Uma história no mínimo maluca.

busPeguei o ônibus na Rua dos Patriotas. Surpreendentemente o “latão”, como eu costumo chamar esse meio de transporte, estava relativamente vazio. Olhei à minha volta para ver se havia algum lugar para eu me sentar e vi um lugar vazio ao lado de uma senhora. Como o assento era reservado para pessoas com necessidades especiais e idosos resolvi ficar de pé antes de passar pela catraca onde cobrador “pescava” sonolento. A senhora que estava ali sentada, falava sozinha como que conversando com algum amigo imaginário. Nenhum passageiro ligava para o comportamento dela. Todos estavam absortos em suas redes sociais. Eu, tenho a péssima mania de observar o mundo ao meu redor.

O motorista, após acelerar vigorosamente, parou de forma brusca no ponto quando uma senhora negra fez o sinal para ele parar. Ela carregava algumas sacolas. Talvez ela havia feito compras no marcado municipal. O motorista, pacientemente, a esperou subir. Assim que ela entrou, após subir pelos degraus com dificuldade, imediatamente colocou suas sacolas sobre o assento vazio ao lado da senhora que conversava com seu amigo imaginário. Aí começou o seguinte diálogo:

– Tire essas coisas dai sua intrometida! – disse a senhora que estava sentada.

– Desculpe! – disse a senhora negra, tirando as sacolas, mas sentando no mesmo lugar sem entender bem o que ela tinha dito.

– Saia daqui sua dissimulada, você cheira mal… – falando com os olhos esbugalhados.

– O que a senhora está falando? Isso é racismo, sabia?- gritou a senhora negra, constrangida com a situação.

– Esse lugar aqui não é seu. – ela disse isso e continuou a balbuciar palavras inaudíveis.

– Eu vou ficar aqui mesmo! – disse a senhora negra confrontando sua oponente.

– Saia daqui, você não ouviu, sua fedida. – falou novamente a velha senhora com a mesma intonação.

Nisso, o cobrador acordou de sua sonolência e do alto de sua autoridade gritou para a senhora respeitar os passageiros.

– Ela não pode sentar aqui. Essa fedorenta. – falou novamente, sem mostrar sentimento.

– Racismo!Isso é racismo!!! Não pode deixar barato!! – gritou um jovem estudante de cabelos desgrenhados que logo se levantou e começou a filmar a cena.

O motorista parou o veículo e pediu rispidamente que a velha senhora intolerante se retirasse do ônibus, pois aquilo não era certo. Os outros passageiros concordaram.

A senhora, com o olhar perdido, ainda conversava consigo mesma.

– Esse lugar não é dela, dessa nojenta. – vociferou olhando para a janela.

Todos naquele ônibus ameaçaram expulsar a velha senhora do ônibus a pontapés. Uma garota com os cabelos meio raspados ameaçou pular a catraca para agredir a velha senhora. A senhora negra, visivelmente constrangida com a situação ficou estática.

– Ninguém desce, “fecha as porta e toca” pra delegacia, motorista – ordenou o cobrador. – racismo aqui no meu carro, não! – completou triunfante.

O motorista colocou novamente o ônibus em movimento. A senhora negra, entendendo a situação, levantou-se e pediu ao motorista que a deixasse alguns pontos à frente ignorando as admoestações da velha senhora. O motorista parou o ônibus alguns pontos depois e a senhora negra desceu pela frente, calmamente, levando suas sacolas, ignorando os gritos de protestos dos passageiros pedindo que ela ficasse e processasse a velha senhora.

Novamente o banco ficou vazio. A velha senhora ainda balbuciava palavras consigo mesma. Nisso, algum tempo depois a calma voltou ao latão. Outras pessoas subiram e uma senhora branca sentou no banco vazio ao lado da velha senhora. E disse com desdém a velha senhora para a senhora branca:

– Saia daqui sua dissimulada, você cheira mal…

 

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O sentido da vida…

AulaNas últimas semanas tomei contato com uma nova realidade. Meu médico me pediu pra fazer junto com exames de rotina, alguns outros diferentes do usual. Ele me explicou que era importante homens da minha idade pesquisar mais sobre a saúde. Eu fiquei apreensivo e ele disse friamente que deveria mesmo ficar assim, mas não com medo, pois ele já havia salvado vidas por descobrir doenças graves e silenciosas em homens com mais de 50 anos. Isso me deixou realmente apreensivo. Bem, todos os dias recebemos notícias de que a expectativa de vida do brasileiro está aumentando. Isso deve ser verdade, pois minha mãe está com 83 e leva uma vida extremamente ativa e saudável, apenas com algumas dores típicas de senhoras idosas. Espero ter herdado essa força vital que ela tem.

