Blade Runner, um filme de arte grandioso!

dimsFinalmente eu fui assistir ao filme Blade Runner 2049, e foi lá no escuro da sala de cinema onde eu percebi que realmente esse filme moldou o futuro, afinal é possível ver ao redor do mundo cidades incrivelmente densas e tão caóticas como a L.A de 2049, mas, durante a exibição desta noite, não foi fácil esquecer do seu passado. O que foi muito bom.

Eu fui ao cinema ver o primeiro Blade Runner em 1983 creio eu, não me lembro muito bem, mas sei que fui ver o filme em sua estreia. Ora, como não se esquecer do lema da Tyrell Corp que era: ” Mais humano de que o humano”. Essa foi a empresa, fundada pelo gênio da engenharia genética Dr. Eldon Tyrell que criou os replicantes. Esses seres incríveis, dotados de força e inteligencia ímpares. Como se esquecer da criatura, o replicante Roy Betty matando o seu criador, o Dr. Eldon Tyrell? Ver o Roy com lágrimas nos olhos e apertando o cérebro de seu criador até matá-lo? Como se esquecer da Reachel, a replicante elegante e de olhar misterioso que se replicou intensamente em meus sonhos juvenis.

Depois desse dia, em 1983, vi o filme tantas vezes, ouvi à exaustão sua magistral trilha sonora composta por Vangelis, a tal ponto de me perder em criativos devaneios pueris, em criar tantas aventuras surreais. Ver esse filme me fez ter sonhos platônicos com a glamourosa e atraente Reachel (Sean Young), isso lá nos anos 80. E agora, felizmente e depois de mais de 30 anos, estou eu, aqui, em uma sala de cinema do século XXI, tentando descobrir o que aconteceu com a bela Reachel e se Deckard é um replicante ou não. Blade Runner é um filme universalmente aceito como um clássico, uma fantasia futuro-noir de Ridley Scott. Confesso que, depois de tudo isso, eu estava apreensivo em o que eu iria realmente assistir nessa continuação do perfeito Blade Runner e que tinha tudo para dar errado.

Perdoe-me leitor, mas aqui é necessário uma pausa para uma breve explicação. O nome do filme se refere a um romance de um misterioso escritor e médico chamado Alan E. Nourse. Ele amava escrever sobre a profissão médica e sobre os mundos fantásticos do futuro. Depois de lançar vários livros com relativo sucesso, em 28 de outubro de 1974 a editora David McKay lançou um romance de Nourse que combinava as duas áreas de especialização do autor em uma única obra de arte: o Bladerunner.

Este romance narra as aventuras de um jovem conhecido como Billy Gimp e seu parceiro no crime, Doc, enquanto navegam em uma distopia de saúde. É o futuro próximo, e a eugenia tornou-se uma filosofia americana orientadora. Os cuidados de saúde universais foram promulgados, mas para eliminar o rebanho dos fracos, as “leis de controle de saúde” – impostas pelo escritório de um “Secretário de Controle de Saúde” draconiano – determinam que qualquer pessoa que queira atendimento médico deve primeiro ser esterilizada . Como resultado, surgiu um sistema de cuidados de saúde do mercado negro em que os fornecedores obtêm equipamentos médicos, e os médicos usam para curar ilegalmente aqueles que não querem ser esterilizados e há pessoas que transportam o equipamento para os médicos. Como esse equipamento geralmente inclui bisturis e outros instrumentos de incisão, os transportadores são conhecidos como “bladerunners”. E voilà, a origem de um termo que passou a mudar a ficção científica.

Agora que tudo está esclarecido, me lembro que a primeira edição de 1982 já me conquistou de imediato, mas na verdade, foi somente quando o Blade Runner foi reconfigurado através de um “1992’s Directors Cut” e, mais tarde, o “Final Cut de Scott”, que seu status de obra-prima foi assegurado e agora o filme está sentado ao lado de Metropolis de Fritz Lang e do 2001 de Kubrick no panteão dos melhores filmes de ficção científica de todos os tempos.

