O pedantismo barato do eruditismo com seu monóculo.

monoculoRecentemente postei um vídeo no Youtube para meus alunos onde falo sobre o Teorema da Incompletude do Matemático Kurt Göedel . Fiz o vídeo pensando em usá-lo com meus alunos do ensino médio, por isso usei palavras simples para me fazer entender.

É um assunto fascinante, mas espinhoso. Falo de lógica, da criação do universo, da finitude da matéria, do tempo e do espaço,  das lacunas da realidade e da matemática que a ciência não consegue fechar. Falo de coisas complexas que quase ninguém está interessado saber. Falo principalmente, e deixo bem claro neste vídeo, sobre a minha fé em Deus ao explicar essas coisas, pois creio que sem Ele a ciência jamais será completa. E é disso que o Teorema da Incompletude trata.

Todas as vezes que vou postar um vídeo, eu tomo muito cuidado. Eu me desgasto tremendamente pensando em como transformar um assunto extremamente complexo e chato em algo simples e fascinante. Tentar fascinar as pessoas com assuntos chatos e entendiantes é uma das minhas tarefas. Afinal, estou me tornando um professor e isso é um exercício extremamente salutar se eu quiser atingir meus objetivos na área da docência.

Para minha surpresa, recebi alguns Feedbacks interessantes. Muitas pessoas ficaram felizes com minha explicação. Me agradeceram pela simplicidade da explicação que eu dei. Mas outras pessoas que, do alto de sua sabedoria e erudição, disseram que um professor, um matemático e conhecedor da lógica, jamais poderia usar “vícios de linguagem” tais como o de iniciar uma frase com “Na verdade…”  para me expressar, pois isso não é de bom tom para homens como eu e que isso causa certa estranheza.

Ora, mas minha proposta é exatamente essa. Tratar de forma mais simples possível assuntos espinhosos da matemática e da física. Quero fazer as pessoas entenderem, de forma simples e clara, coisas que aparentemente são complexas e difíceis. Quando estou falando, não fico pensando se vou usar essa ou aquela oração gramatical. Se é subordinada adverbial causal ou se é um aposto ou um vício de linguagem. Apenas falo com meu coração e procuro errar pouco, reviso o que falo, corto, regravo o que entendo serem erros evidentes.

Estou escrevendo minha dissertação de mestrado e sei o quanto é importante usar bem a língua portuguesa. Isso é importante para que todos que participarem da banca examinadora entendam minha linha de pesquisa de forma clara e sem dúvidas elementares. Morrerei de vergonha se em minha dissertação aparecer algum erro crasso, erros de lógica ou coerência, ou ainda pior, algo parecido com plágio. Por certo, contratarei os serviços de um revisor de texto profissional e passarei meu trabalho por um severo filtro anti plágio e gramatical para evitar problemas e para que minha dissertação fique impecável.

Agora, quando converso com meus alunos, com minha mãe, meus filhos, minha esposa, com o rapaz da banca de batatas na feira, com o papagaio do meu aluno, ou com minha câmera, procuro ser eu mesmo, com meus vícios de linguagem e minhas falhas de aprendizagem da dificílima língua portuguesa.

Procuro sempre estudar e me manter atualizado. Aprender nunca é demais. A linguagem falada de forma coloquial não necessariamente necessita ser assim tão rígida gramaticalmente. Claro que devemos falar de forma correta respeitando a gramática mais elementar, mas a linguagem deve, antes de tudo, ajudar a comunicar uma ideia de forma clara para que todos compreendam o seu pensamento, sem ruídos ou ma interpretação. Penso que na linguagem escrita, devemos a todo custo seguir as regras básicas da gramática e da norma culta. Isso é dever de todos. Por isso, sempre tento evitar ao máximo atingir o pedantismo vazio da completa erudição na oralidade. Isso, de certa forma, arrefece a minha vontade de comprar um monóculo e usá-lo apenas para parecer um culto, um pedante e espantar os poucos alunos que ainda me procuram para aprender alguma coisa de útil.

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Naquele tempo…

Reproduzo aqui, um pedaço do livro que estou escrevendo.

Nele, em terceira pessoa, eu conto fragmentos de histórias que ocorreram na minha infância. Muitos destes fragmentos são bem reais, outros, pura ficção. Aqui conto um pequeno trecho de uma história que passei na minha infância. A narrativa está em terceira pessoa. A história se passa na periferia de SP no fim dos anos 60 início dos anos 70.

ZefiroHenrique a olhou nos olhos profundamente e ela correspondeu. Um arrepio percorreu todo seu corpo. Sentiu vontade de abraçá-la e beijá-la ali mesmo. Ficou nervoso, excitado e sua saliva engrossou. Ele, apesar de um pouco mais novo, era ligeiramente mais alto que ela. Acabou por desviar o olhar, abaixou o rosto e mirou os sapatos pretos envernizados de Cristina.

– Essa história está me matando, mas tenho que seguir com isso. Vou achar uma saída, talvez eu me atrase, talvez eu saia no meio do evento de amanhã lá na escola, não sei. – disse isso segurando suavemente os braços de Cristina que se deixou ser tocada por ele e ela se aproximou ligeiramente do rosto do amigo, o suficiente para que ele sentisse seu suave perfume juvenil.

Os dois novamente se olharam. Cristina percebeu a falta de jeito do rapaz, mas notou certa coragem nele. Ela sabia que Henrique não era mais um menino e que ele logo se transformaria em um bom homem e ela sabia muito bem que esta história o estava mudando definitivamente.

– Quer ir comigo? – perguntou Henrique olhando novamente nos olhos de Cristina.

– Não sei, não sei. – Cristina então olha para o chão e relutante responde – Meu pai vive de olho em mim, vai ser complicado com certeza.

– Bem, vou pensar em um jeito de fazer isso acontecer, pode acreditar, vou falar com o Nelson. – disse Henrique mais confiante que nunca.

