A saga do número 22.02.2002

casamento1Há exatos 16 anos, conheci a saga do número 22. Me casei com a doce Debby no dia 22.02.2002. Escolhemos essa data por ela achar cabalisticamente (seja lá o que isso signifique) perfeita. Foram essas as palavras dela:

-Imagine só? Vamos casar na data cabalisticamente perfeita!!! Que sorte a nossa…

Aceitei na hora casar neste dia quando ela veio com esse argumento irrefutável.

A cerimônia estava marcada para às 20:40, mas atrasou e ela pisou na Igreja a exatos 21:01 (4 = 2+2)

Desde então, essa sequência de números 2, nos “persegue”. Meu filho mais velho nasceu no dia 1.10.2006 às 23:52. (a soma da 22) Já o mais novo no dia 08.12.2010 23:30. (aqui também).

– Só coincidência! – eu falo.

Minha esposa acha que vivemos no “Mundo de Truman”, onde um “diretor” fica pregando peças na gente com o número 22.

Se estamos vendo um programa na TV, lá aparece o 22 na mesa de um bar, ou na fala de um personagem. Poderia ser qualquer número. Sei lá 17, 55, ou até o 7, o mais comum de todos. Mas vira e mexe e está lá o 22. É complicado.

A placa do carro da família do desenho do Gumball é 22. Poderia ser 76, sei lá.

Semana passada, recebi o e-mail da universidade dizendo o dia do início das aulas: Lá estava ele, o 22.02. Imaginei o nosso “diretor” altivo e irônico dizendo:

– Vou estragar o dia do aniversário de casamento dele com essa aula…

Há alguns anos, eu fazia frequentes viagens, em fevereiro, para o exterior. e adivinhem quando era a viagem? Quase sempre no dia 22.02, sim, mas várias vezes foi no dia 02.02 justamente no dia que me casei no civil.

Começamos a brincar com isso quando percebemos a magia do 22 no nosso passado desde que casamos. Foram várias ocasiões em que o 22 apareceu sem aviso na nossa frente. É divertido, pois a saga do número 22 nos faz frequentemente lembrar da data mais importante de nossas vidas.

Ano passado, estávamos passeando com as crianças de carro quando ouvimos o anúncio de um filme chamado “2:22 Encontro Marcado”. Ouvimos atentamente o locutor dizendo:

“- Um homem que tem a sua vida permanentemente mudada quando uma série de eventos se repete exatamente no mesmo horário todos os dias, às 2:22 da tarde. Quando Dylan se apaixona por Sarah (Teresa Palmer), uma jovem mulher que tem sua vida ameaçada pelos eventos ocorridos, ele deve resolver o mistério que o cerca para preservar o amor que a vida lhe ofereceu como uma segunda chance. “

Rimos juntos e juntos falamos: – esse ‘diretor” da nossa vida não brinca em serviço.

Não poderia ter sido 3:33, ou 4:44 da tarde? Não, o filme se refere ao 2:22.

Para nós o 22.2 aparece em todos os lugares, na escola, no parque, no restaurante, nas placas dos carros. Neste último chegou ao cúmulo de acharmos uma placa FEV – 2202…

Pode parecer mentira, mas isso nada tem de extraordinário, é apenas probabilidades e estatísticas. É tipo , quando sua mulher fica grávida, (ou você acha que a SUA namorada está) e você literalmente vê todas as mulheres grávidas da cidade passando por você o tempo todo, fazendo tu lembrar que você será destronado em breve por um bebê rosadinho e chorão e que tomará sua mulher de você e mesmo assim você vai amá-lo loucamente.

O universo é bom, ele faz com que minha mulher e eu nunca nos esqueçamos da magia que o 22.02.2002 trouxe para nossas vidas.

E por falar nisso, que venha 22.02.2022… daqui a 4 anos. Olha só 2 anos + 2 anos = 4 anos. Tenho certeza que esse dia vai ser muito doido! Será nossas bodas de 20 anos. Aí sim faremos um festão. E as bodas de 22 anos? Será no dia 22.02.2024 ou seja 22.02.202(2+2). Melhor ainda, outro festão.