O que eu posso dizer é que nenhuma dessas tribulações vivdas pelo primeiro filme acontecerá com Blade Runner 2049, que para mim, trouxe sentimentos diversos entre aflição, dor, risos e satisfação. No entanto, me surpreendi ainda mais com a audaz direção de Denis Villeneuve, co-escrita pelo roteirista original Hampton Fancher, que é muito boa, e isso é espetacular, pois já é o suficiente para conquistar as novas gerações de espectadores, e é muito boa para tranquilizar os fãs de que suas memórias do filme original, não foram reduzidas a implantes sintéticos de algum desconhecido.

A ação se desenrola 30 anos depois que o “Blade Runner” , Rick Deckard (Harrison Ford), desistiu de perseguir androides e ao invés disso e se apaixonou por um deles, a incrível e bela Reachel. Neste meio tempo, houve um “apagão” de 10 dias de escuridão que destruíram os registros de produção de replicantes que eram armazenados digitalmente, criando um espaço em branco na memória da base de dados da humanidade. As naves flutuantes que fazem a propaganda da mudança de humanos para as colônias fora da terra ainda atravessam a chuva ácida, empurrando o atenção do espectador para os logotipos corporativos da Sony, Atari, Coca-Cola e Pan Am. Por isso, fica tão deliciosamente impossível não se esquecer do passado.

Através deste mundo distópico, o “K” de Ryan Gosling caminha nos passos de Deckard, rastreando androides rebeldes e  fazendo-os “se aposentar”.

“Como se sente?”, Pergunta um androide antes de morrer, provocando esse caçador implacável, dizendo que ele só pode fazer seu trabalho porque ele “nunca viu um milagre”, uma frase enigmática que vai assombrar K (frase que também me assombrou) enquanto ele tenta desvendar seu significado.

K mora em um apartamento pequeno com sua namorada virtual Joi (Ana de Armas), uma inteligência artificial holográfica lindíssima que parece existir apenas nos mundos virtuais que criamos na adolescência.

Em suas discussões pós-missão, K é submetido a uma forma de associação de palavras interrogativas que invade os testes Voight-Kampff, aqueles detetadores de replicantes anteriormente administrados por Deckard. Após anos atuando como um assassino imperturbável, o constante e impassível “K” está experimentando dúvidas sobre seu trabalho, suas memórias e sua natureza.

Aqui está o ponto crucial onde ele questiona algo moral: “Eu nunca aposentei algo que nasceu de verdade”, ele diz a tenente Joshi (Robin Wright), acreditando que “nascer é ter uma alma”. Joshi não se impressiona, insiste que,  seguindo esta linha de raciocínio, você pode se dar bem se não tiver uma alma.

Tais ansiedades existenciais estão no coração do filme de Villeneuve, que tem a confiança e a coragem para prosseguir em um ritmo editado de forma totalmente incompatível com os filmes de sucesso atuais. Espelhando e inovando os temas-chave do seu antecessor, o Blade Runner 2049 troca unicórnios por cavalos de madeira, mantendo a grandeza visual que disparou o filme de Scott. De vastas paisagens de telhados e refletores cinza, através das conchas enferrujadas de abrigos pós-industriais, ao brilho queimado de terras radioativas, a fotografia evoca um mundo que tem um crepúsculo que parece nunca acabar. As cores brilhantes são restritas às luzes artificiais de publicidade e entretenimento. Arquiteturalmente, os projetos de produção evocam o um futuro caótico e esteticamente reto com todas as suas linhas angulares e sombras expressionistas.

Em um certo momento, fica evidente as homenagens às estatuas do filme AI de Spielberg: Inteligência Artificial.

As vistas são surpreendentes, mas os verdadeiros triunfos do Blade Runner 2049 são lindamente discretos. Carla Juri injeta a magia real em uma cena romântica dos sonhos; Sylvia Hoeks como Luv, a moça que detona tudo para conseguir o que quer e que derrama suas lágrimas aterrorizantes rivaliza com Rutger Hauer (Roy Betty); e Ana de Armas traz calor tridimensional a um personagem que é essencialmente uma projeção digital.

Os compositores Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer ( um dos meus preferidos) dançam em torno de lembranças dos temas de Vangelis, criando uma paisagem sonora que geme e uiva e que, ocasionalmente, cresce em um êxtase medonho como o Réquiem de Ligeti.