Eles andaram mais um pouco pela rua empoeirada e alcançaram o entroncamento da Rua Dois com a Rua Três, quase em frente à casa da Senhora Keller, a professora de piano. Ela se afastou um pouco esperando pela despedida. Ele a beijou no rosto. Cristina fechou os olhos para receber aquele beijo simples e quando abriu novamente os olhos percebeu que ele já olhava dentro de seus olhos castanhos de maneira terna, suave e que demonstravam para ela um desejo quase que sem controle. Ele dizia em pensamento que a amava e que desejava ficar ao lado dela para sempre, mas que ainda não estava pronto como um homem de verdade. “- Espero que ela leia meus pensamentos e que me entenda” – pensou Henrique enquanto se afastava vagarosamente.

Cristina desceu a rua em direção a sua casa e Henrique seguiu seu caminho ainda com as pernas trêmulas por ter ficado tão próximo da garota que amava. Pensava que deveria tê-la beijado na boca. “- E se ela me rejeitasse?”, ele pensou. Ele sabia que tinha feito a coisa certa, mas sua insegurança de menino ainda era forte dentro dele. “Será que ela entendeu?” Seus pensamentos começavam atormentá-lo. Ao mesmo tempo em que estava feliz, começava a se preocupar com o que a menina estava pensando sobre ele. Não conseguia raciocinar decentemente. Pensava no terror de ser pego pelo bedel da escola, que era o pai de Cristina, ele com os olhos fixos sobre os dois. Sentia medo deles sendo pegos se beijando nos fundos da escola.

No final daquela tarde, Henrique resolveu dar uma passada lá no campinho de futebol. Deu uma volta no terreno baldio e viu onde Nelson, Vandi, Mauro e outros moleques estavam. Juntavam madeira para fazer uma fogueira. O campinho estava uma bagunça e cheio de lixo. Pedaços de jornal, folhas de caderno amarrotadas que seriam, provavelmente, usadas na fogueira, algumas garrafas de tubaína sem rótulo e todo tipo de material descartado que estava espalhado por todo o canto. Quando viram o Henrique, eles acenaram com as mãos.

– Vem cá, Magrão – disse Nelson acenando rapidamente – Corre moleque!!

Henrique ergueu a mão esquerda respondendo sem muito entusiasmo, fez sinal para esperarem um pouco e parou fingindo amarrar os sapatos para pensar no que dizer para aqueles moleques. Logo depois, se levantou e caminhou na direção deles já com algumas ideias na cabeça.

– Oi pessoal? – disse Henrique cabisbaixo e emendou –  E ai Nelson. Beleza? – E cumprimentou seu amigo com certa frieza.

– Saca só Magrão, alegre-se homem, veja só o que temos aqui, chega mais! – disse Nelson mostrando para Henrique uma revista com desenhos que pareciam mais um gibi em preto e branco com desenhos toscos e uma outra pequena revista com fotos coloridas.

Henrique se aproximou surpreso e percebeu fotos e desenhos que jamais ele havia imaginado existir. Ficou paralisado por uns instantes. Mulheres nuas se exibindo frontal e lascivamente para homens também nus. Em uma das páginas pode ler o que o desenho de uma mulher nua dizia:

“- Como é que é rapaz? Vai ficar aí me olhando o tempo todo? Vamos lá, tire a roupa!”

Henrique foi despertado de sua ausência por um cutucão.

– Diretamente da Suécia cara, coisa fina! – murmurou Xavier com seu sotaque castelhano inconfundível.

-E olha só esse gibi aqui, diretamente aqui do Brasil, o sacana do Zéfiro, o catequista. – disse outro moleque, mostrando os desenhos do gibi com um homem e uma mulher para Henrique. O moleque ria tanto que Henrique notou os vãos dos dentes de leite que haviam acabado de cair e outros dentes permanentes já apodrecidos pelas cáries e os seus cacos.

– Caramba Nelson, que merda nojenta é essa? – exclamou Henrique que, com nojo, cuspiu no chão uma grossa saliva que insistia em se formar na sua boca. Ele ficou mais surpreso ainda quando viraram a página e ele viu uma foto de um casal em uma posição muito estranha e outra com uma mulher, com uma maquiagem forçada e carregada. Henrique demorou alguns segundos para entender o que se passava.

A molecada ria alto enquanto Henrique sentia-se enjoado vendo aquelas fotos, vendo aquelas mulheres fazendo coisas que ele sequer imaginava serem possíveis.

Henrique procurou disfarçar seu nojo e indignação, afinal, muitas vezes na escola já tinha ouvido algumas pessoas dizerem que aquelas relações eram normais para mulheres modernas e livres, e que nada mais poderia ser considerado uma aberração. Ele pensou que deveria já ter se acostumado com isso e sua condição de homem, mas seu estomago insistia em virar sem controle.

– Vão também tocar fogo nisso? – Disse Henrique um pouco trêmulo e ansioso.

– Você está louco seu maricas! – disse Maurinho rindo. Só depois de vermos tudo o que tem aqui. Precisamos descolar algumas páginas grudadas. – quando ele disse isso, a molecada riu alto.

Nelson notou que Henrique precisava falar com ele e pediu pra molecada esconder a revista e acender a fogueira para assar umas batatas.

– Diga meu velho, que bicho te mordeu? – perguntou Nelson.

Henrique cuspiu novamente a saliva grossa que se acumulara em sua boca por causa do desconforto que as fotos provocaram nele.

– Vamos até aquele banco ali, disse ele. – Preciso te contar uma história.

Eles foram até o banco tosco de madeira ali perto e se sentaram. Os moleques, guardaram as revistas e continuaram na tarefa de acender a fogueira com os pedaços de papel e uma caixa de fósforos um pouco úmida. Outros moleques ainda estavam rindo do que viram nas revistas de sexo.