Para os casais apaixonados, que estão pensando em se casar, reservem essa data na igreja mais linda da sua cidade, tenho certeza que vocês jamais se arrependerão de fazer parte da saga do 22.02.2022. Para mim, esses números representam o amor e sempre nos fará lembrar do comprometimento que eu e a Debby tivemos um com o outro de seguir em frente, na alegria e na tristeza na saúde e na doença, na riqueza e pobreza, sempre juntos!

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

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O que a idade madura me trouxe?

20171005_230012Bem, ela me trouxe um monte de dúvidas e um punhado de certezas. Se eu colocar isso em uma balança o ponteiro apontará um pouco mais para as dúvidas.

Trouxe também uma falta de paciência e quase quase nenhuma sabedoria que se espera da senioridade. Pelo menos, para mim, não está sendo como os sábios filósofos de plantão costumam alardear por aí de que essa fase se chama “melhor idade”. Para mim, trouxe a vergonha de ter sido um jovem tolo, como a maioria dos jovens de hoje o são. Sim eu era um tolo e aprendi com meu sábio professor de filosofia que “só os tolos esperam algo deste mundo”, foi o que ele disse serenamente do alto de seus mais de 65 anos, falou isso depois de sofrer a perda de sua filha, que morreu apenas para ele.

A idade me trouxe a realidade e a inexorabilidade da finitude, mas me deu, por outro lado, a beleza da visão da transcendência em Deus e a quietude das paixões desenfreadas.

A idade madura me fez olhar o mundo tal qual ele é. Sem floreios. Sem finais felizes. A madureza, me trouxe a certeza de saber que flagrar um beijo lascivo entre duas garotas lésbicas na porta da escola, não é nem bonito, nem moderno e nem tão atraente quanto nossas fantasias loucas, mas sim tão nauseabundo quanto o pecado. Pelo menos foi assim que eu me senti quando vi esse babaço juvenil na semana passada.

Trouxe a dor de saber que se auto reinventar nessa fase da vida só é bonito, fácil e dá certo nas palestras bem caras dos “Karnais e Cortelas” da vida, e agora entendo porque é que estes “rendezvous” estão sempre recheados de jovens vazios e tolos que aplaudem suas elucubrações filosóficas, falaciosas e óbvias. Essa platéia “nutella” que na verdade nunca experimentou, aparentemente, a dura realidade da vida. Ou se experimentou, busca loucamente fugir dela.

Para mim foi simples assim:

– Você está sem energia meu caro, pode ir pra casa, reinvente-se. Pois é amigo, seja feliz e obrigado pelos serviços prestados nestes últimos 30 anos!

Depois disso, foram várias invencionices. A mais louca foi voltar aos bancos escolares e descobrir que minhas sinapses ainda funcionam bem, mas a área de armazenamento está quase sem espaço útil, espaços que foram preenchidos com as tolices da meninice e com a cegueira do materialismo e de hedonismo barato. Com isso, sem espaço, loto cadernos e mais cadernos com etiquetas na capa onde escrevo “ajuda memória”. Eventualmente, tento apagar essas tolices inúteis que povoam meus pensamentos, sorte que são rapidamente preenchidas com a dura realidade da vida, mas essas são bem mais interessantes, com certeza.

A fase madura me trouxe uma dor física e uma fraqueza ocular que nunca pensei que teria. Um zumbido eterno nos ouvidos que me faz sonhar sistematicamente com uma TV valvulada defeituosa ou com naves espaciais em velocidade de dobra, e isso só não me enlouquece, meu caro, pois sei exatamente do que se trata, só por isso. Por outro lado, para me concentrar sem ter que ouvir essa tortura, fico imerso em Mozart, Brahms, Rachmaninoff quase que o tempo todo e isso é realmente muito bom. Assim, a fase sênior me deu a chance de ler mais e entender certos temas musicais, que só nessa fase pós cinquenta é possível compreender em toda sua extensão, sim, é preciso ter vivido certas aventuras na vida para isso.