Pode ser um “spoiler” aqui, portanto, se ainda não viu o filme, evite ler esse trecho. Na cena final, “K” realmente me fez ouvir a fala de Roy Betty (Hutger Hauer) , em seu épico discurso: Tears in Rain, mesmo sem ele dizer uma única palavra.

Então, vendo Blade Runner 2049, eu realmente fiquei impressionado com os seus efeitos visuais e surpreendido por suas citações sutis retratadas em roupas, efeitos sonoros, frases, tudo referindo-se ao filme original, só os mais atentos perceberão esses pequenos detalhes que transformaram esse filme, pelo menos para mim, em um filme de arte grandioso.

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O que dizem por aí sobre ETs?

ufoSingularityDizem que a eletrônica digital, essa que ajudou a criar os computadores modernos e que, por engenharia reversa foi desenvolvida, veio dos ETs, e que as tecnologias espaciais também são um legado dos ETs. Nada mais tolo crer na capacidade de criação do homem.

Dizem que as pirâmides ao redor do planeta é um projeto dos ETs e que, magnanimamente benévolos, auxiliaram os egípcios “cabeça de cone”, entre outros povos antigos a construí-las. E dizem que a lua também é um projeto dos ETs e que ela é oca.

Dizem que a matemática básica e avançada foi um presente dos ETs, e que Nicola Tesla recebeu seu conhecimento dos ETs, Albert Einstein também. Acho que por isso viviam às turras.

Dizem que Jesus é um ET e que seus milagres foram ensinamentos dos ETs, e que ele não ressuscitou, apenas pegou sua nave e partiu para os céus. A bíblia prova que tivemos muitos ETs entre nós: – Está no livro de Ezequiel ! -bradam os mais afoitos.

Dizem que os homens das cavernas e suas pinturas rupestres são obras dos ETs, os dinossauros são obras dos ETs também. Inclusive o meteoro que os matou foi lançado pelos ETs que não aguentavam mais a falta de educação desses monstros que eles mesmos criaram.

Dizem que o genoma humano veio dos ETs e que um deles usou o próprio DNA, manipulou tudo, misturou com um primata e criou o ser humano como ele é hoje.

Dizem que os ETs nos deram a escrita, a inteligência e a lógica, e que os ETs criaram a realidade virtual e que foram os ETs que apertaram o botão de “liga” do big bang.

Dizem que houve uma batalha épica com ETs sobre os céus da Índia antiga apenas por assegurar o poder deles no céu.

Dizem que o anjo da anunciação era um ET. Lucifer é na verdade um ET malvadão e que Adão e Eva foram experimentos dos ETs.

Dizem que os meus filhos, opa! esses não são obras dos ETs, posso garantir, mas dizem que se não fossem os ETs benévolos eu não teria evoluído até aqui para tê-los.

Dizem que eles já estão entre nós vivendo em cavernas, nas cidades ou no fundo dos mares e alguns dizem que eles voltarão para uma batalha épica final para dominar o planeta.

Conclusão, é mais fácil as pessoas acreditarem nos malditos ETs e responsabilizá-los por todas as nossas conquistas e mazelas, do que crer na realidade nua e crua deste mundo de que somos filhos de Deus. Afinal, crer em ETs não traz nenhuma responsabilidade moral, não é mesmo?

Saia de casa e vá ver um belo Jardim enquanto é tempo!

jardimEu sou apenas um simples professor de matemática que entende um pouco de música em busca do saber e não um crítico de arte. Desde o primeiro dia que resolvi escrever aqui neste blog sobre meu processo de auto conhecimento, tinha dúvidas sobre se eu estava realmente tendo sucesso nessa empreitada pessoal. Meu objetivo aqui era apenas dar vazão aos meus pensamentos sobre tudo o que eu via e não entendia em minha volta. Mas depois de hoje, percebi que não tenho mais motivos para duvidar sobre o sucesso da minha empreitada pessoal.