– Sabe o Vitor? O repetente lá da escola? – perguntou sem entusiasmo esperando ver a reação de Nelson.

– Sim. O que ele quer? – respondeu Nelson meio curioso.

– Então, mataram um camarada dele no Rio de Janeiro. Uma briga de estudantes com a polícia. Sei lá. Ele foi pra lá. Ele estava transtornado e disse que era um garoto “gente boa” mesmo! – Henrique empalideceu enquanto dizia essas palavras.

– E o que eu tenho a ver com isso? E você? Você sabe quem é o maluco que morreu? – perguntou Nelson desconfiado.

– Bem, não, mas ele está organizando alguma coisa com a turma dele. Falou que precisa recrutar gente para lutar pela causa, luta de classes. Olha Nelson, não sei bem o que ele quer. Mas ele pediu para encontrar o Nego Du no bar do seu Miraldo no Sábado. Pediu para falar com ele e combinar, mas sei que é você que tem contato com ele.

– Porra Henrique, que merda cara! – E esse Vitor? Ele pensa que é o que, heim? O Nego Du é gente da pesada. É um ladrão e não revolucionário. – disse Nelson quase gaguejando. – Se a gente for pego na subversão a gente se fode de todos os lados.

Henrique não imaginava que Nelson saberia algo sobre essas palavras, o cara era um tosco, como ele dizia aquelas palavras até então só eram ouvidas pelo seu pai no “Reporter Esso”, essas coisas eram totalmente novas pra moleques como eles, mesmo assim ele continuou.

– Eles moram na mesma vila Nelson. Eles se conhecem. O problema é que o Vitor foi pro Rio e só volta na sexta. Me leva até lá, daí eu marco esse encontro e tá tudo resolvido.

Nelson sabia que era um risco procurar Nego Du e se meter com os Galileias. Ele desconfiava que Henrique estava apenas pensando em mais uma “aventura”.

– Moleque, você não é dessa laia, você tem que tomar cuidado. Olha, a gente vai, mas fique sabendo que não me responsabilizo se você cagar nas calças. – disse Nelson rindo.

– Agora vamos terminar de ver as Suecas safadas e o Zéfiro e seu catecismo…

Nelson foi até a fogueira e se juntou aos outros moleques que pegaram novamente as tais revistas. Henrique ficou atrás e esperou Nelson se virar.

– Quando? – perguntou Henrique nervosamente.

– Amanhã no fim da tarde. Esteja aqui. – respondeu Nelson, depois se virando para ajeitar as batatas na brasa da fogueira.

Henrique se afastou do local, ainda enjoado por ter visto o que viu nas revistas. Voltou para casa pensando em Cristina, pensando na inocência dela, na infantilidade dele por não saber lidar com revistas de sexo explicito, ainda mais em imaginar como seria entrar no território dos temidos Galiléias e lidar com aquela realidade cruel…

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Trecho do Livro: Naqueles Tempos – pags. 32 e 33

Autor: * César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

Vamos falar de privilégios…?

                  Reproduzo aqui, um pedaço do livro que estou escrevendo. Nele, eu conto fragmentos de histórias que ocorreram na minha infância. Muitas delas, bem reais. Quando vejo gente falando sobre pessoas que se deram bem por ter tido alguns privilégios na vida, me lembro destas histórias na bairro onde eu passei a infância e onde não havia muitos privilégios, apenas desgraça por todos os lados. Todos compartilhavam da mesma dor e alegria de viver. Grande parte da turma que eu convivi venceu na vida, alguns poucos sucumbiram. A natureza é assim mesmo. Implacável com muitos e gentil com alguns poucos, infelizmente. De fato, temos que lidar com a realidade, por mais dura que ela possa parecer. O resto é mimimi. Forçar uma igualdade, eliminar as paixões humanas e sua avareza, pecados ou ganancia, ou as diferenças entre os seres é algo tão surreal, que só trouxe morte e destruição quando quiseram implantar isso. Quando eramos crianças, chamávamos algumas crianças mais jovens ou que tinham um baixo desempenho de “cafés com leite”. Simples assim e o jogo seguia. O problema é que muitos adultos saudáveis, ainda querem ser tratados desta forma! Mas a vida é dor intensa (né Schopenhauer? ) e muitos não admitem que seja assim e batem o pé fazendo birra. (os nomes e apelidos dos personagens são fictícios). Boa Leitura!

Peladeiros

                 “Em dia comum no início dos anos 70 em um bairro na periferia de São Paulo…

 Então Henrique lembrou que quando criança, ele viu uma leva de gente sofrendo à sua volta. Certa vez, toda a molecada do bairro estava perto da fogueira, no campinho onde eles jogavam bola, assavam batatas e preparavam o cerol para passar nas linhas das pipas. Camarão, um menino da rua de baixo de uns oito anos, que ganhara este apelido por ser vermelho demais, estava segurando um monte de folhas de jornal sob o braço, preocupado apenas em manter o fogo aceso. Maurinho, um moleque gozador e vizinho dele, estava ali do lado, contando piadas e provocando o Camarão, enquanto os outros moleques socavam os braços uns dos outros em uma brincadeira chamada “braço de ferro”. Em um momento de distração de todos, Maurinho sorrateiramente acendeu um palito de fósforo e colocou fogo nos jornais que Camarão estava segurando e gritou:

– Fogo no Camarão!

 Todos riram muito, até Henrique, geralmente quieto, riu muito. Camarão não percebeu do que se tratava, pensou que era mais uma piada do Maurinho e ficou ainda concentrado na fogueira. De repente, Camarão sentiu o calor do fogo sobre sua pele. Instintivamente ele se levantou e começou a correr sem largar o jornal em chamas. Na corrida, o fogo se alastrou rapidamente e pegou em sua camiseta que entrou em chamas e que começou a derreter sobre a pele. Ainda sem largar os jornais, ele corria em direção a sua casa e gritava pelo nome da mãe. Os vizinhos ouviram os gritos de horror do menino e correram para ajudá-lo. Alguns com cobertores arrancados dos varais para abafar o fogo, outros com água, outros corriam para lá e para cá sem saber o que fazer. Nada foi suficiente. Camarão jamais se livraria das profundas cicatrizes das queimaduras em seu tórax e braços. Maurinho, depois daquele dia, que era alegre e gozador, se tornou um menino fechado e triste também, talvez tentando lidar com suas próprias feridas e cicatrizes.

