A arte de ler

Diante da nossa realidade educacional, entendemos que a leitura necessita ser aperfeiçoada. Todas as pessoas alfabetizadas sabem ler até um determinado ponto. O problema é que este ponto está bem abaixo do desejado. Por ser um problema complexo, este assunto deve ser tratado de forma muito bem estruturada.

Este projeto tem como norte os estudos em como é feita uma boa leitura.

Segundo o Filósofo e Educador Mortimer Adler (1902-2001),

‘Onde se estuda a arte que subentende regras para cada jogo, em por que e como aplicá-las, descrevendo a organização dessas partes na estratégia geral de um jogo vitorioso. A arte de ler tem que ser estudada de modo semelhante. Há regras para cada uma das etapas a serem percorridas, a fim de se completar a leitura de um livro.”

Ou seja, para que a arte de ler seja compreendia, é necessário que o estudante compreenda os aspectos e os passos necessários para que ele desenvolva as habilidades de leitura e suas regras. Para tanto, Adler divide o processo da arte de ler em partes como se apresenta a seguir.

Parte I: As Dimensões da Leitura

Adler,  define classes diferentes de leitura e informa quais classes serão abordadas. Ele também faz um breve argumento favorecendo os Grandes Livros e explica suas razões para escrever Como ler um livro.

Existem três tipos de conhecimento: prático, informativo e abrangente. Ele discute os métodos de adquirir conhecimento, concluindo que o conhecimento prático, embora ensinável, não pode ser verdadeiramente dominado sem experiência; que somente o conhecimento informacional pode ser obtido por alguém cujo entendimento é igual ao do autor; essa compreensão (insight) é melhor aprendida de quem primeiro alcançou essa compreensão – uma “comunicação original”.

A ideia de que a comunicação direta entre aqueles que primeiro descobriram uma ideia é a melhor maneira de obter entendimento é o argumento de Adler para a leitura dos Grandes Livros; que qualquer livro que não represente comunicação original é inferior, como fonte, ao original, e que qualquer professor, salvo aqueles que descobriram o assunto que ele ou ela ensina, é inferior aos Grandes Livros como fonte de compreensão.

Adler afirma que muito poucas pessoas podem ler um livro para entender, mas que ele acredita que a maioria é capaz disso, dada a instrução correta e a vontade de fazê-lo. É sua intenção fornecer essa instrução. Acreditamos que o sistema educacional falhou em ensinar aos alunos a arte de ler bem, até e incluindo instituições de nível universitário. Devido a essas deficiências na educação formal, cabe aos indivíduos cultivar essas habilidades em si mesmos.

Parte II: O Terceiro Nível da Leitura: Leitura Analítica
É nesta fase que apresentamos um método para ler um livro de não-ficção, a fim de obter entendimento. As três abordagens distintas, ou leituras, devem todas ser feitas a fim de obter o máximo possível de um livro, mas que executar esses três níveis de leitura não significa necessariamente ler o livro três vezes, como o leitor experiente será. capaz de fazer todos os três no curso de ler o livro apenas uma vez. Adler nomeia as leituras “estrutural”, “interpretativa” e “crítica”, nessa ordem.

Estágio Estrutural: O primeiro estágio da leitura analítica diz respeito à compreensão da estrutura e propósito do livro. Ele começa com a determinação do tópico básico e do tipo do livro que está sendo lido, para melhor antecipar o conteúdo e compreender o livro desde o início. Adler diz que o leitor deve distinguir entre livros práticos e teóricos, bem como determinar o campo de estudo que o livro aborda. Além disso, Adler diz que o leitor deve anotar quaisquer divisões no livro e que elas não estão restritas às divisões apresentadas no índice. Por último, o leitor deve descobrir quais problemas o autor está tentando resolver.

Estágio Interpretativo: O segundo estágio da leitura analítica envolve a construção dos argumentos do autor. Isso primeiro requer que o leitor anote e entenda quaisquer frases e termos especiais usados ​​pelo autor. Feito isso, Adler diz que o leitor deve encontrar e trabalhar para entender cada proposição que o autor avança, bem como o apoio do autor para essas proposições.

Estágio crítico: No terceiro estágio da leitura analítica, Adler direciona o leitor a criticar o livro. Ele afirma que, ao entender as proposições e argumentos do autor, o leitor foi elevado ao nível de compreensão do autor e agora é capaz (e obrigado) a julgar o mérito e a precisão do livro. Adler defende o julgamento de livros com base na solidez de seus argumentos. Adler diz que não se pode discordar de um argumento, a menos que se possa encontrar uma falha em seu raciocínio, fatos ou premissas, embora um esteja livre para detestá-lo em qualquer caso.

O método apresentado às vezes é chamado de método de avaliação de estrutura-proposição-avaliação (SPE).