      Há alguns anos, mais precisamente na páscoa de 2013, estava conversando com meu irmão sobre a situação execrável de nossa política e sobre como nossa sociedade havia chegado quase ao fundo do poço, falávamos sobre o risco que corríamos em perder tudo de admirável que havíamos construído até então, nossos valores, nossas famílias. Naquele dia ele me disse:

“- Irmão, você tem que ver as palestras, ver o vídeos do Olavo, o homem é muito bom”.

       Naquela semana, entrei no youtube e assisti horas e horas de vídeos, comprei vários livros do professor Olavo de Carvalho, entre eles O Jardim das Aflições” e desde então, comecei a entender o motivo das minhas aflições pessoais.  Não pense que me livrei destas aflições depois disso, apenas as entendi. Apenas percebi que teria que estudar como jamais havia estudado antes se quisesse entender a realidade que me cercava.

      Pois bem, hoje foi um dia muito especial. Hoje foi o dia em que fui ao cinema ver finalmente o documentário O Jardim das Aflições do competente diretor Josias Teófilo, que conta o percurso biográfico, a rotina e o pensamento deste filósofo brasileiro chamado Olavo de Carvalho.

       Escolhemos a sala Kinoplex Vila Olimpia.  Apenas um pequeno detalhe: O homem responsável pela projeção errou feio quando começou a passar de um tal de Amor.com no lugar do Jardim. Algumas pessoas ficaram atônitas. Na hora eu perguntei para minha esposa:

“- Erramos de sala?!”

       Imediatamente saí do meu lugar e seguido por uma dezena de espectadores, fomos reclamar com o responsável sobre aquele erro tosco. Além disso, por algum problema no projetor, o filme não ficou tão bem enquadrado naquela tela enorme.

      Acredito que muitas pessoas devem ter ouvido falar deste filme/documentário de que ele “não deveria existir” ou sei lá. Coisa de gente invejosa. Gente que fala isso, sempre nega até sua feiura quando olha para o espelho. Esse documentário foi tratado por essa gente como um filme perigoso. Incrivelmente dito por diversos diretores e cineastas brasileiros e, depois de eu ver o filme, ficou claro a razão dessa reação.

      Detalhes à parte, o filme é de uma qualidade ímpar. A trilha sonora me impressionou, eu que sempre critiquei a qualidade do som do cinema nacional, garanto que a trilha sonora é de  extremo bom gosto. A música dá um contraponto extremamente agradável à narrativa. O bandoneon e depois o clarinete, que aparece graciosamente, e dá um tom tristonho e nostálgico em algumas cenas (sim, lembra o tema do Poderoso Chefão, pois esse usa a linha melódica mesma sinfonia #1 de Sibelius), te remete ao seu eu interior e ao mesmo tempo leva a você a pensar sobre si mesmo, enquanto espera as próximas falas do professor Olavo, que está sempre calmo e preciso em seu pensamento.

      A fotografia usa uma paleta de cores equilibrada e que evolui em tons quentes, que é muito confortável, agradável e combina perfeitamente com a narrativa do documentário. Parece que você está lá naquela casa no estado da Virginia nos EUA ouvindo o professor falar exclusivamente para você.

      Só esses dois pontos que coloquei aqui já seriam o suficiente para despertar a inveja e a ira de vários diretores de cinema que, mesmo sem ter visto o filme, morrem de inveja e vergonha  de si mesmos quando sabem que este documentário foi produzido com recursos vindo de processos de “crowdfunding”.

      Mas o que mais me emocionou neste filme foi o seu conteúdo. O momento em que o professor Olavo dispara seu rifle é o momento que você acorda para a realidade e toda a narrativa começa. Ver aquela família simples, cheia de vida e amor é como ver todas as famílias simples deste Brasil, sua fé e seus valores.

      Outra coisa que me emocionou foi ver o quanto minha esposa se identificou com a proposta do Olavo sobre a transcendência filosófica, com trechos sobre a consciência individual e a herança psíquica que recebemos dos nossos antepassados e a finitude humana. Isso mostra que estamos alinhados no pensamento filosófico. Só isso já alivia minhas aflições profundamente.