Os jovens tolos, por exemplo, poderiam ganhar muito tempo na vida lendo os grandes escritores Russos ou ouvindo seus grandes pianistas, mas eles preferem ficar cabisbaixos olhando a tela de seus celulares. Confesso que eu também fico, mas eu vivi grande parte de minha vida sem essa tela colada ao rosto e tive a chance de ler e tocar ao piano os grandes clássicos, tive a chance de amar a arte, então tá tudo certo.

Mas, do que vale entender as coisas da vida, se ninguém ouve o que você realmente diz sobre elas e sobre toda a verdade que está anexa a ela? Afinal, na idade madura você está mais conservador que nunca, por isso muitos me acham um chato de galocha. Por isso, a idade vem me deixando mais frugal com as palavras ditas. Mas, posso garantir que o que vale é ter o prazer incomensurável de fazer uma leitura profunda. Viver do que realmente vale a pena e da pesquisa de campo só para entender a natureza das coisas. Poder fazer isso sem se preocupar com o que vão pensar e uma vantagem, afinal ninguém entende mesmo sobre o que estudo ou falo, a não ser eu mesmo.

A longevidade me trouxe o prazer e a sorte de entender o que é ter filhos, que esperam com muita fé, eu ficar ainda mais anoso, e me trouxe os problemas de ter uma esposa jovem que, às vezes, não entende o problema de quem tem uma ligeira dificuldade em ouvir as frequências mais altas de sua linda voz feminina, em outras palavras estou ficando meio surdo, mas minha sorte é que ela que entende perfeitamente bem que a tendência disso não é simplesmente se regenerar e sim piorar.

Ainda bem que tenho quase que todos os dentes na boca e espero mantê-los comigo, eles e minha audição diminuída claro, quando estiver mergulhado ainda mais profundamente nas rugas do tempo. Ah, o tempo, esse senhor, que não leva desaforo, me mostra a cada segundo que com ele não se negocia e nem se brinca. É como diz minha irmã, irônica e sabiamente, que “o tempo é uma fabrica de monstros”. E lá vamos nós lentamente libertando nossos monstros do corpo pouco a pouco… se tivermos sorte.

Felizmente o que passou, passou. Não tem volta. Agora é só continuar aceitando os presentinhos que a longevidade me trás a cada dia, tudo isso com bom humor e alegria, mesmo que os dias de chorar e se enfurecer apareçam aqui e acolá como toda boa vida sempre nos dá de graça. Ora, então só me resta aceitar e apenas agradecer a Deus pelas bençãos em estar vivo e pela possibilidade de seguir em frente.

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

A difícil arte de envelhecer com dignidade.

geeting oldAs mãos não mentem a idade que tem. Percebi isso vendo uma pequena mancha crescer sorrateiramente em minhas mãos sobre uma veia saltada. Ainda imperceptível para muitos, ela dorme e acorda comigo, me avisando que o relógio biológico está a todo vapor. Vejo meus filhos crescerem rapidamente. O mais velho já saiu da primeira infância e experimenta os primeiros e difíceis passos de sua vida mais consciente. Logo, estará na puberdade. Diante de suas dificuldades iniciais com seus limites naturais, ele já percebeu que a finitude da vida é mais real do que ele pensava. Certo dia ele me perguntou sobre a morte. Ele foi direto:

– Papai, quanto tempo você vai viver? 100 anos? – perguntou ele com um sorriso maroto.

– Espero que sim, filho. –  respondi a ele e, em tom de brincadeira, eu disse:

– Um dia filho, eu troquei sua fralda, espero chegar aos 100 anos usando cuecas ainda. Talvez você me carregue no colo como eu te carrego hoje. Espero que não precise trocar minhas fraldas. Com certeza será divertido pra mim, mas nem tanto para você.

Descobri recentemente que tenho algo nas articulações. Algo que me faz perder células sadias constantemente, uma hoje, outra amanhã, e isso causa algumas dores indesejáveis nos dedos, nos quadris, nos joelhos. Nada que atrapalhe tocar piano ou digitar esse texto.