Parte III: Abordagens para Diferentes Tipos de Assuntos de Leitura
Na Parte III, Adler discute brevemente as diferenças na abordagem de vários tipos de literatura e sugere a leitura de vários outros livros. Ele explica um método de abordar os Grandes Livros – leia os livros que influenciaram um determinado autor antes de ler obras desse autor – e dá vários exemplos desse método.

Parte IV: os objetivos finais da leitura
Por fim, temos o quarto nível de leitura: leitura sintética. Nesse estágio, o leitor amplia e aprofunda seu conhecimento sobre determinado assunto – por exemplo, amor, guerra, física de partículas etc. – lendo vários livros sobre esse assunto.

O objetivo é trazer os benefícios filosóficos da leitura: “crescimento da mente”, experiência mais completa como ser consciente.

Mortimer Adler, Como ler livros: O Guia Clássico Para a Leitura Inteligente (2010) co-autor Charles Van Doren, Nova York: Simon and Schuster. ISBN 1-567-31010-9 OCLC 788925161

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Isentão político, essa é pra você…

aaa111 memeO titanic corre o risco de bater no iceberg e ir a pique e vocês, os sábios isentões sabichões, abrem o case pra tocar seu violino. Assumam uma posição, seus covardes! Não é hora de mostrar sua inoperância de cima de sua douta intelectualidade.

Posam de bons moços, limpinhos e isentos dessa guerra toda. É como que se toda essa loucura nada tivesse a ver contigo.

Vocês dizem:

– Ainnn os dois são ruins. Vou votar nulo! Tenho esse direito… Vou só assistir eles se digladiarem…

Ou dizem:

-Era o meu direito votar em quem eu achava o melhor no 1° turno!

Vocês não tem o direito de ferrar com o futuro dos meus filhos e das próximas gerações de brasileiros, seu cagalhões. Deixem sua bundamolice de lado apenas uma vez na vida e honrem as calças que vestem. Vocês podem ser isentos lá na churrascaria na hora de escolher comer peixe cru e salada, mas não podem ser isentos quando se trata do futuro do país. Afinal, ser isento agora poderá significar ver seu líder supremo comendo em uma churrascaria chique em Istambul, enquanto sua família caça lixo por aqui.

Li de uma isentona um comentário no Facebook dizendo que todos devem boicotar o 2° turno. Ela, chorosa, disse que não conseguirá votar e fazer um escolha tão difícil com dois candidatos ruins. Oummm, oooo dó, tadinha ela está em dúvida!!!. Ora minha filha, se pra você é complicado escolher entre o socialismo/comunismo e o liberalismo/capitalismo, você é daquelas que não sabe a diferença entre um prato de merda e um de tiramisu. Nem todos gostam de tiramisu, mas tenho certeza que merda ninguém quer comer. Então, decida-se.

Um outro comentou que queria era a Marina, mas como ela não foi ao 2° turno, não sabe se é uma boa opção votar no Bolsonaro, já que ele fala grosso, feito homem, é truculento. Esse é o pior de todos, pois é socialista enrustido de iPhone e protetor de rãs no pântano e tem nojinho do Capitão e vergonha de assumir que prefere o PT. Respeito mais os que assumem ódio ao Bolsonaro e preferem o encarcerado e criminoso condenado Lula e seu poste. Pelo menos estes, se eu xinga-los, entenderão o motivo.

Aviso ainda aos que pensam em anular seu voto ou vão votar no PT:

Quando o país virar uma Venezuela por causa de isentões ou canalhas feito vocês, vou sentar aqui na varanda da minha casa e vou ficar bebendo uma cerveja gelada, rindo de vocês e dizendo “bem feito, não foi por falta de aviso”, mas logo lembro que na Venezuela não tem cerveja, nem varandas confortáveis.

Um deles me disse que o melhor era o Amoedo. Esse tipo de insentão não entendeu que se esse senhor estivesse eleito, seria moído pelo estabilishment político e nada mudaria. Ele me veio com argumento de que ele tem grana. Ora, seu isentao inocente, o partido tem todo o dinheiro que roubou do país por 14 anos. Eles limpam a bunda com 500 milhões. Para entrar nessa guerra tem que ter culhões e não dinheiro.

Os isentões do Ciro, nem falo nada, afinal, são esquerdistas com vergonha de dizer que prefeririam o Lula se ele pudesse concorrer. Preferem um truculento que flerta com o socialismo do que um que busca o capitalismo e a liberdade.

Senhor isento, é melhor o sr torcer para que o JMB seja eleito, pois, se der Haddad, teremos mais juros, inflação e uma crise mais profunda ainda, na certa. Ou seja, com a alta do dólar, parte de seu parco patrimônio em reais poderá facilmente se desvalorizar em torno de 50 a 60%, sendo otimista. Você que ainda não se decidiu salvar o país, tome vergonha na cara e salve, pelo menos, seu puxadinho na praia.