       Quando o filme terminou, fiquei por alguns segundos esperando por mais, mas tive que aceitar que o filme já havia terminado, e me contentei em ficar ali sentado para ver os nomes de algumas pessoas conhecidas subindo nos créditos: Mauro Ventura, Rodney Eloi…

       Agora, depois de uma dura caminhada pela vida para saber mais sobre mim, fecho um ciclo depois desse filme e com isso acabo entendo muita coisa. Entendo minhas aflições e as aflições alheias, entendo que estou tendo relativo sucesso em minha empreitada pessoal na busca pelo auto conhecimento, por outro lado entendo o motivo de tanta gente não querer que você veja este filme, pois esse filme é realmente muito bom.

      Esses seres sem personalidade que o boicotaram são os seres irracionais que dormem, são os que vivem sonhando com suas utopias vãs, e um filme desses os ameaçam e os fazem ver que é hora de acordar para vomitar para se livrarem seus venenos que destroem suas almas, esse filme os fazem parar para pensar em suas miseráveis e porcas vidas. E todos sabemos que somente a pura arte real é que tem esse poder, que é de nos fazer acordar, pensar, refletir sobre nós mesmos!

O dia que encontrei o Sr José Lewgoy!

lewgoyFoi no fim dos anos 80 ou início dos anos 90. Não me lembro bem. Apenas me lembro que estava hospedado no hotel Beira Mar Norte em Florianópolis. Saí do quarto no 5° andar bem calmamente naquele fim de manhã para dar um passeio pela orla marítima. Pacientemente esperei o elevador chegar ao meu andar. Alguns segundos de espera e observei a luz indicativa na parede se acender e ouvi aquele “plim” característico.

Quando a porta se abriu, vi um senhor de pé apoiado em sua bengalinha. Entrei e disse o tradicional “bom dia”. O senhor respondeu com um sorriso leve. Novamente olhei para aquele senhor e vi que o conhecia. Era o Senhor Lewgoy.

A viagem foi rápida , mas o suficiente para eu lembrar de tudo que havia visto do trabalho dele. A porta se abriu no andar térreo. Ele saiu. Eu me dirigi ao salão de café. Ele para a saída, caminhando lentamente. Não trocamos uma palavra, mas, mesmo assim, foi uma honra ter ficado perto de um ator tão emblemático quanto ele.

Recentemente vi um documentário sobre a vida do José Lewgoy na TV a cabo. Sugiro que quem nunca viu o trabalho desse ator maravilhoso, faça uma rápida pesquisa e, garanto, encontrará historias incríveis sobre ele.

A mim, resta apenas a saudade dos dias maravilhosos que vivi em Floripa, e que me traziam esses pequenos presentes que, eventualmente, a vida nos dá.

Lições de amor

love-lessonsA vida nos surpreende a cada instante. Não temos controle sobre nada nesta nossa porca e miserável vida. Um dia achamos que somos eternos e em outro percebemos a nossa finitude. Somos tolos em achar que somos donos de alguma coisa na vida. Não somos. Vivemos através dos nossos erros e acertos. Quando pensamos que estamos acertando, erramos. Quando pensamos que erramos, acertamos. Quanta incoerência. Na verdade, raramente somos gratos pelas incoerências que enfrentamos.

Formamos nossas convicções durante os anos e vamos amadurecendo. Pensamos tantas coisas, mas no fundo, no fundo mesmo, queremos o amor, queremos ser amados. Tememos o abandono. Queremos resgatar nossa vida pelo amor. E o que é o amor, se não o sangue da vida. Ele une o que está separado há muito tempo. Ele junta os opostos. Faz com que o tempo pare. Transforma longos anos em um simples átimo de tempo. Não duvide da força do amor. Ele transforma vidas e derruba padrões que criamos em nossa mente doentia. Quebra o que era coerente em mil pedaços incoerentes e te enlouquece.  Muita gente é solitária de forma doce. Mas eles só saboreiam o doce sabor da vida real quando conectados a alguém. Descobrimos com as primeiras experiências a apaixonada intensidade, que o amor pode oferecer e a dor que pode causar.  Esse amor é o mais puro, o mais inebriante de todos.

