O pedantismo barato do eruditismo com seu monóculo.

monoculoRecentemente postei um vídeo no Youtube para meus alunos onde falo sobre o Teorema da Incompletude do Matemático Kurt Göedel . Fiz o vídeo pensando em usá-lo com meus alunos do ensino médio, por isso usei palavras simples para me fazer entender.

É um assunto fascinante, mas espinhoso. Falo de lógica, da criação do universo, da finitude da matéria, do tempo e do espaço,  das lacunas da realidade e da matemática que a ciência não consegue fechar. Falo de coisas complexas que quase ninguém está interessado saber. Falo principalmente, e deixo bem claro neste vídeo, sobre a minha fé em Deus ao explicar essas coisas, pois creio que sem Ele a ciência jamais será completa. E é disso que o Teorema da Incompletude trata.

Todas as vezes que vou postar um vídeo, eu tomo muito cuidado. Eu me desgasto tremendamente pensando em como transformar um assunto extremamente complexo e chato em algo simples e fascinante. Tentar fascinar as pessoas com assuntos chatos e entendiantes é uma das minhas tarefas. Afinal, estou me tornando um professor e isso é um exercício extremamente salutar se eu quiser atingir meus objetivos na área da docência.

Para minha surpresa, recebi alguns Feedbacks interessantes. Muitas pessoas ficaram felizes com minha explicação. Me agradeceram pela simplicidade da explicação que eu dei. Mas outras pessoas que, do alto de sua sabedoria e erudição, disseram que um professor, um matemático e conhecedor da lógica, jamais poderia usar “vícios de linguagem” tais como o de iniciar uma frase com “Na verdade…”  para me expressar, pois isso não é de bom tom para homens como eu e que isso causa certa estranheza.

Ora, mas minha proposta é exatamente essa. Tratar de forma mais simples possível assuntos espinhosos da matemática e da física. Quero fazer as pessoas entenderem, de forma simples e clara, coisas que aparentemente são complexas e difíceis. Quando estou falando, não fico pensando se vou usar essa ou aquela oração gramatical. Se é subordinada adverbial causal ou se é um aposto ou um vício de linguagem. Apenas falo com meu coração e procuro errar pouco, reviso o que falo, corto, regravo o que entendo serem erros evidentes.

Estou escrevendo minha dissertação de mestrado e sei o quanto é importante usar bem a língua portuguesa. Isso é importante para que todos que participarem da banca examinadora entendam minha linha de pesquisa de forma clara e sem dúvidas elementares. Morrerei de vergonha se em minha dissertação aparecer algum erro crasso, erros de lógica ou coerência, ou ainda pior, algo parecido com plágio. Por certo, contratarei os serviços de um revisor de texto profissional e passarei meu trabalho por um severo filtro anti plágio e gramatical para evitar problemas e para que minha dissertação fique impecável.

Agora, quando converso com meus alunos, com minha mãe, meus filhos, minha esposa, com o rapaz da banca de batatas na feira, com o papagaio do meu aluno, ou com minha câmera, procuro ser eu mesmo, com meus vícios de linguagem e minhas falhas de aprendizagem da dificílima língua portuguesa.

Procuro sempre estudar e me manter atualizado. Aprender nunca é demais. A linguagem falada de forma coloquial não necessariamente necessita ser assim tão rígida gramaticalmente. Claro que devemos falar de forma correta respeitando a gramática mais elementar, mas a linguagem deve, antes de tudo, ajudar a comunicar uma ideia de forma clara para que todos compreendam o seu pensamento, sem ruídos ou ma interpretação. Penso que na linguagem escrita, devemos a todo custo seguir as regras básicas da gramática e da norma culta. Isso é dever de todos. Por isso, sempre tento evitar ao máximo atingir o pedantismo vazio da completa erudição na oralidade. Isso, de certa forma, arrefece a minha vontade de comprar um monóculo e usá-lo apenas para parecer um culto, um pedante e espantar os poucos alunos que ainda me procuram para aprender alguma coisa de útil.

* César Manieri (55),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e “Educação Clássica” . É autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

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