Estamos no meio de uma guerra. Uma guerra de narrativa e ideológica. Se o PT voltar ao poder, vejo que o Brasil será igual o mundo do Biff em de Volta para o Futuro 2. Uns poucos vivendo os prazeres do capitalismo em uma ilha de prazer, enquanto tudo em volta estará em ruínas. Portanto meus caros, não se omitam. Tomem vergonha na cara, deixem seu nojinho de lado e vamos lutar juntos para tomarmos o nosso país de volta! Se você não sente impulsionado nesta direção,  talvez seu egoísmo o esteja impedindo de ver a realidade tal qual ela se apresenta. A realidade é que a nossa liberdade está em jogo. Se a perdermos, não haverá mais razão para vocês serem isentões, afinal teremos apenas um partido no poder e todos nós estaremos como escravos dele.

A verdade é a seguinte: as chances do JMB vencer no 2° turno são matematicamente grandes, mas se dependermos da massa de isentões covardes (a qual vocês fazem parte) e das urnas venezuelanas, poderemos amargar muitos anos de um socialismo ainda mais pesado do que o dos últimos 14 anos. E sei que o país não aguentará isso.

Para concluir, muitos de vocês, isentões, são meus amigos. Então, eu vos pergunto:

-Mas e aquela história de que temos que estar sempre ao lado o nossos amigos ou de, pelo menos, tolerar as suas ideias?

E eu respondo:

-Não, não tenho que respeitar todas as suas opiniões e tolerar suas ideias esquisitas. Se eu por acaso as respeitar, posso estar validando ideias monstruosas que vocês possuem. Uma ruptura com vocês, mesmo que momentânea, pode fazer com que vocês percebam que o que está em jogo é algo muito sério que está além de uma visão pacifista e simplória das coisas e que talvez vocês tenham que repensar que tipo de ideologia nefasta vocês andam apoiando.

Deitados em berço esplêndido. Eternamente!

Museu2017-13Nos somos uma nação adormecida em berço esplêndido. Apenas acordamos quando pesadelos ocasionais nos despertam rapidamente. Nosso sono é velado por fantasmas. Quando despertamos, esses fantasmas disparam o canto da sereia que nos faz adormecer novamente.

Essa caterva de demônios fantasmagóricos são os que velam nosso sono. Sim, são todos eles os que querem destruir as memórias históricas do Brasil. Todos que “tomaram conta” da alta cultura durante 200 anos e que, sistematicamente, abandonaram propositadamente um legado histórico real para que ele fosse consumido pelo tempo, sabedores que o tempo se encarregaria de acabar com tudo que era bom e belo.

Esses fantasmas não ligam se esse sono irá durar mais 200 anos. O plano deles suplantam nossa vida terrena. O que eles querem é transformar isso aqui em algo diferente e para tanto, não se importam se levará séculos para conseguirem, desde que o que é bom, que eleva a alma e seja belo seja apagado e destruído. E nós, seguimos deitados em berço esplendido.

Ao mesmo tempo, esses fantasmas reescreveram a nossa história ao seu bel prazer e por fim, triunfantes, se regozijam ao ver seu plano maligno ser executado com maestria, deixando um valioso legado histórico, materializado no acervo da Casa Imperial, se transformar em pó em algumas horas.

O mesmo “modus operandi” acontece no Museu do Ipiranga, que está caindo aos pedaços. A Semana da Pátria, o 7 de Setembro, ficou no passado distante. Outras memórias e outros patrimônios históricos são tratados como velharia e lixo por esses demônios. São todas essas assombrações ideológicas que leva a nação inteira ao vazio espiritual. Um povo sem apreço pelo seu passado é apenas massa de manobra para interesses ideológicos desconectados do transcendente. Eles apagam uma linda história monárquica para construir uma nova história “republicana” tosca no lugar. Tratam os personagens dessa história colonial e monárquica como seres bufões, loucos e comedores de coxinha de frango estragada. Tratam como personagens que vestiam perucas para disfarçar sua cabeça cheias de piolhos e sujeira. Fazem os que dormem em berço esplêndido odiar seu passado e terem pesadelos que mais parecem cenas de um filme surreal.

Sim, esses eventos terríveis ocasionais nos choca e nos fez acordar no meio da noite. Mas, como criancinhas assustadas, cobrimos nossas cabeças com medo do bicho papão e nos recusamos a olhar para a escuridão e para a realidade, sequer ousamos rezar para pedir ajuda a algum Anjo da Guarda de plantão. Contudo, logo, esses seres fantasmagóricos se manifestam novamente e ouvimos uma canção de ninar que nos acalma. Sim, queremos cair no sono novamente, deitados eternamente em berço esplêndido. Assim vamos vivendo até não restar mais nada de bom que devemos nos lembrar e nos orgulhar.

Por que não somos um país próspero?

XQuando vocês forem eleger algum líder, observem se ele segue as 10 regras básicas da prosperidade. Ele deve ser temente a Deus. Lembrem-se, a prosperidade só virá ao nosso país quando pararmos de brincar de eleger ateístas e pararmos de adorar falsos deuses.

