Uma história no mínimo maluca.

busPeguei o ônibus na Rua dos Patriotas. Surpreendentemente o “latão”, como eu costumo chamar esse meio de transporte, estava relativamente vazio. Olhei à minha volta para ver se havia algum lugar para eu me sentar e vi um lugar vazio ao lado de uma senhora. Como o assento era reservado para pessoas com necessidades especiais e idosos resolvi ficar de pé antes de passar pela catraca onde cobrador “pescava” sonolento. A senhora que estava ali sentada, falava sozinha como que conversando com algum amigo imaginário. Nenhum passageiro ligava para o comportamento dela. Todos estavam absortos em suas redes sociais. Eu, tenho a péssima mania de observar o mundo ao meu redor.

O motorista, após acelerar vigorosamente, parou de forma brusca no ponto quando uma senhora negra fez o sinal para ele parar. Ela carregava algumas sacolas. Talvez ela havia feito compras no marcado municipal. O motorista, pacientemente, a esperou subir. Assim que ela entrou, após subir pelos degraus com dificuldade, imediatamente colocou suas sacolas sobre o assento vazio ao lado da senhora que conversava com seu amigo imaginário. Aí começou o seguinte diálogo:

– Tire essas coisas dai sua intrometida! – disse a senhora que estava sentada.

– Desculpe! – disse a senhora negra, tirando as sacolas, mas sentando no mesmo lugar sem entender bem o que ela tinha dito.

– Saia daqui sua dissimulada, você cheira mal… – falando com os olhos esbugalhados.

– O que a senhora está falando? Isso é racismo, sabia?- gritou a senhora negra, constrangida com a situação.

– Esse lugar aqui não é seu. – ela disse isso e continuou a balbuciar palavras inaudíveis.

– Eu vou ficar aqui mesmo! – disse a senhora negra confrontando sua oponente.

– Saia daqui, você não ouviu, sua fedida. – falou novamente a velha senhora com a mesma intonação.

Nisso, o cobrador acordou de sua sonolência e do alto de sua autoridade gritou para a senhora respeitar os passageiros.

– Ela não pode sentar aqui. Essa fedorenta. – falou novamente, sem mostrar sentimento.

– Racismo!Isso é racismo!!! Não pode deixar barato!! – gritou um jovem estudante de cabelos desgrenhados que logo se levantou e começou a filmar a cena.

O motorista parou o veículo e pediu rispidamente que a velha senhora intolerante se retirasse do ônibus, pois aquilo não era certo. Os outros passageiros concordaram.

A senhora, com o olhar perdido, ainda conversava consigo mesma.

– Esse lugar não é dela, dessa nojenta. – vociferou olhando para a janela.

Todos naquele ônibus ameaçaram expulsar a velha senhora do ônibus a pontapés. Uma garota com os cabelos meio raspados ameaçou pular a catraca para agredir a velha senhora. A senhora negra, visivelmente constrangida com a situação ficou estática.

– Ninguém desce, “fecha as porta e toca” pra delegacia, motorista – ordenou o cobrador. – racismo aqui no meu carro, não! – completou triunfante.

O motorista colocou novamente o ônibus em movimento. A senhora negra, entendendo a situação, levantou-se e pediu ao motorista que a deixasse alguns pontos à frente ignorando as admoestações da velha senhora. O motorista parou o ônibus alguns pontos depois e a senhora negra desceu pela frente, calmamente, levando suas sacolas, ignorando os gritos de protestos dos passageiros pedindo que ela ficasse e processasse a velha senhora.

Novamente o banco ficou vazio. A velha senhora ainda balbuciava palavras consigo mesma. Nisso, algum tempo depois a calma voltou ao latão. Outras pessoas subiram e uma senhora branca sentou no banco vazio ao lado da velha senhora. E disse com desdém a velha senhora para a senhora branca:

– Saia daqui sua dissimulada, você cheira mal…

 

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