Eu ainda me sinto um jovem senhor (afirmo que estou com a saúde em ordem). Pelo menos, me sinto assim por dentro e procuro deixar a ansiedade que esta fase da vida causa meio de lado. Mas os sinais do tempo sobre meu corpo estão por aqui. Eles estão a todo momento me alertando para a inexorável finitude da vida. Às vezes penso que estou enfartando, mas logo percebo, feliz, que são apenas gases. Mesmo assim, não esmoreço. Aos 54 anos de idade já fiz uma pós graduação e um curso de fotografia, aos 55 terminei um curso técnico e estou em vias de terminar uma nova graduação e quem sabe concluir um programa de mestrado. Acabei de ganhar uma bolsa de iniciação cientifica de uma universidade aqui de São Paulo para realizar uma pesquisa em Educação. Dou aulas e espero conseguir um cargo de professor em alguma faculdade ou escola.

Acontece que, para o mercado de trabalho, depois dos 50 anos somos considerados velhos, depois dos 60 imprestáveis. A vida é assim. Quando somos jovens, imortais. Quando somos velhos, sucata. Se a expectativa de vida está aumentando, ou nos reinventamos, ou teremos um exército de idosos inundando o sistema de saúde estatal. Seremos aquele gado velho que fica ruminando sem parar a grama rala do pasto.

Percebi isso ontem quando fui levar meus filhos para fazer exames de sangue de rotina. Fomos a um laboratório confortável do convênio onde nos atenderam muito bem e de forma rápida e eficiente. Sorte a minha por possuir um convênio médico. Graças a Deus. Depois de ganharmos um desejum grátis, fomos até um posto de saúde estatal vacinar um do meninos. Lá, vi muitos idosos esperando sentados em cadeiras com um olhar desalentador clamando por atendimento. Muitos estavam ali havia muito tempo, tremendo de fome. Não arredavam o pé daquele lugar fétido. Estavam resilientes demais para desistirem da empreitada de serem atendidos por um médico cubano. Fiquei neste lugar por uma hora para descobrir que a tal vacina estava em falta. Graças a Deus.

Envelhecer em um país socialista como o nosso é um risco muito alto. Veja, no mundo perfeito dos socialistas não existe velhos, nem doenças. Não existe crianças, nem bebes. Apenas jovens dinâmicos e descolados fumando maconha em um mundo hedonista perfeitinho.

Se não temos empregos para todos, muito menos para os mais anosos. Empresários querem os jovens dinâmicos maconheiros super experientes formados nas universidades federais pelos seus professores revolucionários. Na verdade querem esses caras que aceitam tudo e nada ao mesmo tempo.

E se o empresário tivesse um pensamento diferente? Ele iria ver que esses profissionais seniores com mais de 50 podem agregar conhecimento adquirido por vários anos. Bom, isso seria verdade se vivêssemos em um país capitalista. Mas não vivemos. O que homens com mais de 50 anos precisam é de uma oportunidade, coisa que o socialismo não oferece.

Empresários honestos, neste cenário, pensam apenas em sobreviver. Pensam em vencer o peso do Estado socialista em suas costas. Pensam em diminuir custos. Homens com mais de 50 são mais comprometidos, mas custam muito caro. Não aceitam calados determinadas tolices de seus pares. E, principalmente, ficam doentes.