1)Amar a Deus sobre todas as coisas. 

Nossos últimos governantes são claramente ateus que fizeram coisas abomináveis em suas vidas como: sexo com animais, magia negra, roubos a banco, terrorismo, comunismo, etc. Retiraram de seus gabinetes símbolos cristãos em nome de um laicismo vazio.

2)Não tomar seu santo nome em vão.

Nossos “líderes” e políticos dizem que só não são mais honestos que Deus. Mas apoiam quem vilipendia o Seu nome. Artistas zombam de Cristo querendo que Ele se molde aos seus desejos vis e mesquinhos.

3)Guardar domingos e festas de guarda

Muitos não guardam um dia só para louvar a Deus. Mas esperam ansiosos para cair na farra por 15 dias no carnaval.

4)Honrar Pai e Mãe

Basta olhar para nossos jovens e ver a quantas andam as relações entre pais e filhos.

5)Não matar (Não assassinarás)

Só Deus tem o direito de tirar a vida, mas temos discutido em nossa sociedade a descriminalização do Aborto, da Eutanásia, o Suicídio e temos mais de 60 mil homicídios por ano.

6)Não pecar contra a castidade

Vemos a desintegração total do comportamento da nossa sociedade e de nós mesmos com relação à conduta sexual.

7)Não roubar

Como prosperar tomando o que é dos outros? Elegemos nos últimos 30 anos apenas ladrões que roubaram nosso dinheiro e nossa paz. Somos o povo do jeitinho e do “levar vantagem em tudo”, como prosperar em um ambiente assim?

8)Não levantar falso testemunho

Vivemos na era da Fake News. Vivemos da era da língua afiada como faca que destrói as pessoas de bem e eleva o ímpio.

9)Não desejar a mulher do próximo

Hoje em dia o relativismo moral de nossa sociedade apagou esse mandamento das escrituras. Destruindo esse mandamento destrói-se a família.

10)Não cobiçar as coisas alheias

A lei de nossa sociedade materialista é: o TER acima do SER.

O pedantismo barato do eruditismo com seu monóculo.

monoculoRecentemente postei um vídeo no Youtube para meus alunos onde falo sobre o Teorema da Incompletude do Matemático Kurt Göedel . Fiz o vídeo pensando em usá-lo com meus alunos do ensino médio, por isso usei palavras simples para me fazer entender.

É um assunto fascinante, mas espinhoso. Falo de lógica, da criação do universo, da finitude da matéria, do tempo e do espaço,  das lacunas da realidade e da matemática que a ciência não consegue fechar. Falo de coisas complexas que quase ninguém está interessado saber. Falo principalmente, e deixo bem claro neste vídeo, sobre a minha fé em Deus ao explicar essas coisas, pois creio que sem Ele a ciência jamais será completa. E é disso que o Teorema da Incompletude trata.

Todas as vezes que vou postar um vídeo, eu tomo muito cuidado. Eu me desgasto tremendamente pensando em como transformar um assunto extremamente complexo e chato em algo simples e fascinante. Tentar fascinar as pessoas com assuntos chatos e entendiantes é uma das minhas tarefas. Afinal, estou me tornando um professor e isso é um exercício extremamente salutar se eu quiser atingir meus objetivos na área da docência.

Para minha surpresa, recebi alguns Feedbacks interessantes. Muitas pessoas ficaram felizes com minha explicação. Me agradeceram pela simplicidade da explicação que eu dei. Mas outras pessoas que, do alto de sua sabedoria e erudição, disseram que um professor, um matemático e conhecedor da lógica, jamais poderia usar “vícios de linguagem” tais como o de iniciar uma frase com “Na verdade…”  para me expressar, pois isso não é de bom tom para homens como eu e que isso causa certa estranheza.

Ora, mas minha proposta é exatamente essa. Tratar de forma mais simples possível assuntos espinhosos da matemática e da física. Quero fazer as pessoas entenderem, de forma simples e clara, coisas que aparentemente são complexas e difíceis. Quando estou falando, não fico pensando se vou usar essa ou aquela oração gramatical. Se é subordinada adverbial causal ou se é um aposto ou um vício de linguagem. Apenas falo com meu coração e procuro errar pouco, reviso o que falo, corto, regravo o que entendo serem erros evidentes.

Estou escrevendo minha dissertação de mestrado e sei o quanto é importante usar bem a língua portuguesa. Isso é importante para que todos que participarem da banca examinadora entendam minha linha de pesquisa de forma clara e sem dúvidas elementares. Morrerei de vergonha se em minha dissertação aparecer algum erro crasso, erros de lógica ou coerência, ou ainda pior, algo parecido com plágio. Por certo, contratarei os serviços de um revisor de texto profissional e passarei meu trabalho por um severo filtro anti plágio e gramatical para evitar problemas e para que minha dissertação fique impecável.

