Os professores brasileiros são medíocres? E dos alunos, ninguém diz nada?

1111a-day-in-the-life-of-a-connected-teacherPor Maicon Tenfen

Por mais brilhante e preparado que seja um professor, ele não irá longe sem o apoio da coordenação da escola, o auxílio dos pais e a disciplina dos alunos.

No seu mais famoso sermão, o da Sexagésima, proferido na Capela Real de Lisboa em 1655, o Padre Antônio Vieira parte de uma criativa interpretação da Parábola do Semeador para constatar que a palavra de Deus não faz fruto entre os homens.

Por que isso acontece?, pergunta-se o padre.

Porque tem algo errado, óbvio.

Mas O QUE exatamente está errado?

A partir dessas questões, o pregador dá uma antológica aula de lógica comparativa:

— Para um homem ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. (…) O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?

A resposta é a que se espera de um padre: Deus é perfeito, logo não pode faltar; os ouvintes são ignorantes, logo não adianta culpá-los; resta pôr a culpa no PREGADOR, que fracassa por enfeitar demais o discurso, por falar com voz inadequada, por não dar bom exemplo etc.

Daí em diante, na busca de soluções para que a Boa Palavra frutifique na terra, Vieira dá dicas de como proceder para realizar um bom sermão.

“E saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto”, conclui o jesuíta.

A esmagadora maioria das assessorias públicas de educação se limita à premissa que sustenta o Sermão da Sexagésima. Troquemos Deus por conteúdo, ouvinte por aluno e pregador por professor. Quem é o culpado pelo fracasso do sistema educacional brasileiro? O professor, lógico, por isso ele deve aprender a se comportar assim ou assado para apascentar as feras que estão na sala e milagrosamente promover o conhecimento.

Há alguns anos, quando um colega professor começou a dar aulas num colégio particular, alguém da turma perguntou em “marxismo vulgar” se ele agora se dedicaria a limpar as bundas dos filhos da burguesia.

— Claro que sim — respondeu o espirituoso colega. — Do mesmo modo que vocês vão limpar as bundas dos filhos do proletariado.

Apesar do tom jocoso, ele estava expressando um descontentamento presente entre os velhos e os novos membros do magistério. Já naquele tempo, todos sabiam que, independentemente de a escola ser pública ou privada, o paternalismo pedagógico e a “alunocracia” são gerais. “Limpar a bunda” é apenas uma expressão mais direta para aquilo que nas salas de professores se conhece por suportar a indisciplina enquanto a coordenação “passa a mão” na cabecinha dos baderneiros.

Quando um estudante não faz a tarefa ou bagunça uma aula inteira, existem mil e uma formas de explicar o que aconteceu: é muito pobre (ou é muito rico!), os pais não lhe dão atenção (ou é sufocado por uma mãe superprotetora), sofre do Transtorno X (ou do Transtorno Y), é uma vítima dos meios digitais (ou lhe falta acesso à internet) etc, etc. Em vez de encararem a realidade de que, na maioria dos casos, o aluno indisciplinado se aproveita das colheres de chá da chamada pedagogia moderna, os psicopedagogos criam nomenclaturas complexas para justificar a preguiça e o desrespeito.

E muitos pais caem no conto sem a menor necessidade. Alguns chegam a admitir a incapacidade dos próprios filhos e, em vez de exigir empenho, entregam tudo nas mãos… de Deus? Não, dos professores. Estes, por sua vez, a partir do momento em que percebem o tamanho da armadilha — serão responsabilizados pelo fracasso de toda uma geração! — passam a jogar conforme as regras não escritas do jogo. É quando surgem as provinhas moleza, as notas gratuitas, os infindáveis trabalhos de recuperação…

Ninguém precisa tirar diploma em Harvard para perceber que a lógica do Sermão da Sexagésima não cabe na educação brasileira, pelo menos não com a displicência das secretarias de educação. Por mais brilhante e preparado que seja um professor, ele não irá longe sem o apoio da coordenação da escola, o auxílio dos pais e a disciplina dos alunos.

Os alunos, a propósito, deveriam ser incentivados a estudar pra valer. Deveriam, no mínimo, aprender a limpar as próprias bundas.

Anúncios

3 comentários sobre “Os professores brasileiros são medíocres? E dos alunos, ninguém diz nada?

  1. O Boneco Palestrino julho 13, 2018 / 4:00 am

    Ah tudo bem amigo, boa sorte

  2. O Boneco Palestrino junho 20, 2018 / 11:41 pm

    e ai amigo abandonou o tt?

    • Cesar Manieri junho 21, 2018 / 12:38 am

      Opaaaa! Tudo bem Boneco??? Dei um tempo por conta do meu mestrado. Em Julho vou voltar! abraços!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s