   Henrique pensou que, às vezes, envergonhava-se de se queixar com a mãe ou o pai por quase nada e isso poderia ser muito injusto, ou até mesmo, depois disso, começou a ter vergonha de sentir dó de si mesmo, sabia viver em um lar sem muitas questões aparentes.

   Um dia, seu amigo Nelson, quase que perdeu a família inteira quando o pai resolveu matar um bandidaço da região a tiros que havia ameaçado a família deles e que, loucamente,  colocara todos no meio de um fogo cruzado sem fim. Por sorte, só o bandido levou a pior.

   Lembrou-se do dia em que a Dona Mariana, a sua vizinha bem velha, entrou em desespero total quando seus filhos bêbados brigaram e destruíram a casa toda. Do quarto, dava para Henrique ouvir os gritos desesperados dela pedindo para eles pararem.

     Do outro lado da casa de Henrique, tinha a casa da Dona Carlota. Toda a família dela tinha vindo da Bahia. Seu marido, o seu Jovelino, era músico e vivia viajando. Um dia, por causa dos preparativos técnicos para construir a casa principal, Eurico, o pai de Henrique, colocara um andaime para facilitar o acesso dos pedreiros às paredes. Mas por alguma razão que Henrique jamais descobrira, os filhos de dona Carlota retiraram os andaimes e atearam fogo nas madeiras. Dona Clara ficou indignada e houve uma discussão ferrenha entre Carlota e a mãe de Henrique. Nesse dia ele se sentiu com muito medo e Clara então pediu para que ele e o irmão pequenino entrassem em casa e saíssem daquela confusão. Carlota então pediu aos filhos, espumando de ódio, que apedrejassem a casa de Henrique como uma forma de intimidação maluca. Ouvindo os barulhos das pedras, Henrique se aninhou no colo da mãe junto com os irmãos pensando onde estaria seu pai que nunca aparecia para ajudá-los, enquanto ouvia as pedras batendo no telhado e nas paredes.

    Henrique ia se lembrando de todos esses eventos um atrás do outro, como vagões de um trem puxados pela locomotiva do tempo. Lembrou-se do Tonho, o irmão do seu amigo Jorge que foi operar das amídalas e ficou meio lelé por causa de um problema com a anestesia.

    Lembrou-se do cachorro, que diziam que estava louco e que tinha entrado na sua casa, e se escondido debaixo de uma escada, e que foi sacrificado com um tiro pelo Saldanha, o policial que morava na rua de cima, depois de ter sido retirado de seu esconderijo sob a escada que dava acesso ao porão. Saldanha deu um tiro na cabeça do pobre animal enquanto Clara apertava os ouvidos de Henrique para ele não ouvir os gritos do cão morrendo.

   Lembrou-se do filho mais velho da Dona Carlota sendo preso por ter molestado o Maurinho, foi então que o silêncio e a tristeza de Maurinho fora explicada e fazia sentido. Aquele sujeito entrando algemado na radiopatrulha e a Dona Carlota aos prantos, e chorando, e gritando, e pedindo para não levarem o filho preso. Cena que jamais iria sair da mente de Henrique.

    Lembrou-se do choro desesperador da vizinha da frente de sua casa quando ela soube que o amado tio havia morrido em um acidente de carro na Via Anchieta.

   Lembrou-se do dia em que Miltinho perdera o dedão da mão direita na corrente da bicicleta, enquanto ele empurrava o irmão mais velho dele. Miltinho desastradamente escorregou e segurou sem querer na corrente bem na hora que o irmão estava forçando uma pedalada. Henrique viu o povo procurando pelo dedo do menino e quando acharam lavaram e colocaram em um balde com gelo. Ele se lembrou de que viu Miltinho muito  pálido, chorando, sentado em um táxi e segurando uma fralda, que envolvia a sua mão, para evitar sujar o carro com sangue. E a última lembrança ainda bem viva, e a pior, foi ver o cadáver do homem na lagoa envolto em sangue, assassinado a facadas.

   Aquela vida naquele bairro afastado era só desgraça por todos os lados, apesar dos valores cristãos que as famílias dali procuravam preservar duramente. Mas a realidade nivelava todo mundo que ali vivia por baixo, em uma miséria humana quase sem fim.”

(trecho retirado do meu livro “Naquele tempo…” páginas 19 e 20)

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

No mundo, reina a loucura.

bebzaoÀs vezes é necessário colocar os pensamentos reacionários para fora da cachola. O mundo está tão confuso, tão fora de ordem, que nem sei mais o que fazer. Em nome de um progressismo idiota, estamos nos transformando em escravos de um sonho. O sonho de todos sermos politicamente corretos com tudo e com todos. O sonho de uma revolução por um mundo perfeito que jamais será alcançado. Vivemos em um mundo onde tudo está invertido, fora da ordem, onde reina a loucura.

Recentemente, uma mulher grávida, abordou minha mulher. Ela estava sob síndrome de abstinência do crack. Era uma rua fedorenta no centro de São Paulo, estávamos parados no trânsito esperando nossa vez de entrar no estacionamento do mercado.

– Ei, me da uma comida aí? Ela pediu! mostrando a barriga proeminente.

-Não temos comida, senhora – respondeu minha esposa, educadamente!

Putos, vagabundos!! Ela vociferou algumas palavras ininteligíveis enquanto nos ameaçava.