Um pai de um aluno me perguntou por que eu resolvera mudar de carreira profissional aos 52 anos? “Loucura!” ele me disse. “É mais fácil esperar a aposentadoria”, ele completou. É, pode ser. Afinal, nesta fase da vida a relatividade do tempo faz todo o sentido. A correnteza do nosso rio da vida é mais veloz perto da cachoeira. Eu disse a ele que eu pensei em mudar depois que havia descoberto o sentido da vida. Disse que quando somos jovens esperamos o mundo nos dar tudo que queremos e precisamos. Disse que descobri que quando somos jovens, somos tolos. E só os tolos esperam algo deste mundo. O tempo me deu um pouco mais de sabedoria para entender que estamos aqui apenas para nos doar. Estamos aqui para dar ao mundo o que ele verdadeiramente precisa e não ao contrário. É como uma frase que meu irmão mais novo disse antes de morrer tão jovem: “As pessoas precisam de amor. O mundo precisa de muito amor.” Quer maior sentido para sua vida que esse? E você achando que era construir uma carreira bem sucedida em uma multinacional.

* César Manieri (55),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e “Educação Clássica” . É autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

A saga do número 22.02.2002

casamento1Há exatos 16 anos, conheci a saga do número 22. Me casei com a doce Debby no dia 22.02.2002. Escolhemos essa data por ela achar cabalisticamente (seja lá o que isso signifique) perfeita. Foram essas as palavras dela:

-Imagine só? Vamos casar na data cabalisticamente perfeita!!! Que sorte a nossa…

Aceitei na hora casar neste dia quando ela veio com esse argumento irrefutável.

A cerimônia estava marcada para às 20:40, mas atrasou e ela pisou na Igreja a exatos 21:01 (4 = 2+2)

Desde então, essa sequência de números 2, nos “persegue”. Meu filho mais velho nasceu no dia 1.10.2006 às 23:52. (a soma da 22) Já o mais novo no dia 08.12.2010 23:30. (aqui também).

– Só coincidência! – eu falo.

Minha esposa acha que vivemos no “Mundo de Truman”, onde um “diretor” fica pregando peças na gente com o número 22.

Se estamos vendo um programa na TV, lá aparece o 22 na mesa de um bar, ou na fala de um personagem. Poderia ser qualquer número. Sei lá 17, 55, ou até o 7, o mais comum de todos. Mas vira e mexe e está lá o 22. É complicado.

A placa do carro da família do desenho do Gumball é 22. Poderia ser 76, sei lá.

Semana passada, recebi o e-mail da universidade dizendo o dia do início das aulas: Lá estava ele, o 22.02. Imaginei o nosso “diretor” altivo e irônico dizendo:

– Vou estragar o dia do aniversário de casamento dele com essa aula…

Há alguns anos, eu fazia frequentes viagens, em fevereiro, para o exterior. e adivinhem quando era a viagem? Quase sempre no dia 22.02, sim, mas várias vezes foi no dia 02.02 justamente no dia que me casei no civil.

Começamos a brincar com isso quando percebemos a magia do 22 no nosso passado desde que casamos. Foram várias ocasiões em que o 22 apareceu sem aviso na nossa frente. É divertido, pois a saga do número 22 nos faz frequentemente lembrar da data mais importante de nossas vidas.

Ano passado, estávamos passeando com as crianças de carro quando ouvimos o anúncio de um filme chamado “2:22 Encontro Marcado”. Ouvimos atentamente o locutor dizendo:

“- Um homem que tem a sua vida permanentemente mudada quando uma série de eventos se repete exatamente no mesmo horário todos os dias, às 2:22 da tarde. Quando Dylan se apaixona por Sarah (Teresa Palmer), uma jovem mulher que tem sua vida ameaçada pelos eventos ocorridos, ele deve resolver o mistério que o cerca para preservar o amor que a vida lhe ofereceu como uma segunda chance. “

Rimos juntos e juntos falamos: – esse ‘diretor” da nossa vida não brinca em serviço.

Não poderia ter sido 3:33, ou 4:44 da tarde? Não, o filme se refere ao 2:22.

Para nós o 22.2 aparece em todos os lugares, na escola, no parque, no restaurante, nas placas dos carros. Neste último chegou ao cúmulo de acharmos uma placa FEV – 2202…

Pode parecer mentira, mas isso nada tem de extraordinário, é apenas probabilidades e estatísticas. É tipo , quando sua mulher fica grávida, (ou você acha que a SUA namorada está) e você literalmente vê todas as mulheres grávidas da cidade passando por você o tempo todo, fazendo tu lembrar que você será destronado em breve por um bebê rosadinho e chorão e que tomará sua mulher de você e mesmo assim você vai amá-lo loucamente.