Agora, quando converso com meus alunos, com minha mãe, meus filhos, minha esposa, com o rapaz da banca de batatas na feira, com o papagaio do meu aluno, ou com minha câmera, procuro ser eu mesmo, com meus vícios de linguagem e minhas falhas de aprendizagem da dificílima língua portuguesa.

Procuro sempre estudar e me manter atualizado. Aprender nunca é demais. A linguagem falada de forma coloquial não necessariamente necessita ser assim tão rígida gramaticalmente. Claro que devemos falar de forma correta respeitando a gramática mais elementar, mas a linguagem deve, antes de tudo, ajudar a comunicar uma ideia de forma clara para que todos compreendam o seu pensamento, sem ruídos ou ma interpretação. Penso que na linguagem escrita, devemos a todo custo seguir as regras básicas da gramática e da norma culta. Isso é dever de todos. Por isso, sempre tento evitar ao máximo atingir o pedantismo vazio da completa erudição na oralidade. Isso, de certa forma, arrefece a minha vontade de comprar um monóculo e usá-lo apenas para parecer um culto, um pedante e espantar os poucos alunos que ainda me procuram para aprender alguma coisa de útil.

* César Manieri (55),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e “Educação Clássica” . É autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

Naquele tempo…

Reproduzo aqui, um pedaço do livro que estou escrevendo.

Nele, em terceira pessoa, eu conto fragmentos de histórias que ocorreram na minha infância. Muitos destes fragmentos são bem reais, outros, pura ficção. Aqui conto um pequeno trecho de uma história que passei na minha infância. A narrativa está em terceira pessoa. A história se passa na periferia de SP no fim dos anos 60 início dos anos 70.

ZefiroHenrique a olhou nos olhos profundamente e ela correspondeu. Um arrepio percorreu todo seu corpo. Sentiu vontade de abraçá-la e beijá-la ali mesmo. Ficou nervoso, excitado e sua saliva engrossou. Ele, apesar de um pouco mais novo, era ligeiramente mais alto que ela. Acabou por desviar o olhar, abaixou o rosto e mirou os sapatos pretos envernizados de Cristina.

– Essa história está me matando, mas tenho que seguir com isso. Vou achar uma saída, talvez eu me atrase, talvez eu saia no meio do evento de amanhã lá na escola, não sei. – disse isso segurando suavemente os braços de Cristina que se deixou ser tocada por ele e ela se aproximou ligeiramente do rosto do amigo, o suficiente para que ele sentisse seu suave perfume juvenil.

Os dois novamente se olharam. Cristina percebeu a falta de jeito do rapaz, mas notou certa coragem nele. Ela sabia que Henrique não era mais um menino e que ele logo se transformaria em um bom homem e ela sabia muito bem que esta história o estava mudando definitivamente.

– Quer ir comigo? – perguntou Henrique olhando novamente nos olhos de Cristina.

– Não sei, não sei. – Cristina então olha para o chão e relutante responde – Meu pai vive de olho em mim, vai ser complicado com certeza.

– Bem, vou pensar em um jeito de fazer isso acontecer, pode acreditar, vou falar com o Nelson. – disse Henrique mais confiante que nunca.

Eles andaram mais um pouco pela rua empoeirada e alcançaram o entroncamento da Rua Dois com a Rua Três, quase em frente à casa da Senhora Keller, a professora de piano. Ela se afastou um pouco esperando pela despedida. Ele a beijou no rosto. Cristina fechou os olhos para receber aquele beijo simples e quando abriu novamente os olhos percebeu que ele já olhava dentro de seus olhos castanhos de maneira terna, suave e que demonstravam para ela um desejo quase que sem controle. Ele dizia em pensamento que a amava e que desejava ficar ao lado dela para sempre, mas que ainda não estava pronto como um homem de verdade. “- Espero que ela leia meus pensamentos e que me entenda” – pensou Henrique enquanto se afastava vagarosamente.

Cristina desceu a rua em direção a sua casa e Henrique seguiu seu caminho ainda com as pernas trêmulas por ter ficado tão próximo da garota que amava. Pensava que deveria tê-la beijado na boca. “- E se ela me rejeitasse?”, ele pensou. Ele sabia que tinha feito a coisa certa, mas sua insegurança de menino ainda era forte dentro dele. “Será que ela entendeu?” Seus pensamentos começavam atormentá-lo. Ao mesmo tempo em que estava feliz, começava a se preocupar com o que a menina estava pensando sobre ele. Não conseguia raciocinar decentemente. Pensava no terror de ser pego pelo bedel da escola, que era o pai de Cristina, ele com os olhos fixos sobre os dois. Sentia medo deles sendo pegos se beijando nos fundos da escola.

No final daquela tarde, Henrique resolveu dar uma passada lá no campinho de futebol. Deu uma volta no terreno baldio e viu onde Nelson, Vandi, Mauro e outros moleques estavam. Juntavam madeira para fazer uma fogueira. O campinho estava uma bagunça e cheio de lixo. Pedaços de jornal, folhas de caderno amarrotadas que seriam, provavelmente, usadas na fogueira, algumas garrafas de tubaína sem rótulo e todo tipo de material descartado que estava espalhado por todo o canto. Quando viram o Henrique, eles acenaram com as mãos.