Às vezes, as lições de amor são apavorantes, nos enche de provas dificílimas e deixa-nos sem chão. É como o Indiana Jones que tinha que atravessar o abismo sem ponte para pegar o Santo Graal. O amor é algo simples e que preenche nossa vida. Não é cheio de diamantes, flores e borboletinhas saltitantes. É o cálice que o Indy escolheu. Ele é simples, tosco. Mas o amor nos ensina a crescer. Crescer significa que seus sonhos mais loucos não podem ser realizados. Crescer significa abandonar esses sonhos pueris em troca de uma conexão mais profunda, mais duradoura e que transcende essa vida.

Se não temos essa consciência sobre o amor, começamos a fantasiar. Os devaneios satisfazem os desejos. As fantasias tornam nossos desejos em realidade que nos liga a desejos antigos não satisfeitos.

E isso é efêmero, fantasias são efêmeras, desejos são efêmeros. O amor não é.

O amor ultrapassa o limite da vida. O amor nos ensina o quanto nossa alma é imortal….

Sobre uma mulher verdadeira que conheci…

vovoUm dia depois de ler em vários lugares mensagens sobre as mulheres em comemoração ao dia oito de março, de ler todos os textos tristes de vitimismo que escreveram, muitas vezes exagerando fatos, estatísticas mórbidas e frias sobre o quanto são mortas, violadas, socadas e estupradas, me veio à mente uma cena e um diálogo que eu tive e que jamais me esquecerei com uma das mulheres mais fortes que conheci na vida.

A cena foi a seguinte:

Estava eu, com meus 19 anos de idade, em casa, olhando para aquela caminha de solteiro no meio da sala de estar. Nela estava deitada uma senhora de boa idade, minha avó. Pele e osso, mas ainda vaidosa aquela senhora, que, mesmo toda carcomida pelo tempo e por um severo AVC que tivera anos antes, ainda prezava sempre em estar bem arrumadinha. Ela ficou doente de verdade quando voltava de uma longa internação hospitalar após um grave problema pulmonar. Ela encontrou um dos seus filhos (ela teve 18 gestações) caído morto por um tiro fatal no coração dentro de casa. O filho que ficara com ela não aguentara a pressão, o peso da dor da vida. Ela, sim, suportou com muita coragem. Mesmo debilitada decidiu seguir em frente sozinha. Mas sua força não era suficiente para seguir sozinha como sempre fizera. E agora ela estava ali na minha casa e eu a olhava, resignado. Com a respiração ofegante, ela se virou e me olhou com um olhar severo, mas doce, e disse:

-“Fio”, pode preparar meu cigarrinho de palha? – pediu tentando levantar o corpo magro e fraco.

-Vovó, a senhora tem certeza que isso te fará bem? – perguntei relutante.

-Deixe de bobagem homem, vá lá e faça o que estou te pedindo. – ordenou do alto de sua autoridade. – A comida “sargaaaada” da sua mãe me faz mais mal que esse inocente cigarrinho. – completou de forma sarcástica.

Fui até a cozinha, peguei uma faquinha amolada e o fumo de corda que eu havia comprado semanas antes a pedido da minha mãe. Levei até a sala, puxei a mesinha de centro e me sentei ao lado de minha avó. Cuidadosamente comecei a cortar finamente aquele fumo de cheiro forte e adocicado.

– Eu quero que você pique o fumo assim mesmo, bem fininho, entendeu? – ela disse, apontando para minhas mãos.

-Sim, dona Palmira! – respondi sorrindo.

Depois, peguei a palha que estava perfeitamente embalada e cortada em retângulos, enrolei pacientemente o tabaco, e apertando os dois lados para não deixar o fumo escapar, entreguei a ela colocando um cinzeiro vermelho feito de alumínio, que era do meu pai, ao lado dela.

-Tá bom assim vó? – perguntei mostrando para ela o resultado do meu trabalho.

-Tá, fazer o que, vai assim mesmo! – Respondeu pegando o cigarrinho com desdém.