O universo é bom, ele faz com que minha mulher e eu nunca nos esqueçamos da magia que o 22.02.2002 trouxe para nossas vidas.

E por falar nisso, que venha 22.02.2022… daqui a 4 anos. Olha só 2 anos + 2 anos = 4 anos. Tenho certeza que esse dia vai ser muito doido! Será nossas bodas de 20 anos. Aí sim faremos um festão. E as bodas de 22 anos? Será no dia 22.02.2024 ou seja 22.02.202(2+2). Melhor ainda, outro festão.

Para os casais apaixonados, que estão pensando em se casar, reservem essa data na igreja mais linda da sua cidade, tenho certeza que vocês jamais se arrependerão de fazer parte da saga do 22.02.2022. Para mim, esses números representam o amor e sempre nos fará lembrar do comprometimento que eu e a Debby tivemos um com o outro de seguir em frente, na alegria e na tristeza na saúde e na doença, na riqueza e pobreza, sempre juntos!

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

O que a idade madura me trouxe?

20171005_230012Bem, ela me trouxe um monte de dúvidas e um punhado de certezas. Se eu colocar isso em uma balança o ponteiro apontará um pouco mais para as dúvidas.

Trouxe também uma falta de paciência e quase quase nenhuma sabedoria que se espera da senioridade. Pelo menos, para mim, não está sendo como os sábios filósofos de plantão costumam alardear por aí de que essa fase se chama “melhor idade”. Para mim, trouxe a vergonha de ter sido um jovem tolo, como a maioria dos jovens de hoje o são. Sim eu era um tolo e aprendi com meu sábio professor de filosofia que “só os tolos esperam algo deste mundo”, foi o que ele disse serenamente do alto de seus mais de 65 anos, falou isso depois de sofrer a perda de sua filha, que morreu apenas para ele.

A idade me trouxe a realidade e a inexorabilidade da finitude, mas me deu, por outro lado, a beleza da visão da transcendência em Deus e a quietude das paixões desenfreadas.

A idade madura me fez olhar o mundo tal qual ele é. Sem floreios. Sem finais felizes. A madureza, me trouxe a certeza de saber que flagrar um beijo lascivo entre duas garotas lésbicas na porta da escola, não é nem bonito, nem moderno e nem tão atraente quanto nossas fantasias loucas, mas sim tão nauseabundo quanto o pecado. Pelo menos foi assim que eu me senti quando vi esse babaço juvenil na semana passada.

Trouxe a dor de saber que se auto reinventar nessa fase da vida só é bonito, fácil e dá certo nas palestras bem caras dos “Karnais e Cortelas” da vida, e agora entendo porque é que estes “rendezvous” estão sempre recheados de jovens vazios e tolos que aplaudem suas elucubrações filosóficas, falaciosas e óbvias. Essa platéia “nutella” que na verdade nunca experimentou, aparentemente, a dura realidade da vida. Ou se experimentou, busca loucamente fugir dela.

Para mim foi simples assim:

– Você está sem energia meu caro, pode ir pra casa, reinvente-se. Pois é amigo, seja feliz e obrigado pelos serviços prestados nestes últimos 30 anos!

Depois disso, foram várias invencionices. A mais louca foi voltar aos bancos escolares e descobrir que minhas sinapses ainda funcionam bem, mas a área de armazenamento está quase sem espaço útil, espaços que foram preenchidos com as tolices da meninice e com a cegueira do materialismo e de hedonismo barato. Com isso, sem espaço, loto cadernos e mais cadernos com etiquetas na capa onde escrevo “ajuda memória”. Eventualmente, tento apagar essas tolices inúteis que povoam meus pensamentos, sorte que são rapidamente preenchidas com a dura realidade da vida, mas essas são bem mais interessantes, com certeza.