– Vem cá, Magrão – disse Nelson acenando rapidamente – Corre moleque!!

Henrique ergueu a mão esquerda respondendo sem muito entusiasmo, fez sinal para esperarem um pouco e parou fingindo amarrar os sapatos para pensar no que dizer para aqueles moleques. Logo depois, se levantou e caminhou na direção deles já com algumas ideias na cabeça.

– Oi pessoal? – disse Henrique cabisbaixo e emendou –  E ai Nelson. Beleza? – E cumprimentou seu amigo com certa frieza.

– Saca só Magrão, alegre-se homem, veja só o que temos aqui, chega mais! – disse Nelson mostrando para Henrique uma revista com desenhos que pareciam mais um gibi em preto e branco com desenhos toscos e uma outra pequena revista com fotos coloridas.

Henrique se aproximou surpreso e percebeu fotos e desenhos que jamais ele havia imaginado existir. Ficou paralisado por uns instantes. Mulheres nuas se exibindo frontal e lascivamente para homens também nus. Em uma das páginas pode ler o que o desenho de uma mulher nua dizia:

“- Como é que é rapaz? Vai ficar aí me olhando o tempo todo? Vamos lá, tire a roupa!”

Henrique foi despertado de sua ausência por um cutucão.

– Diretamente da Suécia cara, coisa fina! – murmurou Xavier com seu sotaque castelhano inconfundível.

-E olha só esse gibi aqui, diretamente aqui do Brasil, o sacana do Zéfiro, o catequista. – disse outro moleque, mostrando os desenhos do gibi com um homem e uma mulher para Henrique. O moleque ria tanto que Henrique notou os vãos dos dentes de leite que haviam acabado de cair e outros dentes permanentes já apodrecidos pelas cáries e os seus cacos.

– Caramba Nelson, que merda nojenta é essa? – exclamou Henrique que, com nojo, cuspiu no chão uma grossa saliva que insistia em se formar na sua boca. Ele ficou mais surpreso ainda quando viraram a página e ele viu uma foto de um casal em uma posição muito estranha e outra com uma mulher, com uma maquiagem forçada e carregada. Henrique demorou alguns segundos para entender o que se passava.

A molecada ria alto enquanto Henrique sentia-se enjoado vendo aquelas fotos, vendo aquelas mulheres fazendo coisas que ele sequer imaginava serem possíveis.

Henrique procurou disfarçar seu nojo e indignação, afinal, muitas vezes na escola já tinha ouvido algumas pessoas dizerem que aquelas relações eram normais para mulheres modernas e livres, e que nada mais poderia ser considerado uma aberração. Ele pensou que deveria já ter se acostumado com isso e sua condição de homem, mas seu estomago insistia em virar sem controle.

– Vão também tocar fogo nisso? – Disse Henrique um pouco trêmulo e ansioso.

– Você está louco seu maricas! – disse Maurinho rindo. Só depois de vermos tudo o que tem aqui. Precisamos descolar algumas páginas grudadas. – quando ele disse isso, a molecada riu alto.

Nelson notou que Henrique precisava falar com ele e pediu pra molecada esconder a revista e acender a fogueira para assar umas batatas.

– Diga meu velho, que bicho te mordeu? – perguntou Nelson.

Henrique cuspiu novamente a saliva grossa que se acumulara em sua boca por causa do desconforto que as fotos provocaram nele.

– Vamos até aquele banco ali, disse ele. – Preciso te contar uma história.

Eles foram até o banco tosco de madeira ali perto e se sentaram. Os moleques, guardaram as revistas e continuaram na tarefa de acender a fogueira com os pedaços de papel e uma caixa de fósforos um pouco úmida. Outros moleques ainda estavam rindo do que viram nas revistas de sexo.

– Sabe o Vitor? O repetente lá da escola? – perguntou sem entusiasmo esperando ver a reação de Nelson.

– Sim. O que ele quer? – respondeu Nelson meio curioso.

– Então, mataram um camarada dele no Rio de Janeiro. Uma briga de estudantes com a polícia. Sei lá. Ele foi pra lá. Ele estava transtornado e disse que era um garoto “gente boa” mesmo! – Henrique empalideceu enquanto dizia essas palavras.

– E o que eu tenho a ver com isso? E você? Você sabe quem é o maluco que morreu? – perguntou Nelson desconfiado.

– Bem, não, mas ele está organizando alguma coisa com a turma dele. Falou que precisa recrutar gente para lutar pela causa, luta de classes. Olha Nelson, não sei bem o que ele quer. Mas ele pediu para encontrar o Nego Du no bar do seu Miraldo no Sábado. Pediu para falar com ele e combinar, mas sei que é você que tem contato com ele.