Minutos depois, um policial que me deu uma bronca danada por eu estar “atrapalhando” o trânsito parado nesta rua fétida e asquerosa.

– O que o senhor pensa que está fazendo? Você vai pra onde? Pra esquerda? Pra direita? Num tá vendo que está atrapalhando o transito? Seu irresponsável…

O motivo era que guardas da CET estavam “controlando” o acesso ao estacionamento e demoravam para liberar a entrada ao local. Olhei para o policial de forma politicamente incorreta, mas educadamente e disse:

– Senhor, eu vou sempre para a direita, o problemas são seus colegas estatais que estão fazendo o corpo mole deles. Olha lá, eu disse apontado para os dois marronzinhos, veja, estão batendo papo sobre o cheiro de merda do rio. Eles são os responsáveis, converse com eles, por favor.

O policial, com uma cara de bunda, sem entender direito, seguiu seu caminho e eu entrei no estacionamento cheio de pedintes com abstinência de drogas. No caminho, ainda fui abordado por um travesti oferecendo seus serviços.

– Obrigado senhor, não faça isso, eu estou com minha esposa e meus filhos aqui, respondi.

Seu viado!!!! Disse o travesti com uma voz embargada pelo excesso de bebidas.

Homens modernos são infantilizados, efeminados e qualquer manifestação de masculinidade é atacada como se fosse doença.

Quando alguém diz a verdade, os loucos respondem:

– Ninguém é dono da verdade!!!

Quando não, o chamam de filho da puta, apenas por dizer o óbvio.

Quando um ladrão aborda um trabalhador para roubá-lo, ele fala:

– Passa a grana aí o vagabundo!!!

Outro dia, um rapaz, famoso por gravar vídeos fazendo perguntas simples a esquerdopatas, recebeu a seguinte frase na cara de um homem barbado, manifestante de esquerda:

– Fascistas como você a gente dialoga na ponta do fuzil!

É ou não é loucura? É a inversão da realidade. É a revolução da loucura em marcha.

O que dizer para essa gente que, em meio a sua loucura, te chamam justamente do que eles são?

Quem criou isso e quem segue isso e entrou nessa loucura, não saiu da fase criança da vida. São dependentes de alguma coisa e serão para sempre. Não aceitam o simples fato que cresceram e agora a vida exige que tenham responsabilidades. São gente que se revolta com tudo e com todos. Responsabilizam Deus por os fazerem ter que trabalhar e lutar para ganhar a vida. Gente “rebeldezinha” sem saber nem o porque está rebelde. São como bebes chorões que pensam ter o poder de tirar as fraldas sozinhos, pensam que já são donos de si, mas precisam desesperadamente de alguém que cuide deles. São capazes de brincar com a própria merda, as comem e gostam.

Para terminar, hoje eu li esse interessante comentário em um blog que eu sigo:

“Se um homem hétero for cantado por um homem gay, para recusar a cantada terá de responder: – desculpe, mas já tenho namorado. Do contrário, será acusado de homofobia.
Se o gay cantador for negro, terá o hétero de provar ainda, se branco for, que não o recusou por racismo.
Será crime dizer que um negro ou negra é feio ou feia. Somente poderá ser chamado de feio o branco.
Se uma negra quiser namorar um branco, será discriminada pelos homens negros; se um homem negro quiser namorar uma branca, esta será odiada pelas mulheres negras.
Se um homem negro bater na namorada branca, nada lhe acontecerá porque quem der queixa será acusado de racismo; se um homem branco agredir a namorada negra, será acusado de machismo e racismo.
Se um homem negro recusar cantada de gay branco, não será chamado de homofóbico mas sim de negro de bom gosto; se for o oposto, o branco será acusado de homofobia e racismo; se os dois forem negros, o hétero será acusado de homofobia, mas, por ser negro, será depois perdoado.”

Isso é ou não é uma loucura?

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

Você é um viajante solitário?

wise-career-choicesHoje, perdemos a hora. Levei minha esposa até o carro ainda sonolento apenas para mudar os benditos carros de lugar na garagem. Temos uma logística doida para levar e buscar os meninos na escola. Sempre funciona, mas às vezes não. E hoje não funcionou. Não consegui preparar o café da manhã com tapioca, queijos e presunto, ovos quentes e muito amor, como todos os dias. Também não consegui levar os meninos para a escola de inglês como faço todas as quartas feiras de manhã e isso me deixou um pouco contrariado.

Como em todas as manhãs, me sento na cadeira em meu escritório e começo a trabalhar em um projeto educacional que acredito ser importante para mudar a vida de muita gente e que estou desenvolvendo para 2017. Como de costume, antes de iniciar qualquer atividade laboral como: abrir planilhas, apresentações, livros e anotações, me vem a mente algumas orações, provérbios e salmos que me ajudam nos estudos, mas, mesmo assim, depois vem de volta à minha cabeça, os meus temidos sonhos inquisidores que, noite após noite, me atormentam. E sempre busco seus significados em minhas ansiedades e medos mais profundos. Os monstros das profundezas me dizendo quem sou. As orações ajudam afastar meus medos, mas não apaga a minha memória.

Sonhei esta noite, que uma pessoa importante de uma empresa que trabalhei, estava cego e me pedia ajuda. Eu caminhava solitário por um mundo destruído, mas  gentilmente, ofereci meu braço para levá-lo ao destino que ele queria. Incrivelmente, sempre algo me impedia de fazê-lo. Caminhos fechados, pontes quebradas, portas trancadas, elevadores pequenos demais, lentos demais, portas pequeninas, escadas quebradas em um mundo caótico e destruído. A impaciência e admoestações que aquele homem importante me falava, estava me deixando irritado e infeliz, justamente por eu não conseguir levá-lo até aonde ele queria, apesar de todos os meus esforços.

