que o ingresso é caro e elitizou o esporte. Antigamente, reclamavam que o estádio não tinha banheiro e eram tratados como gado e levavam copo de mijo na cabeça. Ora, filho, esse esporte é composto por torcedores apaixonados, entenda que futebol é um negócio como outro qualquer. Lei da oferta e procura. Nosso clube tem milhões de torcedores apaixonados só aqui na capital. O nosso estádio tem apenas 40 mil lugares. Todos esses milhões de fãs ardorosos querem ir aos jogos. É obvio que um ingresso vai custar caro. Se chegarmos a final do campeonato, quanto você acha que vai custar o ingresso?

-Caríssimo né pai?

Sim, filho. Quando tem show de artistas internacionais na arena, os ingressos custam o olho da cara e lota. Veja, só nos últimos três jogos na arena, nosso clube arrecadou mais de 11 milhões. Isso é muito bom. Saudável. Nós não vamos aos jogos porque é realmente caro, tem prioridade de compra quem é sócio torcedor e patrocina o clube. Nós, no momento, temos outras prioridades. Mas, um dia desses podemos nos programar e ir se tiver ingressos disponíveis e pudermos pagar. Se o time tá mal, o torcedor não vai. Capitalismo é assim mesmo. Uma vez fui ver um jogo da Liga dos Campeões e o ingresso custou 50 EUR. Faça as contas… Times de futebol precisam de tempo para se tornar um time de verdade. Técnicos precisam de tempo para fazer isso. E tempo é coisa que torcedor não quer negociar.

-Mas será que seremos campeões? se o time jogar bem…acho que sim…

Bem, isso é uma questão de tempo. Não é uma questão de “será”. É estatística. E tem outros fatores que influenciam. Mas matematicamente posso dizer que quanto mais campeonatos disputarmos e com chances de ganhar, mais ganharemos. Logo as coisas vão se encaixar e você vai ver o fruto do bom trabalho aparecer. O pensamento vitimista do povo sempre vai colocar as coisas de forma distorcida na discussão meu filho. Mas são argumentos pueris. Acabamos de “perder” um campeonato em casa. Realmente foi chato, mas em que condições? Arrumaram uma confusão danada e então criaram a narrativa do “time gigante e rico das Perdizes”, o que tem melhores contratações caiu diante do mais “fraco”, da “quarta força”, dos “coitadinhos”, do time do “povão da periferia”. O clube do povo que não tinha e agora tem um estádio graças a um financiamento impagável e que foi um presente do ex-presidente do Brasil. Veja só: o titulo “conquistado” foi um presente para o ex-presidente do Brasil que está “injustamente” preso por corrupção. Todos eles são vitimas do capital opressor, mas que superaram os poderosos malvadões e porcos capitalistas. Ao mesmo tempo que tripudiam o trabalho sério falando bobagens nas redes sociais, mostram toda sua inveja sem saber que a possuem. Mas isso é medo do rumo que as coisas estão tomando. Não tem mais volta filho. O nosso time vai investigar o que aconteceu e que foi o responsável pela influência externa ao campo de jogo. É uma questão séria. Se as instituições não forem sérias e tudo for um jogo de cartas marcadas, o publico se afastará naturalmente do esporte. Não podemos abaixar a cabeça para o desrespeito às leis filho. Agora é apenas uma questão de tempo para subirmos definitivamente o nível geral desse país. Chegou a hora de deixarmos os medíocres em seus devidos lugares. Tem que apurar de verdade por que criaram toda a confusão com o juiz da partida. Não importa, não são os títulos duvidosos que queremos. Queremos é seriedade neste país para fazer valer os investimentos que estão sendo feitos por um monte de gente séria. Em breve, seremos nós que vamos deixar alguns rivais bravos, mas só porque perderam o jogo para o melhor, outros nós deixaremos chorando na prisão. E quem trabalhar sério, colherá os frutos. E certamente isso será bom para o país. Só assim vamos deixar o Brasil em uma condição em que todos que vivem aqui ganharão.

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