– Porra Henrique, que merda cara! – E esse Vitor? Ele pensa que é o que, heim? O Nego Du é gente da pesada. É um ladrão e não revolucionário. – disse Nelson quase gaguejando. – Se a gente for pego na subversão a gente se fode de todos os lados.

Henrique não imaginava que Nelson saberia algo sobre essas palavras, o cara era um tosco, como ele dizia aquelas palavras até então só eram ouvidas pelo seu pai no “Reporter Esso”, essas coisas eram totalmente novas pra moleques como eles, mesmo assim ele continuou.

– Eles moram na mesma vila Nelson. Eles se conhecem. O problema é que o Vitor foi pro Rio e só volta na sexta. Me leva até lá, daí eu marco esse encontro e tá tudo resolvido.

Nelson sabia que era um risco procurar Nego Du e se meter com os Galileias. Ele desconfiava que Henrique estava apenas pensando em mais uma “aventura”.

– Moleque, você não é dessa laia, você tem que tomar cuidado. Olha, a gente vai, mas fique sabendo que não me responsabilizo se você cagar nas calças. – disse Nelson rindo.

– Agora vamos terminar de ver as Suecas safadas e o Zéfiro e seu catecismo…

Nelson foi até a fogueira e se juntou aos outros moleques que pegaram novamente as tais revistas. Henrique ficou atrás e esperou Nelson se virar.

– Quando? – perguntou Henrique nervosamente.

– Amanhã no fim da tarde. Esteja aqui. – respondeu Nelson, depois se virando para ajeitar as batatas na brasa da fogueira.

Henrique se afastou do local, ainda enjoado por ter visto o que viu nas revistas. Voltou para casa pensando em Cristina, pensando na inocência dela, na infantilidade dele por não saber lidar com revistas de sexo explicito, ainda mais em imaginar como seria entrar no território dos temidos Galiléias e lidar com aquela realidade cruel…

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Trecho do Livro: Naqueles Tempos – pags. 32 e 33

Autor: * César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

Vamos falar de privilégios…?

                  Reproduzo aqui, um pedaço do livro que estou escrevendo. Nele, eu conto fragmentos de histórias que ocorreram na minha infância. Muitas delas, bem reais. Quando vejo gente falando sobre pessoas que se deram bem por ter tido alguns privilégios na vida, me lembro destas histórias na bairro onde eu passei a infância e onde não havia muitos privilégios, apenas desgraça por todos os lados. Todos compartilhavam da mesma dor e alegria de viver. Grande parte da turma que eu convivi venceu na vida, alguns poucos sucumbiram. A natureza é assim mesmo. Implacável com muitos e gentil com alguns poucos, infelizmente. De fato, temos que lidar com a realidade, por mais dura que ela possa parecer. O resto é mimimi. Forçar uma igualdade, eliminar as paixões humanas e sua avareza, pecados ou ganancia, ou as diferenças entre os seres é algo tão surreal, que só trouxe morte e destruição quando quiseram implantar isso. Quando eramos crianças, chamávamos algumas crianças mais jovens ou que tinham um baixo desempenho de “cafés com leite”. Simples assim e o jogo seguia. O problema é que muitos adultos saudáveis, ainda querem ser tratados desta forma! Mas a vida é dor intensa (né Schopenhauer? ) e muitos não admitem que seja assim e batem o pé fazendo birra. (os nomes e apelidos dos personagens são fictícios). Boa Leitura!

Peladeiros

                 “Em dia comum no início dos anos 70 em um bairro na periferia de São Paulo…

 Então Henrique lembrou que quando criança, ele viu uma leva de gente sofrendo à sua volta. Certa vez, toda a molecada do bairro estava perto da fogueira, no campinho onde eles jogavam bola, assavam batatas e preparavam o cerol para passar nas linhas das pipas. Camarão, um menino da rua de baixo de uns oito anos, que ganhara este apelido por ser vermelho demais, estava segurando um monte de folhas de jornal sob o braço, preocupado apenas em manter o fogo aceso. Maurinho, um moleque gozador e vizinho dele, estava ali do lado, contando piadas e provocando o Camarão, enquanto os outros moleques socavam os braços uns dos outros em uma brincadeira chamada “braço de ferro”. Em um momento de distração de todos, Maurinho sorrateiramente acendeu um palito de fósforo e colocou fogo nos jornais que Camarão estava segurando e gritou:

– Fogo no Camarão!