Ela lambeu as pontas, colocou o pito nos lábios murchos, finos e pálidos. Rapidamente acendi um fósforo e aproximei do fumo. Foi quando comecei a ouvi-la sugar o cigarro de palha com força, puxando a chama até aparecer uma brasinha na ponta. Então vi uma fina fumaça subindo pelo ar. Ela sugou e tragou a fumaça com satisfação. Soltou uma baforada e olhou para o cigarro de palha com prazer e seguiu dizendo com a voz embargada:

-Deus se esqueceu de mim “fio”. – enquanto dizia isso, uma de suas mãos trêmulas tentava manter o cigarro firme para evitar derrubar as brasas no lençol e a outra mão, já meio paralisada, segurava uma bolinha de espuma.- Veja meu estado! – Ela continuou – Veja aonde cheguei. Todos que conheci um dia se foram. Seu avô, meus parentes antigos, muitos filhos meus. E eu aqui velha, presa nesta cama. Sem saída.

-Não diga isso, vó. Você ainda tem a gente, tem seus seus descendentes. Tem suas filhas aqui que cuidam de você. Nós te amamos vó.

– Que bom saber que ainda me resta isso. “Óio” pra trás e vejo luta, suor, calos nas mãos. Olhe minhas mãos. Tenho saudade da minha casinha lá de Mineiros. Da minha roça. Das minhas plantas. Mas tudo se foi. Cuidar daquele monte de “fio”, trabalhar na roça, lidar com aqueles moleques endiabrados, minhas “fias” me ajudaram enquanto eu ia pra “roça carpi”, mas com a morte sempre de olho na nossa vida.

-Como foi isso, vó? – perguntei despretensiosamente para ver se arrancava alguma história inédita  dela.

-“Fio”, vocês não sabem de nada da vida. Vocês tem de tudo e vivem reclamando. Na casa da gente não havia os confortos de hoje. Sinto falta do meu fogão a lenha, dos meus “caipiras”cantando suas músicas no meu rádio. Sinto saudades do bife feito na banha de porco. Tenho certeza que reencontrarei todos eles para onde eu vou.

-Nós lutávamos para viver. Eu pari criança em baixo de pé de café, lá no meio da roça. Eu eduquei 13 filhos, todos estão hoje muito “bão”, tudo homem feito. Perdi alguns “fios” em casa por doença e acidente. Sinto pena, mas não choro por isso. Afinal eu tive um monte deles. É uma bênção, afinal.

Entre uma frase e outra, uma tragada. O cheiro do fumo impregnava toda a sala. Não me importava. Me lembrei quando eu estava de férias na casinha dela, daquela senhora levantando às 4h da manha, quando ligava seu velho rádio à válvula, sintonizava na estação de música caipira, fazia esse ritual tão seriamente como se fosse ouvir Mozart e começava a abanar seu fogão a lenha com uma tampa de lata de banha para fazer o café antes de ir trabalhar. Uma força sobre humana. Uma braveza só. Dura como pedra.

– Deus se esqueceu de mim? Logo eu que fui tão “trabalhadeira”. – dizia isso com os olhos marejados.

-Sente alguma dor vó? – Perguntei a observando de perto.

– Deus sempre ouve seus filhos. Uma mulher como eu não tem o privilégio de sentir dor da vida. Dor da vida é para essas “frufrus” bananas que vocês namoram. – disse sorrindo malvadamente.

Ri junto com ela, sem entender a dimensão do que ela me dizia. Achei que ela estava delirando ou sei lá.

-Olha, quase fui abusada pelo meu padrasto safado. Resisti. Casei com seu avô, um homem errante, tinha quer ser, pois eu prometi casar com o primeiro que aparecesse por lá. E foi o que fiz e fui viver minha vida longe daquele estrupício. Paguei o preço dessa escolha com resignação. Fiz o que tinha que ser feito. Mas agora estou cansada, velha, já contribui com essa vida. Não quero mais ser carregada feito um saco de feijão pra fazer essa tal de “fisio” que vocês me levam todo santo dia. –  ela disse isso me olhando nos olhos com um misto de agradecimento e certeza do que dizia. – Deus vai me ouvir, ela disse baixinho.