Ainda pela manhã, algumas horas após ter levantado da cama, minha mente ainda estava com o semblante tenaz e inquisidor daquele homem me perseguindo. Passei as mãos na cabeça seguidas vezes para tentar apagar aquele sonho, mas nada dava jeito naquela sensação estranha de ter me enganchado com o semblante de um homem que nada tem mais a ver com minha vida.

Foi aí que percebi todo o simbolismo do sonho: Sempre ajudo quem me pede ajuda e faço o que posso com o que tenho, mesmo diante das dificuldades da vida, mesmo quando os ajudados não entendem isso. Faço isso sempre sem dizer não. Nunca nego uma ajuda. Nunca digo: “Isso não vou fazer, me desculpe senhor!” O homem cego representa aqueles que escolheram seguir pela segurança de ter alguém os levando para algum lugar, cegos, sem ver que tudo em sua volta é morte e destruição. Eu, em meu inconsciente, sou assombrado pelo meu cérebro achando que ainda tenho ter que levar essa gente cega para um destino fadado ao fracasso, e sempre estou sozinho nessa empreitada.

Ainda na minha cadeira, me espreguicei, feliz por ter decifrado o sonho e fazendo a cadeira inclinar até encostar na parede. Olhei para o teto e pensei: “Será mesmo que sou um viajante solitário?”. Sabem, queridos leitores, quando nos damos conta disso e vemos que isso é verdade, mete medo pra valer? Se imagine sozinho nessa caminhada pela vida? Chegamos sozinhos e vamos sozinhos.

Bem, no dia que escolhi fazer o que faço hoje (dar aulas e tentar ajudar as pessoas a tirar a venda dos olhos que as cegam para elas verem o que tem ao redor delas), sabia que seria uma tarefa muito difícil e solitária. Tenho certeza que muitos por aí me chamam de doido. E devo ser mesmo. É insano pensar em se desconectar da segurança cega de um bom emprego em uma multinacional toda certinha e cheia de regras de comportamento corporativo e se lançar em uma viagem solitária sentado em uma cadeira em um escritório pequeno, rodeado de livros, ideias, com os filhos correndo pela casa, o agito da preparação para irmos para a escola e eu, perdido, sem nenhuma esperança de faturar um centavo no fim do mês. É insano lutar contra seus medos mais profundos que essa situação gera, lutar contra seus pecados de estimação, sabe aqueles pecadinhos que você insiste em manter para deixar tudo mais aceitável, mais leve. É uma luta diária em busca das virtudes humanas. Por isso, entendo profundamente os que se agarram cega e loucamente a um cargo público, ao emprego no banco, à escalada social dentro de uma grande corporação multinacional.

Percebi que fiz uma escolha. Sabe quando em seu caminho você chega em uma bifurcação e aí você tem que escolher entre um caminho bem pavimentado, mas que no fim sabe que ele o levará mais depressa aonde tu não quer chegar? Sim, pois ali encontrará um muro branco e lápides do outro lado e assim não terá uma boa história para contar, ou ninguém terá uma boa história para contar sobre você?  e aí você toma, por uma Divina intuição, o outro caminho que é tortuoso, incerto, cheio de obstáculos e que você escolhe segui-lo, mais por fé do que por medo?

Eu pensei: “É certo isso? É errado? Não, são minhas escolhas e eu escolho esse outro caminho aqui, o que vai me livrar, não do muro, mas das facilidades que me escravizou por anos”. O que importa, é apenas saber que empreenderemos uma viagem solitária se quisermos.

Lutamos com nossos medos e na maioria das vezes sem a fé Naquele que nos guia de verdade. O que descobri nesse caminho que escolhi é que o quanto mais o medo nos assola, mais nossa fé no Criador do universo aumenta, mais nos aproximamos Dele. Mais devemos orar a Ele e pedir perdão pelos pecadinhos de estimação que nos atormenta todos os dias. Mais ainda devemos buscar os tesouros que o Rei do Universo nos disponibiliza em abundância em todo o cosmos com seu amor. Devemos buscar esses tesouros no céu e só assim conseguiremos materializa-los na terra. Assim, sua viagem nunca será solitária e você entenderá que o caminho escolhido, por mais difícil que ele possa parecer, será bem mais agradável pela maravilhosa companhia de Deus que estará incansavelmente sempre ao seu lado.

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

 

 

Estrela D’Alva Futebol Clube

PeladeirosO ano era 1974. Mês: Maio ou Junho. Foi a época que me senti o dono de um time de futebol. O ano que muitos dizem que foi o auge da “ditadura militar”, o que eu considero uma injustiça. Foi um ano bem tranquilo na vida de minha família. Eu tinha só 11 anos. Para mim foi um dos anos mais legais da minha vida. Era o ano da copa do mundo. Tínhamos a segurança de que seriamos tetra na Alemanha. Como sempre a nossa seleção era imbatível. Tudo bem que o Pelé não iria mais jogar, ora, tínhamos ainda o divino Ademir da Guia.

No bairro onde eu morava as ruas eram de terra, mas em breve estariam todas asfaltadas e o campinho, onde jogávamos bola, estava sendo revitalizado. Haviam máquinas da prefeitura espalhadas pelo bairro. Naquele dia, juntamos a molecada e fizemos umas traves de madeira e testamos jogando a famosa rebatida. Tecemos uma rede tosca feita de barbante que um moleque amigo nosso “roubou” da mãe costureira. Jogo era de duplas. Uma dupla no gol e a outra dupla batendo pênaltis alternados. Se a dupla no gol rebatesse a bola, um da dupla que estava no gol saia para a linha contra a dupla de batedores. Gol direto valia 1, de rebatida valia 2 e bola na trave e valia 3.

Foi nesse campinho que as mais memoráveis partidas de futebol da minha infância foram travadas. A rua 2 contra a rua 3 e também contra a rua 1. Às vezes, quando não era jogo rua contra rua, montávamos os times misturados no Jakken Po , escolhíamos o lado do campo no par ou ímpar. Disputávamos: Tubaína de Maçã, sanduba de mortadela ou biscoito de polvilho. Muitas vezes aconteciam injustiças e os considerados “piores” jogadores,  não eram escolhidos.