 Todos riram muito, até Henrique, geralmente quieto, riu muito. Camarão não percebeu do que se tratava, pensou que era mais uma piada do Maurinho e ficou ainda concentrado na fogueira. De repente, Camarão sentiu o calor do fogo sobre sua pele. Instintivamente ele se levantou e começou a correr sem largar o jornal em chamas. Na corrida, o fogo se alastrou rapidamente e pegou em sua camiseta que entrou em chamas e que começou a derreter sobre a pele. Ainda sem largar os jornais, ele corria em direção a sua casa e gritava pelo nome da mãe. Os vizinhos ouviram os gritos de horror do menino e correram para ajudá-lo. Alguns com cobertores arrancados dos varais para abafar o fogo, outros com água, outros corriam para lá e para cá sem saber o que fazer. Nada foi suficiente. Camarão jamais se livraria das profundas cicatrizes das queimaduras em seu tórax e braços. Maurinho, depois daquele dia, que era alegre e gozador, se tornou um menino fechado e triste também, talvez tentando lidar com suas próprias feridas e cicatrizes.

   Henrique pensou que, às vezes, envergonhava-se de se queixar com a mãe ou o pai por quase nada e isso poderia ser muito injusto, ou até mesmo, depois disso, começou a ter vergonha de sentir dó de si mesmo, sabia viver em um lar sem muitas questões aparentes.

   Um dia, seu amigo Nelson, quase que perdeu a família inteira quando o pai resolveu matar um bandidaço da região a tiros que havia ameaçado a família deles e que, loucamente,  colocara todos no meio de um fogo cruzado sem fim. Por sorte, só o bandido levou a pior.

   Lembrou-se do dia em que a Dona Mariana, a sua vizinha bem velha, entrou em desespero total quando seus filhos bêbados brigaram e destruíram a casa toda. Do quarto, dava para Henrique ouvir os gritos desesperados dela pedindo para eles pararem.

     Do outro lado da casa de Henrique, tinha a casa da Dona Carlota. Toda a família dela tinha vindo da Bahia. Seu marido, o seu Jovelino, era músico e vivia viajando. Um dia, por causa dos preparativos técnicos para construir a casa principal, Eurico, o pai de Henrique, colocara um andaime para facilitar o acesso dos pedreiros às paredes. Mas por alguma razão que Henrique jamais descobrira, os filhos de dona Carlota retiraram os andaimes e atearam fogo nas madeiras. Dona Clara ficou indignada e houve uma discussão ferrenha entre Carlota e a mãe de Henrique. Nesse dia ele se sentiu com muito medo e Clara então pediu para que ele e o irmão pequenino entrassem em casa e saíssem daquela confusão. Carlota então pediu aos filhos, espumando de ódio, que apedrejassem a casa de Henrique como uma forma de intimidação maluca. Ouvindo os barulhos das pedras, Henrique se aninhou no colo da mãe junto com os irmãos pensando onde estaria seu pai que nunca aparecia para ajudá-los, enquanto ouvia as pedras batendo no telhado e nas paredes.

    Henrique ia se lembrando de todos esses eventos um atrás do outro, como vagões de um trem puxados pela locomotiva do tempo. Lembrou-se do Tonho, o irmão do seu amigo Jorge que foi operar das amídalas e ficou meio lelé por causa de um problema com a anestesia.

    Lembrou-se do cachorro, que diziam que estava louco e que tinha entrado na sua casa, e se escondido debaixo de uma escada, e que foi sacrificado com um tiro pelo Saldanha, o policial que morava na rua de cima, depois de ter sido retirado de seu esconderijo sob a escada que dava acesso ao porão. Saldanha deu um tiro na cabeça do pobre animal enquanto Clara apertava os ouvidos de Henrique para ele não ouvir os gritos do cão morrendo.

   Lembrou-se do filho mais velho da Dona Carlota sendo preso por ter molestado o Maurinho, foi então que o silêncio e a tristeza de Maurinho fora explicada e fazia sentido. Aquele sujeito entrando algemado na radiopatrulha e a Dona Carlota aos prantos, e chorando, e gritando, e pedindo para não levarem o filho preso. Cena que jamais iria sair da mente de Henrique.

    Lembrou-se do choro desesperador da vizinha da frente de sua casa quando ela soube que o amado tio havia morrido em um acidente de carro na Via Anchieta.

   Lembrou-se do dia em que Miltinho perdera o dedão da mão direita na corrente da bicicleta, enquanto ele empurrava o irmão mais velho dele. Miltinho desastradamente escorregou e segurou sem querer na corrente bem na hora que o irmão estava forçando uma pedalada. Henrique viu o povo procurando pelo dedo do menino e quando acharam lavaram e colocaram em um balde com gelo. Ele se lembrou de que viu Miltinho muito  pálido, chorando, sentado em um táxi e segurando uma fralda, que envolvia a sua mão, para evitar sujar o carro com sangue. E a última lembrança ainda bem viva, e a pior, foi ver o cadáver do homem na lagoa envolto em sangue, assassinado a facadas.

   Aquela vida naquele bairro afastado era só desgraça por todos os lados, apesar dos valores cristãos que as famílias dali procuravam preservar duramente. Mas a realidade nivelava todo mundo que ali vivia por baixo, em uma miséria humana quase sem fim.”

(trecho retirado do meu livro “Naquele tempo…” páginas 19 e 20)

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.