Sim, naquela época eu era o responsável por carregá-la no colo para fazer a fisioterapia. Era um tarefa que eu fazia com alegria e era fácil, achava que com o tratamento ela ficaria como antes, cheia de vida. Estava tão magrinha, tão leve. Eu a retirava de dentro da velha Brasília bege e a carregava. As pessoas, quando eu entrava na clínica com ela, me olhavam espantados vendo aquele menino carregando aquela velha senhora nos braços. Não entendiam o que se passava em nossos corações. E nem poderiam. Não os culpo. Nem queria saber o que pensavam. Eu não ligava.

– É preciso vó! É necessário fazer isso para sua recuperação. – eu dizia isso imaginando mudar a opinião daquela guerreira. Mas no fundo, eu sabia que era inútil dizer qualquer coisa a ela naquele instante.

Ela deu sua última tragada na bituca que sobrou e de forma trêmula apertou-a no cinzeiro. Parou por alguns segundos e deixou a fumaça restante se esvair dos seus pulmões sem pressa.

– Agora preciso descansar. Deixe-me em paz.- Ordenou com a dureza de sempre.

Naquela noite, escutei minha avó chamar pela minha mãe lá em baixo na sala. Era tarde já. Perto da meia noite.

-Fiaaa, Fiaaa!

E todas as noites era assim. “Ela quer ir ao banheiro”, pensei. Ouvi minha mãe se levantar como todas as noites, descer as escadas calmamente falando com minha avó:

– Calma mamãe, estou chegando.

Minha mãe a levou ao banheiro, como sempre.

Um tempo depois, ouvi minha mãe aflita chamando pela minha avó. Um chamado triste, sem resposta. Levantei da cama correndo e desci as escadas. Tive tempo apenas de ouvir seus frágeis pulmões se esvaziando por completo. Tomei-lhe o pulso, coloquei meus ouvidos em seu peito ainda quente e notei um silêncio calmo.

– Mãe, ela se foi! – eu disse essas palavras com o coração apertado de dor e saudade. – Deus ouviu as preces dela.

Pedi para que minha mãe subisse, chamasse meu pai que dormia pesadamente. Queria levá-la rapidamente para o hospital, “quem sabe eles revertam isso”, eu pensei de forma egoísta. Arrumei o pijama perfumado dela. Cobri seu corpo para não esfriar. Meu pai desceu já pronto. Me troquei. Peguei minha avó no colo pela última vez. Coloquei seu corpo quentinho no banco de trás e deitei a cabeça dela em meu colo.

-Pai, sabe, ela foi uma guerreira. Que vida, que história. Que mulher. – disse isso a meu pai enquanto ele dirigia, me olhava pelo retrovisor e minha mãe, ainda aflita, soluçava ao lado dele.

Lá no pronto socorro, os médicos vieram rápido com uma maca fria. Rapidamente a colocaram ali e levaram para dentro. Depois de cinco minutos voltaram e disseram: – Sim, ela se foi.

Só me lembro de ouvir minha mãe chorar baixinho.

Por isso, respeito as mulheres. Por essas histórias. Respeito as mulheres pela sua força, coragem, por tudo isso, pois elas dão a vida delas por nós, assim como nós damos as nossas a elas. Mas elas é que, verdadeiramente, nos deram a chance de estarmos aqui, nos deram a oportunidade também de vivermos as nossas histórias da vida real!

Meu bom dia…

wake

15 anos depois….

Tic Tac, Tic Tac 6:30….

Sonho, despertador, olhos abertos, travesseiro, dor no pescoço, sono atrasado.

Remela, chinelo, pés no chão, dor, gosto de feu. Coceira, espelho, cabelo desgrenhado.

Tampa, vaso, arrepio, descarga, gaveta, pasta, escova, gargarejo.

Desodorante, mulher, toque, palavras, carinho, beijo.

Cueca, Calça, Blusa, meia, rádio.

Passos, cozinha, armário, pão, pó de café, água, cafeteira.

Geladeira, leite, ovos, bacon, frios, talheres, canecas, frigideira.

Mesa, toalha, torradeira, pratos, manteiga, torradas.

Fogo, ovos, bacon, aroma. É tudo pra comer pelas beiradas.

Passos, mulher, sorriso, amor e alegria!

– Pra você, meu amor, para que tu tenhas um bom dia!