Por uma razão, que até hoje não sei explicar, ficava chateado com isso e resolvia frequentemente jogar do lado dos “injustiçados”. Ficava no time dos lixos. Dos renegados. Me recordo que as melhores partidas foram essas, onde jogávamos com a alma, com raça, pois sabíamos que não tínhamos talento para  ganhar dos bons. Muitas vezes perdi a tampa do dedão do pé. Outras vezes, ficava com o joelho sangrando. Mesmo assim, o jogo jamais parava. Muitas vezes fomos humilhados pelos craques da rua. Mas eu insistia em jogar sempre no time fraco. Não por me achar o bom, mas talvez por ser ruim também, mas principalmente por querer fazer parte de uma improvável e saborosa vitória do time considerado “fraco”. Quando vencíamos, comemorávamos pela praça toda, e quando isso acontecia, ficávamos sob os olhares de desprezo dos bons do pedaço.

Um dia, um pouco antes das férias de junho e com a expectativa do inicio da copa do mundo da Alemanha, fizemos um jogo contra a rua 1. Como sempre montei meu time com os renegados. Aquele dia a escalação foi incrível: Éramos eu, vulgo “o magrão”, meu irmão “o cabelo de anjo”, o Cascão, Neca “o gago”, Mário “manco”, Vandi “meleca” e Jorge “caolho” no outro time tinha: Deley, Flavinho “Peidorreiro”,  Xavier Gringo, Maurinho “o rato branco”, Jaci “cabelo de índio”, Adauto Melancia o craque e Zé Pedro “o louco”, jogavam muito.

A fama do time da rua 1 com um mix da rua 3 era de imbatíveis. Jogamos como nunca aquele dia. Perdemos como sempre. De lavada. Saímos na porrada com eles por causa de um gol de mão claro feito pelo Jaci, ele era esperto e bom de bola, mas vivia sacaneando. O jogo nem acabou.

Voltei para casa indignado. Queria revanche. Naquela noite chamei meu irmão e fizemos uma reunião. Tínhamos que criar um time oficial só pra sacanear os bons. O time dos renegados. Pensamos, pensamos e não achávamos um bom nome.Estávamos no quarto de dormir. De lá conseguíamos ouvir a gritaria da molecada correndo pelas ruas do bairro brincando de “carrocinha”, tipo Policia e Ladrão. Abri a janela e vi a lua cheia e logo abaixo a estrela mais brilhante do céu. Eu sabia que era um planeta e sabia que era mais conhecido como Estrela D’Alva. Na hora batizei meu futuro time de Estrela D’Alva Futebol Clube. Eu e meus sonhos megalomaníacos.

No dia seguinte bem cedo, reuni o time dos renegados e anunciei minha criação. Sem grana e sem recurso algum, vi que tínhamos que montar um “fardamento”. Perguntei se alguém tinha alguma camiseta branca e velha em casa, sabe aquelas que teriam apenas como destino ser pano de chão? Pois é, pedi que procurassem e trouxessem para imprimir o escudo e a numeração. Éramos pobres. Não tínhamos nada. Mas logo, algumas camisetas furadas, outras meio rotas, apareceram, mas faltavam a do Cascão e de outro garoto.. Fui pra casa, abri as gavetas e fucei até achar algumas outras lá no fundo, cheirando a naftalina. Juntei uma para mim, outra para meu irmão e mais duas, uma para o Cascão e outra para o Neca e as outras eram dos outros jogadores. Tínhamos então 8 camisetas. Achei uma caneta piloto verde sem tinta e coloquei álcool para revitalizar a tinta e consegui desenhar o escudo que ficou mais ou menos assim:

1 Dalva

Rabiscamos os números atrás das camisetas, eu era o 10. Eu era o Ademir da Guia. No dia seguinte, levei o “fardamento” para o pessoal do time. Cada  um ficou com a sua, cada um era responsável pela sua camiseta. Quando nossos adversários souberam do novo time, ficaram loucos. Queriam marcar um jogo naquele dia mesmo. Queriam nos destruir. Mas seguramos o ímpeto e marcamos a peleja para o dia seguinte. Na pracinha. Com as traves e a rede tosca. Ansiedade geral.

No dia seguinte, estávamos lá, na hora marcada, para a estreia do nosso amado Estrela D’Alva Futebol Clube. O time dos renegados. Eu sabia que iríamos ganhar. Era um sentimento só meu.

Vestimos as rotas camisas orgulhosos. O time adversário tirou um sarro da gente. Entramos em quadra, ali, e rapidamente decidimos quem sairia jogando, quem jogaria no gol, sem juiz para atrapalhar. Eu tinha uma bola de borracha dente de leite original, a bola era minha, mas eu queria é jogar com ela, furar se possível, mas tinha que ganhar aquele jogo. Regras definidas: Vale tudo, menos mão na bola e gol de mão, não vale sair do jogo mesmo se ralar a perna, joelho. Vira 4  acaba 8.

Foi um jogo memorável. Duro. Sem bola perdida. Gol lá, gol cá.  O jogo virou 4 a 3 para a rua três. Segundo tempo. Eles estavam preocupados, queriam acabar logo com o jogo. Saíram feito loucos querendo marcar logo 4 gols e acabar com a disputa. 5 a 3. Tomamos um gol inesperado que furou a rede tosca. Meu irmão foi até a rua lá embaixo e pegou a bola já surrada pelo jogo duro. Trouxe a dente de leite debaixo do braço em silêncio e colocou no meio do campo para a nova saída. No entreolhamos e percebi que ele queria surpreender o adversário. Fiquei com o pé sobre a bola e dei um pequeno toque para ele encher o pé direto para o gol adversário, no ângulo. 5 a 4. Na saída do time adversário, Cascão, sem querer, tomou a bola do Adauto Melancia, e ela veio para mim que toquei  encobrindo do goleiro deles. 5 a 5. Tensão no ar. Faltavam três gols para cada lado. Uma hora de jogo. Na nova saída, o time adversário tentou chutar a bola direto para o nosso gol. Mas ela foi longe e caiu na rua lá embaixo.