A fase madura me trouxe uma dor física e uma fraqueza ocular que nunca pensei que teria. Um zumbido eterno nos ouvidos que me faz sonhar sistematicamente com uma TV valvulada defeituosa ou com naves espaciais em velocidade de dobra, e isso só não me enlouquece, meu caro, pois sei exatamente do que se trata, só por isso. Por outro lado, para me concentrar sem ter que ouvir essa tortura, fico imerso em Mozart, Brahms, Rachmaninoff quase que o tempo todo e isso é realmente muito bom. Assim, a fase sênior me deu a chance de ler mais e entender certos temas musicais, que só nessa fase pós cinquenta é possível compreender em toda sua extensão, sim, é preciso ter vivido certas aventuras na vida para isso.

Os jovens tolos, por exemplo, poderiam ganhar muito tempo na vida lendo os grandes escritores Russos ou ouvindo seus grandes pianistas, mas eles preferem ficar cabisbaixos olhando a tela de seus celulares. Confesso que eu também fico, mas eu vivi grande parte de minha vida sem essa tela colada ao rosto e tive a chance de ler e tocar ao piano os grandes clássicos, tive a chance de amar a arte, então tá tudo certo.

Mas, do que vale entender as coisas da vida, se ninguém ouve o que você realmente diz sobre elas e sobre toda a verdade que está anexa a ela? Afinal, na idade madura você está mais conservador que nunca, por isso muitos me acham um chato de galocha. Por isso, a idade vem me deixando mais frugal com as palavras ditas. Mas, posso garantir que o que vale é ter o prazer incomensurável de fazer uma leitura profunda. Viver do que realmente vale a pena e da pesquisa de campo só para entender a natureza das coisas. Poder fazer isso sem se preocupar com o que vão pensar e uma vantagem, afinal ninguém entende mesmo sobre o que estudo ou falo, a não ser eu mesmo.

A longevidade me trouxe o prazer e a sorte de entender o que é ter filhos, que esperam com muita fé, eu ficar ainda mais anoso, e me trouxe os problemas de ter uma esposa jovem que, às vezes, não entende o problema de quem tem uma ligeira dificuldade em ouvir as frequências mais altas de sua linda voz feminina, em outras palavras estou ficando meio surdo, mas minha sorte é que ela que entende perfeitamente bem que a tendência disso não é simplesmente se regenerar e sim piorar.

Ainda bem que tenho quase que todos os dentes na boca e espero mantê-los comigo, eles e minha audição diminuída claro, quando estiver mergulhado ainda mais profundamente nas rugas do tempo. Ah, o tempo, esse senhor, que não leva desaforo, me mostra a cada segundo que com ele não se negocia e nem se brinca. É como diz minha irmã, irônica e sabiamente, que “o tempo é uma fabrica de monstros”. E lá vamos nós lentamente libertando nossos monstros do corpo pouco a pouco… se tivermos sorte.

Felizmente o que passou, passou. Não tem volta. Agora é só continuar aceitando os presentinhos que a longevidade me trás a cada dia, tudo isso com bom humor e alegria, mesmo que os dias de chorar e se enfurecer apareçam aqui e acolá como toda boa vida sempre nos dá de graça. Ora, então só me resta aceitar e apenas agradecer a Deus pelas bençãos em estar vivo e pela possibilidade de seguir em frente.

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

A difícil arte de envelhecer com dignidade.

geeting oldAs mãos não mentem a idade que tem. Percebi isso vendo uma pequena mancha crescer sorrateiramente em minhas mãos sobre uma veia saltada. Ainda imperceptível para muitos, ela dorme e acorda comigo, me avisando que o relógio biológico está a todo vapor. Vejo meus filhos crescerem rapidamente. O mais velho já saiu da primeira infância e experimenta os primeiros e difíceis passos de sua vida mais consciente. Logo, estará na puberdade. Diante de suas dificuldades iniciais com seus limites naturais, ele já percebeu que a finitude da vida é mais real do que ele pensava. Certo dia ele me perguntou sobre a morte. Ele foi direto:

– Papai, quanto tempo você vai viver? 100 anos? – perguntou ele com um sorriso maroto.

– Espero que sim, filho. –  respondi a ele e, em tom de brincadeira, eu disse:

– Um dia filho, eu troquei sua fralda, espero chegar aos 100 anos usando cuecas ainda. Talvez você me carregue no colo como eu te carrego hoje. Espero que não precise trocar minhas fraldas. Com certeza será divertido pra mim, mas nem tanto para você.