O que mais me incomoda na verdade é ver que meus heróis estão partindo, gente mais jovem que eu ou da minha idade, estão partindo naturalmente. Incomoda-me o fato de estar navegando pelo meu rio, que antes eram de águas tranquilas, mas agora percebo que a correnteza esta acelerando, esta cada vez mais rápida. Consigo ver a paisagem em volta, mas preciso de óculos para aproveitar melhor a vista. O corte no dedo cicatriza bem, mas não tão rápido quanto eu gostaria.

Faz alguns meses, eu resolvi intensificar meus treinos de corrida. Sabe como é, aumentar a longevidade. Tudo ia bem, até o momento crucial lá no parque, quando estava fazendo um treino intenso. Sim, senti uma dor esquisita nos quadris. “- Nada de mais”, pensei.  Só que isso não se cura da mesma forma tão fácil que antes.

Eu sou o Nexus do Blade Runner: “- Time” – ele disse isso enfiando um prego na mão que insistia em se manter fechada por conta do envelhecimento rápido. Por isso, ele matou seu criador, mas deu a chance da vida ao Deckard salvando-o da queda no vazio. Afinal, o Nexus amava a vida mais que tudo.

Tudo isso assusta um pouco. Em um país onde envelhecer pode ser muito perigoso, fico pensando como enfrentar a ação inexorável do tempo. Tem gente, que por razões que não cabe a nós julgar, tenta resolver a casca. Entrega-se de corpo e alma ao Dr. Rey. Tudo bem, dá pra entender. Só que para mim não funcionaria. Eu até que engano bem. Tenho muito cabelo preto e poucos fios brancos na cabeça. Sorte genética.

Com mais de meio século de vida, descobri que a mente se mantém jovem. Eu me sinto com a mente de sempre, salvo alguns lapsos de lógica matemática ou palavras que sumiram das lembranças. Mas sabe o que é pior? É que eu ainda mantenho meus velhos vícios vivos, velhos medos. Amadurecer é entender que não é necessário correr tanto e sim rir mais de si mesmo, parece fácil, mas nem tanto diante de um mundo tão complexo em que vivemos.

Depois de mais de meio século, desacreditei em ETs e em outras bobagens, por sorte minha, e o pior, descobri que acho difícil demais falar e realmente fazer o que eu mesmo digo. É como dizia um velho amigo meu alemão:

“- It´s hard walk to talk Caesar.”

Foi ai que comecei a não ligar mais para o teatro da vida. Agora sei que representamos por medo de tanta coisa, principalmente por medo de não pertencer a algo. Mas não pertencemos mesmo, a não ser a nós mesmos. Depois de mais de meio século, descobri que às vezes precisamos manter algumas de nossas loucuras pessoais para tentar seguir em frente. A eternidade ficou na adolescência. Agora tenho a realidade dura e cruel pela frente.

Felizmente, não mudei tanto o quanto eu pensava. Sou o mesmo no âmago do meu ser. E isso é realmente bom. Ainda tenho meus velhos sonhos e valores aqui comigo. Ainda cometo tantos erros. Sou ainda um menino que quer tanto ser feliz. A dignidade de ser quem realmente somos de verdade é que devemos lutar para manter. Manter a nossa identidade e sanidade é mister, manter aquilo que realmente te faz feliz por dentro é tudo, mesmo que não tenhamos de fato vivido o que sonhamos.

Minhas escolhas me trouxeram até aqui com uma certa dignidade. Espero, que as escolhas que eu fizer a partir de agora, me ajudem a me manter perto do meu sonho, perto de quem amo, perto da minha família. Espero poder, um dia, olhar para trás e ver o meu rio da vida, longo e calmo, refletindo a luz do sol e mostrando que cada sinal, ruga no meu rosto, cabelo branco, dor, valeram pela luta e fez de cada segundo vivido a grande aventura real e maravilhosa que todos nós sonhamos viver neste mundo.

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.