– Quem vai buscar? Gritou alguém. – Eu vou! falou Cascão.

O garoto correu e sumiu atrás de um muro. Todos tensos esperando o Cascão voltar e nada. Passaram-se alguns minutos, lá vem o Cascão sem a bola.

– Cadê a bola Cascão? eu gritei.

Nem respondeu, pois atrás dele vinham o temidos meninos da vila do sapo, um deles com a bola. Fim de jogo. Empate forçado para minha profunda decepção. Para não apanharmos na nossa rua pelos “maloqueiros”, marcamos um contra no campo deles e eles ficaram com a bola que seria recuperada se ganhássemos no campo de areia na casa deles.

Nem preciso contar que para o jogo contra os meninos da vila do sapo, levamos os melhores da nossa vila. O Estrela D’Alva Futebol Clube ganhara reforços, era o segundo jogo e o primeiro na casa de um adversário, em um campo de areia e lama ao lado de um córrego de esgoto fedorento. Finalmente ganhamos e por isso, foi porrada para todo lado, o plano dos meninos da vila do sapo era ficar com a bola, levamos socos e pontapés, mas heroicamente recuperamos a nossa bola. Cheguei em casa feliz da vida com o meu troféu recuperado. Tinha sido o último jogo do meu time. Meu inesquecível Estrela D’Alva.

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.

 

Pequeno guia da novilingua e do duplipensar dos esquerdistas

ESQUERDES
O que significa neologismo?
substantivo masculino
  1. 1.
    emprego de palavras novas, derivadas ou formadas de outras já existentes, na mesma língua ou não.
  2. 2.
    atribuição de novos sentidos a palavras já existentes na língua.

O neologismo é uma ferramenta muito útil e os comunistas usam esse recurso com muita propriedade. Com isso criam uma “novilingua”. Abaixo uma lista dos neologismos esquerdistas mais comuns e que são usados para te enganar todos os dias e seu real significado:

Quando um esquerdista diz…..     =    Na verdade ele quer dizer:…..

– Diálogo = Cuspo na sua cara e saio correndo e to cagando para o que você pensa.

– Popular/Povo = tudo aquilo que é de uso comum, sem valor e descartável

– Processo Democrático = Processo Totalitário

– Estado Democrático de Direito = Estado Comunista Totalitário

– Voz das urnas =  Eu faço a voz das Urnas. Minha fraude regularizada com apuração secreta

– Democracia = Comunismo/Socialismo

– Social Democracia = Comunismo/Socialismo

– Educação é um direito de todos = Marxismo Cultural para todos.

– Nossas instituições = Nossos QGs Comunistas

– Eleições democráticas = Eu no poder perpétuo

– Movimentos sociais = Guerrilha Urbana

– República = Comunismo

– Partidos = Companheiros

– Companheiros = Comunistas

– Cultura Popular = Destruição de valores do povo / Drogas / Lixo Hedonista

– Povo = Idiotas úteis

– Trabalhadores = Povo

– Partido dos trabalhadores = Comunistas

– Pátria Educadora = Pátria Doutrinadora.

– PAC = Plano de aceleração do comunismo

– Democratizar = Comunizar

– Elite = Conservador, seja ele rico ou pobre

– Conservador = Fascista

–  Fascista = Povo em geral / conservador cristão

– Oposição = Companheiros ( não temos e nem gostamos de oposição de verdade)

– Educar = Doutrinar

– Massificar = Comunizar

– Decadência = A Verdadeira democracia.

– Progressista = Marxista Cultural Militante

– Propostas Coletivas = Delicadezas Criminosas.

– Nós(1a pessoa do plural)/Nação = Eu (1a pessoa do singular)/companheiros.

– Cidadão = Idiota útil

–  Golpe = Tudo aquilo que atrapalha nossa perpetuação no poder, seja lá de onde venha.

– Safado = Companheiro delator

– Conspirador filho da puta = Companheiro que quer tomar o meu lugar na esquerda

– Temos que combater as drogas = Nosso fomento da Cultura Popular hedonista

– Política de Educação da Juventude = Funk da periferia, Sarrada, etc

– Redução do consumo e tráfico de drogas = Fomento da Educação e da Cultura Popular hedonista

– Educação = Doutrinação Esquerdista PSOLISTA

– Cadeia = Lugar bom para os meus opositores e inimigos

– A luta continua companheiros = A farsa continua comunistas.

– Reaça = Conservador cristão.

– Burguesia = Elite Politica dominante

-República Democrática ou Popular (Nome do País) = Ditadura Comunista (que é um País amigo)

– Ideologia de Gênero = Doutrinação Marxista Cultural para sexualizar crianças

– Estatuto (desarmamento, jovem e adolescente, idoso, etc etc) = O controle social

– Famílias Brasileiras = Odiamos e vamos destruir através da reengenharia social

– Deus = Estado

– Governo = meio para roubar dinheiro de forma licita.

– Democratização da mídias sociais = Controle estatal das mídias (censura)

– Liberdade = Drogas, Bagunça, zona, destruição total

Agora, pegue qualquer discurso de um esquerdista, use esse guia e veja a verdade sendo dita.

Aceito sugestões para ampliar e melhorar o nosso guia de neologismos esquerdista.

* César Manieri (54),  é engenheiro, músico, empresário, professor e especialista em educação matemática, diretor da escola Integro. Escreve em seu blog “Na metade do Caminho” e autor de textos e pensamentos sobre conservadorismo, religião, política, educação e auto conhecimento.