Descobri recentemente que tenho algo nas articulações. Algo que me faz perder células sadias constantemente, uma hoje, outra amanhã, e isso causa algumas dores indesejáveis nos dedos, nos quadris, nos joelhos. Nada que atrapalhe tocar piano ou digitar esse texto.

O que mais me incomoda na verdade é ver que meus heróis estão partindo, gente mais jovem que eu ou da minha idade, estão partindo naturalmente. Incomoda-me o fato de estar navegando pelo meu rio, que antes eram de águas tranquilas, mas agora percebo que a correnteza esta acelerando, esta cada vez mais rápida. Consigo ver a paisagem em volta, mas preciso de óculos para aproveitar melhor a vista. O corte no dedo cicatriza bem, mas não tão rápido quanto eu gostaria.

Faz alguns meses, eu resolvi intensificar meus treinos de corrida. Sabe como é, aumentar a longevidade. Tudo ia bem, até o momento crucial lá no parque, quando estava fazendo um treino intenso. Sim, senti uma dor esquisita nos quadris. “- Nada de mais”, pensei.  Só que isso não se cura da mesma forma tão fácil que antes.

Eu sou o Nexus do Blade Runner: “- Time” – ele disse isso enfiando um prego na mão que insistia em se manter fechada por conta do envelhecimento rápido. Por isso, ele matou seu criador, mas deu a chance da vida ao Deckard salvando-o da queda no vazio. Afinal, o Nexus amava a vida mais que tudo.

Tudo isso assusta um pouco. Em um país onde envelhecer pode ser muito perigoso, fico pensando como enfrentar a ação inexorável do tempo. Tem gente, que por razões que não cabe a nós julgar, tenta resolver a casca. Entrega-se de corpo e alma ao Dr. Rey. Tudo bem, dá pra entender. Só que para mim não funcionaria. Eu até que engano bem. Tenho muito cabelo preto e poucos fios brancos na cabeça. Sorte genética.

Com mais de meio século de vida, descobri que a mente se mantém jovem. Eu me sinto com a mente de sempre, salvo alguns lapsos de lógica matemática ou palavras que sumiram das lembranças. Mas sabe o que é pior? É que eu ainda mantenho meus velhos vícios vivos, velhos medos. Amadurecer é entender que não é necessário correr tanto e sim rir mais de si mesmo, parece fácil, mas nem tanto diante de um mundo tão complexo em que vivemos.

Depois de mais de meio século, desacreditei em ETs e em outras bobagens, por sorte minha, e o pior, descobri que acho difícil demais falar e realmente fazer o que eu mesmo digo. É como dizia um velho amigo meu alemão:

“- It´s hard walk to talk Caesar.”

Foi ai que comecei a não ligar mais para o teatro da vida. Agora sei que representamos por medo de tanta coisa, principalmente por medo de não pertencer a algo. Mas não pertencemos mesmo, a não ser a nós mesmos. Depois de mais de meio século, descobri que às vezes precisamos manter algumas de nossas loucuras pessoais para tentar seguir em frente. A eternidade ficou na adolescência. Agora tenho a realidade dura e cruel pela frente.

Felizmente, não mudei tanto o quanto eu pensava. Sou o mesmo no âmago do meu ser. E isso é realmente bom. Ainda tenho meus velhos sonhos e valores aqui comigo. Ainda cometo tantos erros. Sou ainda um menino que quer tanto ser feliz. A dignidade de ser quem realmente somos de verdade é que devemos lutar para manter. Manter a nossa identidade e sanidade é mister, manter aquilo que realmente te faz feliz por dentro é tudo, mesmo que não tenhamos de fato vivido o que sonhamos.

Minhas escolhas me trouxeram até aqui com uma certa dignidade. Espero, que as escolhas que eu fizer a partir de agora, me ajudem a me manter perto do meu sonho, perto de quem amo, perto da minha família. Espero poder, um dia, olhar para trás e ver o meu rio da vida, longo e calmo, refletindo a luz do sol e mostrando que cada sinal, ruga no meu rosto, cabelo branco, dor, valeram pela luta e fez de cada segundo vivido a grande aventura real e maravilhosa que todos nós sonhamos viver neste mundo.

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.